sexta-feira, 30 de maio de 2014

33. FILHOS DE NOSSAS ALMAS

       Falar de como e porquê os nossos filhos Ana Paula e Carlos Eduardo chegaram até nós, pelas vias do destino e do coração, principalmente no que se refira às razões das pessoas que os entregaram aos nossos cuidados paternais e maternais, confiantes de que os amaríamos tanto quanto amamos aos que nós mesmos havíamos gerado, seria invadir histórias que não nos pertencem, e, portanto, não me acho no direito de aqui mencionar quaisquer das circunstâncias que envolveram os eventos específicos do nascimento biológico de uma como do outro. Os motivos e as condições particulares referentes às atitudes tomadas pelas duas pessoas mais diretamente envolvidas nesse processo ficam, assim, devidamente preservados. Importante registrar somente o que representou para nós, para o nosso grupo familiar, a chegada de cada um dos dois bebês muito amados e a inclusão de mais duas datas comemorativas anuais cercadas de muita alegria para todos e de grande satisfação geral.
       A Sílvia estava com 10 anos, o André com 13 e a Bia com 15, quando a Aninha chegou, em 02 de julho de 1988, criando aquele clima de euforia em todos da casa. Como já mencionei anteriormente, morávamos na rua Dr. Cassiano e a vó Deloá ainda estava entre nós. Pena ela ter podido curtir tão pouco a netinha por quem se apaixonou à primeira vista e que adorava acolher e embalar em seus braços.
       Quando já nos encontrávamos na casa da Marcílio Dias, onde tocávamos a vida em frente, víamos a pequena Ana Paula crescer e desenvolver uma personalidade forte, voluntariosa. Nesse aspecto, aliás, era muito parecida com a Sílvia, mais do que com os outros dois irmãos, Bia e André.
       Quando ela estava com 8 anos, em 07 de agosto de 1996, eis que um novo "marujinho" embarca na nossa nau familiar, ganhando o nome de Carlos Eduardo e o apelido carinhoso Dudu, sendo chamado também, em família, de Dúdi. 
       Pequenino ainda, mostrava-se dono de um sorriso que chamava a atenção, por vir sempre acompanhado de um brilho intenso nos olhinhos, conquistando com muita facilidade a simpatia de todos. A Bia, nesse ínterim, contava com 23 anos e não estava mais em Pelotas, assim como o André, com 21 anos, ela morando em Antônio Prado e ele em Porto Alegre, ainda que não definitivamente, pois faziam seus respectivos estágios, sobre os quais falarei noutra ocasião. A Sílvia, com 18 anos, ainda morava conosco e preparava-se para casar-se. Deu ao maninho um lindo quarto todo branco.
       Um detalhe interessante: o Dudu foi o único dos nossos filhos que usou fraldas descartáveis. Até então, além de utilizarmos as tradicionais fraldas de pano, das quais tínhamos que tirar as sujeiras depositadas pela ação natural das necessidades fisiológicas, o que sempre fizemos com amor, não tínhamos máquina de lavar, e isto nos obrigava a muitas vezes enfrentar um tanque com água gelada, em pleno inverno. Mas tudo isso fazia parte de uma história bonita, da qual não mudaríamos nada se preciso fosse revivê-la desde o princípio.
       Devo esclarecer que lá no passado longínquo, quando a Neida e eu éramos apenas namorados, já faziam parte dos nossos sonhos e planos dois filhos não biológicos, que seriam acolhidos, oportunamente, e sob as graças dos Céus, como filhos de nossas almas. E fomos assim abençoados com cinco joias preciosas, que só nos têm proporcionado alegrias e um profundo orgulho, por serem todos tão amorosos e de índole própria tão boa. Embora as dificuldades por que passamos, dando-lhes, muitas vezes, condições um tanto modestas de desenvolvimento no campo educativo, prevaleceu em cada um deles o valor moral e a vontade própria, que os fez e faz seguir suas jornadas de crescimento pessoal, com galhardia, o que nos enche de felicidade e gratidão.
       O Dúdi está quase completando 18 anos e a Ana completa 26 anos, neste 2014. Só para adiantar um pouco do que ainda tem pela frente dessa história tão linda, ele está aqui conosco, trabalhando e estudando, enquanto ela está, neste momento, em Brasília, já formada em Museologia e em Conservação e Restauro (duas faculdades), sendo mestra em Arqueologia. Isto, graças, primeiramente, ao grande auxílio recebido da mana Sílvia e do cunhado Marcos, que a abrigaram por largo tempo em sua casa, em Pelotas, além de proporcionar-lhe os meios necessários, financeiramente, para que pudesse preparar-se para o vestibular e manter as despesas concernentes aos cursos realizados, e, depois, ao seu esforço próprio, indo morar com um grupo de amigos e colegas de faculdade, havendo conseguido uma bolsa para o seu mestrado, sempre fazendo jus às melhores notas e enriquecendo seu currículo com experiências que se deveram igualmente ao seu excelente desempenho em concursos corajosamente enfrentados.
       Não vou dizer que o convívio entre a nossa filha, sempre amada, e nós tenha sido, por todos esses anos, o mais perfeito "mar de rosas", pois estaria mentindo se o dissesse. A Ana Paula vivenciou um conflito interior que por muitas vezes nos causou preocupação e até uma certa angústia, porquanto o que mais queríamos era que ela se sentisse feliz e isto parecia-nos, em dados momentos, não acontecer.
       Mas, como nada está fora do lugar e do tempo certo, já ao final do ano passado ela conseguiu estabelecer contato com a mãe e o irmão biológicos, Regina e Andriego, passando a se relacionar afetivamente com ambos e com o restante da família materna, o que foi da maior relevância em sua vida. De lá para cá, parece-nos que ela está bem mais feliz, mais segura, mais completa, não obstante o mesmo amor continue nos unindo e até com laços mais fortes, pois aprendemos que os nossos sentimentos só se multiplicam quando ocorre serem divididos.
       Devo dizer que temos um carinho muito especial pela Regina e que sempre esperamos por esta oportunidade de dividir com ela o amor da nossa filha querida.
       Quanto ao Carlos Eduardo, é uma outra história, que aqui ainda não me cabe explorar. Só temos que deixar que o tempo nos mostre os caminhos que ele mesmo irá seguir daqui para a frente, já que tudo está em paz, mas sabemos que ele também tem a sua personalidade toda própria, e que ela o guiará às conquistas pessoais. Assim como os irmãos, trata-se de pessoa digna, de coração muito bom e com um projeto de vida voltado para o bem, para o lado positivo. Todos desejamos-lhe um futuro de grandes conquistas pessoais, e, no que depender de cada um de nós, pais, irmãos e cunhados, ele será sempre um importante membro deste grupo, que caminha lado a lado sob aquele antigo lema dos mosqueteiros: "Um por todos e todos por um", respeitando-se as individualidades.
       O que posso dizer, e o faço com o coração transbordante de emoção, é que somos uma família e que a nossa família é maravilhosa, simples assim. Valeu "meus amores". ///



        

quinta-feira, 22 de maio de 2014

32. NOVOS FATOS GERAM NOVOS RUMOS

       Era o início de 1988 e minha sogra estava precisando de uma ajuda ainda mais efetiva de nossa parte. É que o seu Mário já não conseguia levantar-se da cama sem o auxílio de um braço forte, precisando também ser amparado para ir ao banheiro, o que ocorria pelo menos umas duas ou três vezes por noite.
       Ela, por sua vez, já não tinha condições de ajudá-lo nesse sentido, pois não podia fazer nenhum esforço físico devido aos problemas cardíacos, que, embora estáveis e sob controle, exigiam o máximo de cuidado. A ideia então era de irmos morar junto com eles. E assim ficou combinado e decidido. Alugamos provisoriamente uma casa maior, com três quartos, situada na rua Dr. Cassiano, bem próximo à rua Professor Araújo. O apartamento da Telles foi desalugado e as casas da Osório e Cohab Tablada postas à venda, para que se pudesse comprar um outro imóvel compatível com as novas necessidades.
       Na época, vale recordar, havia uma desvalorização brutal da moeda nacional e o rendimento das aplicações financeiras, inclusive da poupança, eram bastante acentuados, com variações diárias, tornando qualquer transação econômica de vulto em uma verdadeira fonte de tensão emocional muito forte.
       A dona Deloá sempre soubera lidar muito bem com as suas economias pessoais. No entanto, aquele era um momento que exigia redobrada perspicácia e agilidade em negociações do porte da que estava prestes a se concretizar.
       Achamos uma casa que nos pareceu, dentre outras, a ideal. As duas nossas já haviam sido vendidas e o dinheiro apurado devidamente aplicado para não sofrer depreciação de valor. Quando tudo parecia estar correndo favorável, porém, eis que surge um impasse, por problema referente ao espólio da família proprietária daquele imóvel que pretendíamos comprar; e o negócio foi desfeito, o que abalou bastante emocionalmente a minha sogra, que já contava como certa a nossa mudança imediata para a nova casa. Partimos então para uma nova busca, correndo contra o tempo, pois o contrato de locação venceria em seguida e caso não saíssemos antes, o mesmo seria renovado automaticamente e isto incidiria em multa contratual se o quiséssemos cancelar posteriormente, salvo se o fizéssemos em curtíssimo prazo, não lembro de quantos dias.
       Procura daqui, procura dali, surgiu um imóvel que atenderia às nossas necessidades, pelo menos com um pouco de boa vontade da nossa parte. Era o melhor que havíamos conseguido até ali, depois daquela outra que tivera a aprovação total, mas cuja negociação resultara frustrada. Esse novo imóvel situava-se à rua Marcílio Dias, esquina com a rua Major Cícero de Goes Monteiro. Rapidamente a compra foi realizada e providenciado o serviço de um pintor, um amigo de toda a turma lá do salão, a fim de dar-lhe uma traquejada para que pudéssemos habitá-la o mais breve possível.
       Em meio a essa movimentação toda, frenética e repleta de emoções, um fato de grandiosa expressão veio mexer ainda mais com os ânimos de todos nós. Foi o nascimentos da nossa filha Ana Paula, naquele dia 2 de julho. Sendo este um evento tão importante e tão peculiar, requer seja tratado em capítulo à parte. Só o que posso adiantar é que, embora tenhamos sido chamados de "loucos", porquanto já tínhamos três filhos com que nos preocuparmos, ela foi tão bem vinda, que até a vó Deloá chegava do serviço à noite cheia de paixão e de saudades. Assistia a sua novela preferida com a netinha querida ao colo, demonstrando sempre nutrir por ela um carinho todo especial, que, a bem da verdade, não negara a nenhum dos netos. Só que todos eles passaram aquela fase tenra longe dela, em São Paulo, enquanto a Aninha ali estava, macia, frágil, ao mesmo tempo muito esperta, nos braços da "vovó coruja".
       O tempo passava célere e agora já era o dia 12 de setembro, uma segunda-feira como outra qualquer. A casa quase pronta e a mudança com perspectiva de ser feita dentro de breves dias. Minha sogra e eu chegamos de nossas atividades profissionais. Como sempre, jantamos uma boa comidinha feita com o capricho de sempre pela minha esposa e sua filha. A Neida tivera mais um dia de muitos afazeres domésticos, incluindo as atenções cotidianas ao seu Mário e aos quatro filhos, três deles em idade escolar, comprometidos também com seus respectivos deveres de casa, além do neném, a quem não faltavam os cuidados maternos e dos manos babões rotineiros. A conversa na sala, o telejornal, a novela, depois os banhos, todos se acomodando para dormir, tudo corria como de costume.
       Foi então que ouvimos alguns suspiros, entre gemidos, um tanto estranhos, vindos do quarto de minha sogra, e fomos ver o que se passava. Era ela mesma queixando-se de falta de ar, de uma grande dificuldade para respirar. Percebemos logo que a situação era anormal. Rapidamente, ainda sob os seus protestos, pois achava desnecessário, solicitamos um táxi com urgência, enquanto a Neida ligava para o Prontocor, da qual minha sogra era associada. Acompanhei-a até o pronto atendimento do Plano de Saúde, mas já no caminho ela sofreu uma parada cardíaca, tornando a si espontaneamente. Tão logo lhe foi dado o primeiro atendimento, sendo-lhe feitas as perguntas de praxe, ao ser colocada na viatura que a levaria para a UTI do Hospital Santa Tereza (hoje extinto), eis que teve uma segunda parada e foi logo reanimada pela equipe especializada que a atendia, na própria ambulância. Dado o socorro, já com ela consciente outra vez, partiram às pressas, pois não podiam perder tempo algum a fim de salvá-la. Eu segui a pé, pois o hospital ficava a poucas quadras dali, na rua Barão de Santa Tecla. A Neida e a Giselda, esta imediatamente avisada pela prima, chegaram em seguida. Contei-lhes o que havia acontecido e ficamos no aguardo de notícias. Por volta de uma hora da madrugada do dia 13, conforme nos foi informado por um dos enfermeiros, que por sinal era cliente dela e estava bastante abalado ante o fato, ela havia sofrido um terceiro infarte, dessa vez irreversível, levando-a ao óbito inesperado.
     Diante do dramático acontecimento, as filhas do seu Mário vieram buscá-lo, assumindo os seus cuidados, dizendo-nos que agora não competiria mais a nós, sim a elas, a responsabilidade de atendê-lo em suas necessidades, até porque tínhamos um bebê que certamente nos exigiria bastante atenção. Ele contava nessa ocasião com 80, senão 81 anos. 
       Conforme estava previsto, embora não dessa forma, mudamo-nos em seguida para a nova casa, seguindo os novos rumos que agora se nos impunham, de acordo com a lei da vida. ///
       
       

segunda-feira, 19 de maio de 2014

31. SUPERANDO NOVAS DIFICULDADES

       Foi ainda no decorrer do ano de 1985 que a minha sogra descobriu haver contraído um câncer mamário, tendo que se submeter a uma cirurgia e tratamento específico. Isto a abalou emocionalmente de maneira bem severa, mas conseguiu superar-se, tocando em frente. Não bastasse isso, também era paciente de um tratamento para problemas cardíacos, tendo agora de redobrar-se em cuidados especiais. O seu Mário, seu companheiro já de alguns anos, morava com ela na casa da General Osório, embora mantivesse ainda um apartamento alugado na rua General Telles, quase esquina com a Marechal Deodoro.
       Foi então que a dona Deloá fez-nos a seguinte proposta: ela e o seu Mário passariam a morar no apartamento da Telles e nós mudaríamos para o da Osório (que na verdade era um apartamento também, pois tratava-se do espaço ocupado pelo segundo piso de um sobrado, com entrada totalmente independente. Na parte de baixo morava outra família. Cada qual proprietária do seu espaço no imóvel). A proposta visava a ficarmos mais perto deles, facilitando assim o nosso assessoramento, já que ambos careciam de uma atenção mais contínua. A casa da Alfredo Satte Alam, na Cohab Tablada, foi então alugada e nós passamos a residir na Rua Gen. Osório, 354-A, ali bem pertinho da Beneficência Portuguesa. As crianças foram transferidas para o Colégio Estadual Pedro Osório, na mesma rua, esquina com a Dr. Cassiano.
       No final daquele ano resolvemos fazer um veraneio e saímos à procura de uma casa para alugarmos pelo mês de janeiro, no Balneário Barro Duro. Só conseguimos para o mês de fevereiro, o que acabou sendo ótimo, pois o primeiro mês do ano foi muito chuvoso, enquanto o outro foi de tempo bom, ensolarado e quente, muito mais propício.
       O ano de 1986 transcorreu sem nenhuma novidade a registrar. Já éramos trabalhadores do Centro União. Continuávamos indo para a feira do artesanato da avenida, nas proximidades e decorrer do inverno. Eu prosseguia tranquilamente na atividade de barbeiro no Salão Pará. 
       Já no ano de 1987, um susto: após uma tarde inteira com uma inexplicável diarreia, cujo produto era de uma coloração intensamente escura, persistindo durante a noite, eis que, ao levantar-me pela manhã, no horário em que as crianças se arrumavam para ir à escola, tive uma espécie de vertigem, um apagamento, quando me encontrava sentado ao vaso sanitário. Ao recobrar os sentidos, percebi que havia, escorrido pelo pijama e ao chão, um vômito igualmente muito escuro, um tanto atípico. Chamei a Neida, pois ainda me sentia meio tonto. Depois de um rápido banho, vesti-me e ela acompanhou-me até o Hospital Escola da UFPEL, que funcionava nas dependências da Beneficência Portuguesa, exatamente ali na esquina da Osório com a Gomes Carneiro, a menos de trinta metros da nossa residência.
       Medida a minha pressão arterial, fui imediatamente conduzido à UTI de gastro. Sem demora fui submetido a uma transfusão de sangue. Na sequência foi-me aplicado um exame de endoscopia e o tradicional soro alimentar. Somente na tarde do dia seguinte fiquei sabendo que havia ingressado naquela unidade de tratamento quase à beira da morte. Minha pressão havia atingido o baixo nível de 7.5 por 6.l, o que, segundo a enfermeira, representa uma proximidade perigosa entre os fluxos alto e baixo da circulação sanguínea. Se uma chegasse a se "encostar" um pouco mais na outra, seria fatal. E a esta hora eu não estaria aqui para contar toda esta história. Todo aquele "caldo" escuro que eu evacuara nada mais era do que o sangue derivado de duas úlceras abertas, uma delas recidiva, isto é, que antes já havia cicatrizado mas voltara a abrir-se.
       Segundo as enfermeiras de plantão, tratavam-se de úlceras de origem nervosa, o que eu questionei, pois sempre fui um cara muito tranquilo, calmo, às vezes até demais. Porém elas me explicaram que eu podia ser tudo isto quanto às reações às adversidades, mas era muito ansioso quanto às perspectivas de acontecimentos, até mesmo com relação aos mais triviais. Pensando bem, depois dessas explicações, pude constatar que realmente isso acontecia. Muitas e muitas vezes me vi ansioso diante da expectativa frustrada de atingir uma meta diária ou semanal de clientes, vendo o tempo escoar-se sem a esperada e tão desejada resposta, especialmente no que se referia às necessidades financeiras, que eram sempre prementes.
       Lembro-me que, pelo sistema usado no salão para o encaminhamento dos clientes "forasteiros" aos diversos profissionais, contemplando a todos indistintamente, tínhamos a "ficha da vez", mais ou menos como é praticado num ponto de táxi. O que chegou primeiro e à medida em que cada um chegava; depois ao passo em que cada um, após um atendimento, se desocupava novamente, e assim por diante, a sua ficha era colocada na caixinha da recepção. Ora, quem estava na vez torcia muito para que entrasse um cliente sem preferência por nenhum profissional (o forasteiro), a fim de que fosse atendê-lo, antes da chegada de um cliente seu, que certamente o aguardaria para ser atendido posteriormente. Ruim, portanto, era quando eu estava na vez e, muitas vezes depois de um certo tempo parado, naquela expectativa ansiosa, chegava um cliente meu e em seguida um forasteiro, que era passado ao seguinte da vez. Por que não acontecera o inverso? Eu teria atendido dois clientes em vez de um só. Isto me deixava encabulado. Minha sogra chegou a dizer um dia: "Puxa, mas que azarão, hein!". Pense no cara se sentindo o azarado em pessoa a ouvir um "incentivo" desses. Confesso que andei tendo até uma certa inveja do meu companheiro e amigo Chico, que havia começado na profissão e no salão um pouco depois de mim. Ele, ao contrário, sempre que estava na vez era contemplado com um cliente novo e depois, quase que em seguida, chegava sempre um cliente antigo dele, tal como era do gosto de todos nós que acontecesse. E eu ficava me remoendo intimamente, sentindo-me ferido ou perseguido pela má sorte.
       Esses acontecimentos jamais interferiram na minha amizade com o Chico, mas que eu sentia uma certa mágoa, uma ponta de inveja, ou um complexo de inferioridade, lá isto eu sentia mesmo. E sabem como isso terminou? Foi quando eu comecei a comprar numa banca próxima a revista mensal "Psicologia do Comportamento". Os artigos eram muito bons, bastante espiritualizados e esclarecedores. Dois deles foram decisivos para mim: "Querer é sofrer!" e "A inveja o que é?". A partir desses dois artigos, comecei a mudar a minha atitude mental e não tardou muito para que eu pudesse perceber uma reação natural muito positiva. Foi incrível como começou a dar certo para mim também, sem prejuízo de ninguém mais, aquele esquema da chegada de clientes novos antes dos já conquistados, quando na vez eu estava. Aquela velha ansiedade foi-se diluindo e passei a ser muito mais tranquilo, realmente. A minha clientela começou a aumentar bem mais rapidamente. Passei até a ter mais confiança no meu próprio desempenho profissional. ///

domingo, 18 de maio de 2014

30.NOVAS EXPERIÊNCIAS NO PRIMEIRO MEADO DOS ANOS "80"

       Provavelmente no inverno do ano de 1983 conseguimos uma vaga e uma licença da Secretaria de Turismo para exposição e comercialização dos enxovais de bebê e outros artigos de lã na Feira do Artesanato, que até hoje se realiza todos os domingos na avenida Bento Gonçalves. Por essa época estava em moda as meias longas e polainas coloridas que haviam sido popularizadas pela novela "Dancing Days". A Neida as confeccionava e faziam muito sucesso, pela variedade e bom gosto nas combinações de cores que ela usava. Íamos de ônibus carregando uma mesinha desmontável de fabricação artesanal, uma mala e uma sacola grande cheias de mercadorias. Era uma mão de obra bastante sacrificante, mas valia a pena porque faturávamos uma boa grana.
       Para que pudéssemos trabalhar mais livremente, todos os sábados à noite eu levava as crianças para a casa da avó, situada na rua General Osório, 354-A, no centro da cidade.
       Por incrível que pareça, após um período de mais de dois anos sem fumar, a Neida e eu voltamos a conviver com esse vício, que era muito combatido especialmente pelo André. Às vezes, ao aproximar-se de um dos dois, na intenção de ganhar um colo, um aconchego, um beijo, ao ver que se estava fumando, saía logo, dizendo: - "Ih! Você já tá com essa porcaria na mão?!" - e se afastava fazendo cara de nojo, cobrindo o nariz com as mãos numa demonstração de que detestava o cheiro daquela coisa. O "você" como forma de tratamento havia sido adquirido em São Paulo. Só depois de algum tempo é que conseguimos revertê-lo para o "tu", que é a forma convencional usada pelos gaúchos.
       Quando comecei a trabalhar no Salão Pará, em setembro de 1984, ainda fumava, mas tinha o cuidado de não fazê-lo enquanto atendia um cliente. Por isso, muitas vezes tinha que jogar fora um cigarro recém aceso, o que representava um desperdício a mais de dinheiro. Outras vezes repassava-o para o seu Adão, que dizia:  - "Dá pra mim, pra tu não teres que jogar fora. Pelo menos eu aproveito". E, é claro, dizia isto com um sorriso, como que tirando uma folguinha com a minha cara.
       Foi mais ou menos nessa mesma época que começamos a frequentar o Centro União (Sociedade União e Instrução Espírita), na rua Quinze de Novembro, onde permanece a sua sede até hoje, iniciando no ano seguinte o curso preparatório para médiuns. Esse curso se compunha de dois ciclos em um único ano. Depois de sofrer algumas adaptações, aumentando a sua duração, tornou-se no que hoje chamamos "Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita - ESDE", que perfaz um mínimo de 5 anos, podendo estender-se um pouco mais, entre estágios teóricos e teórico-práticos. Durante esses estudos, nos quais nos preparávamos para trabalhar na função de passistas, foi-nos recomendada a leitura do livro "Passes e Radiações", de Edgar Armond. E foi com a leitura desse livro que nos sobreveio a conscientização da necessidade de pararmos de fumar.
       A Neida sentiu um pouco mais de dificuldade em largar o vício. Embora o nosso trato era não acendermos mais nenhum cigarro, ela teve umas pequenas recaídas, sendo denunciada pela Sílvia, que ia logo dizendo, à minha chegada do trabalho: - "Pai, hoje a mãe fumou. Ela tinha (por exemplo) dois cigarros guardados na gaveta e eu vi ela fumando escondida". A guriazinha não perdoava. Dedurava a mãe sem nenhuma cerimônia. Mas, é claro, eu tinha que ser condescendente, uma vez que fora eu mesmo que a colocara nesse vício tão perverso. Logo, porém, ela também o venceu e até hoje estamos livres dessa verdadeira praga tão difícil de ser combatida. Graças a Deus, nenhum dos nossos filhos caiu nessa asneira.
       Outro fato marcante nesse ano de 1985, mais precisamente no dia 20 de março, foi o nosso casamento. Agora era a oficialização da nossa união conjugal. Como já havia ultrapassado o tempo estipulado por lei de separação judicial do primeiro consórcio, que era de dez anos, para o requerimento do divórcio, recentemente aprovado pela legislação do nosso País, solicitamos à prima da Neida, Giselda, que era advogada, para que tratasse dos trâmites legais, o que ela fez gratuitamente, resultando favorável e assim nos possibilitando-nos assentar em cartório do nosso casamento civil. O Orlando e a esposa, Leni, foram nossos padrinhos. A Bia, então prestes a completar 13 anos, o André com 11 e a Sílvia com 7, assistiram à cerimônia. Foi muito gratificante. ///
       

sexta-feira, 16 de maio de 2014

29. OS DESAFIOS DA NOVA PROFISSÃO

       Após um rápido desenho da profissão de barbeiro, mostrando-me as vantagens e os desafios que eu encontraria ao exercê-la, o Orlando informou-me que o curso seria em sua própria residência, na Cohab Tablada, umas sete ou oito quadras distante da minha casa. Era para que eu conseguisse alguns modelos, entre homens e guris, meus vizinhos e amigos, podendo incluir o meu filho André, combinando com eles que seria atendido um por dia, após as 20:30 horas. Eu aprenderia a cortar cabelos masculinos de todos os tipos possíveis na prática. No início ele faria os acabamentos, até que eu tivesse um maior domínio para fazê-los eu mesmo. Ao cabo de um mês e dez dias, mais ou menos, já sem opções de modelos, ele me colocou à prova. Eu deveria cortar o cabelo do seu filho Diérre, que era um menino de mais ou menos uns 12 anos. Devo dizer que durante essa prova fiquei molhadíssimo de suor, dada a responsabilidade tamanha de não fazer nenhuma bobagem que afinal pudesse estragar o cabelo do menino, ou que demonstrasse a minha inaptidão, pois que se tratava de um cabelo que ele estava acostumado a cortar, e eu, sei lá, poderia fazer totalmente diferente. Foi um sufoco. Mas, ao término da terrível prova, o mestre me disse que havia me saído muito bem, dando-me por pronto para trabalhar e adquirir, no dia-a-dia de um salão, a prática e o desenvolvimento necessários para firmar-me na profissão que iria me garantir um futuro bem melhor, em termos de rendimentos e de realização pessoal.
        Enquanto aguardava que ele mesmo conseguisse uma oportunidade para mim em outro salão, pois no Pará não havia nenhuma cadeira vaga e convinha mesmo que eu praticasse em um salão menor, menos tumultuado, aproveitei para passar um final de semana na estância do tio Joares, irmão da Deloá, que se situava um pouco adiante do Povo Novo e antes de Domingos Petroline, já no município de Rio Grande.
      Não estou bem certo se antes ou depois desses dias que lá passei fui ao Asilo de Mendigos, cortar os cabelos dos idosos, e ao Exército da Salvação (por indicação do amigo Zé, lá do Pará), cortar os cabelos da gurizada. 
       Finalmente, no início do mês de julho comecei a trabalhar no salão do senhor Carlinhos, na rua Quinze de Novembro, próximo ao Diário Popular. Nesse salão havia quatro cadeiras, uma que ele mesmo ocupava e duas com os companheiros Paulo e Darcy. Passei então a ocupar a quarta cadeira, sendo para mim encaminhados os clientes que não tinham preferência por nenhum dos três. O problema é que a rotatividade de clientes forasteiros (aqueles que vinham pela primeira vez ao estabelecimento) era bem pequena. Tinha dias de atender um só, dois, no máximo três, às vezes nenhum. Chegava a passar uma semana inteira atendendo menos de doze clientes, o que dava uma média inferior a dois clientes por dia. Tinha momentos em que me via quase a ponto de desistir de tudo e voltar a procurar serviço em escritórios de transportadoras. Sentia-me muito mal cada vez que chegava em casa e dizia: - "hoje atendi só um", ou, "hoje não atendi ninguém". Chegava a vibrar, quando podia dizer: - "hoje atendi três clientes!".  
       Exatamente no último sábado de agosto, quando já completava dois meses angustiosos naquele salão, só assistindo os colegas trabalharem e, ainda por cima, com métodos bem diferentes daquele que havia aprendido com o Orlando, eis que ele me liga e me convida para tomar um cafezinho no Aquário. Estava parado, avisei o sr. Carlinhos e saí imediatamente. Lá chegando encontrei-o sorrindo à minha espera junto ao balcão.  Fez o pedido de dois pingados (cafezinho com leite) e falou-me: - "Eu já conversei com o Carlinhos e segunda-feira podes vir direto aqui para o Salão Pará. Um rapaz que havia ocupado uma cadeira um pouco antes de eu te ensinar a profissão me pediu para sair, pois não estava se adaptando ao nosso sistema de trabalho. A cadeira que ele está desocupando hoje será tua a partir de segunda-feira. Depois a gente conversa melhor sobre as normas do salão. Mas podes ficar tranquilo que eu sei que tu vais te dar muito bem com a gente e com todo o pessoal aqui, pelo teu perfil tranquilo e pelo teu caráter, que eu já conheço muito bem".
    Saí dali emocionado, vibrando positivamente, agradecendo aos Céus por aquela maravilhosa oportunidade e fazendo os melhores votos para encarar todos os desafios futuros. 
       Para se ter uma ideia, naquele sábado (e sábado é sempre o dia de maior movimento em qualquer salão) atendi 4 clientes, todos no período da tarde. Na primeira segunda-feira no Salão Pará (e segunda, ao contrário, é sempre um dia de pouco movimento, tanto que muitos salões nem abrem nesse dia) atendi 5 clientes.
      Todos os colegas me ajudaram muito a me sentir à vontade e a tirar algumas dúvidas que às vezes me sobressaltavam em alguns cortes que ainda não praticara suficientemente para fazê-los com convicção e desembaraço. O próprio Orlando me dava muitas dicas que não me havia dado durante o curso, até por não termos tido nenhum modelo apropriado para que aquelas informações me fossem acrescentadas.
       Mais contente ainda fiquei quando começaram a retornar alguns clientes, cerca de 30 a 45 dias depois do primeiro atendimento, ou uma semana depois, quando se tratava de barba, o que me causava maior confiança em mim mesmo, acabando aos poucos com aquela insegurança própria de qualquer principiante.
       Um detalhe digno de nota é o de que o Orlando, numa prova de confiança na minha pessoa, entregou-me uma cópia das chaves do salão para que eu o pudesse abrir quando chegasse mais cedo e fechar quando precisasse ficar até mais tarde para atender algum cliente que me solicitasse horário após as 19 horas, horário em que o salão costumava encerrar o expediente. A esse gesto procurei corresponder com a maior correção possível, uma vez que havia aprendido a lição, extraída daquele episódio já narrado da última empresa em que trabalhara.
       Se querem ter uma ideia de como a lição foi mesmo proveitosa, hoje coleciono canetas, como todos sabem; e posso chegar em qualquer local onde tenha uma caneta "dando sopa" que jamais me apossarei da mesma, a não ser que a peça a quem ela pertença de direito e essa pessoa a doe conscientemente para a minha coleção. Isto é só um exemplo. Durante os oito anos que fiquei no Salão Pará, nenhum incidente ocorreu que envolvesse qualquer dúvida à minha honestidade e à dignidade deste cidadão.
       Mais adiante contarei sobre a minha saída daquele estabelecimento. ///
       

quinta-feira, 15 de maio de 2014

28. NOTÍCIA RUIM E REAÇÃO INESPERADA

       Sexta-feira santa, íamos todos almoçar na casa da minha sogra. A Neida ia tensa, preocupada em como lhe daria a notícia e como a mãe reagiria, pois era ela quem nos socorria nas dificuldades financeiras. E ali estava se desenhando mais uma dessas situações, pois estava desempregado de novo.
        Chegamos e eu fui em seguida para a sala da tevê, onde o seu Mário costumava estar na sua poltrona confortável. O companheiro de minha sogra se alegrava com as bagunças feitas pelas crianças e com a minha companhia, pois conversávamos bastante. Ele sempre me perguntava sobre o serviço e eu escutava com atenção as suas histórias engraçadas e bastante pitorescas às vezes.
       Sabia que a qualquer momento seria chamado a apresentar minhas justificativas sobre a demissão e os planos para o futuro imediato, isto é, se já tinha algum outro emprego em vista ou como pretendia agir em busca do mesmo. E o momento aguardado com ansiedade não tardou a chegar. Não lembro qual dos filhos veio chamar-me, dizendo que a vó queria falar comigo. Esperava uma expressão de descontentamento, que seria bastante justa e apropriada. Parei frente à porta de acesso à cozinha, onde mãe e filha conversavam. Mas a pergunta que soou em minha direção foi a mais inusitada e inesperada possível: - "Tu gostarias de aprender a profissão de barbeiro?" Foi tamanha a minha surpresa que não sabia nem o que responder, pois sequer jamais havia pensado nessa possibilidade. Só consegui dizer: - "Ué! De repente!
       Minha sogra era manicure do Salão Pará, já de longo tempo. Depois do pequeno lapso de aproximadamente dois anos em Porto Alegre, que deu ocasião à Neida e a mim de nos conhecermos, ela retornara para Pelotas e voltara a trabalhar nesse mesmo local, ainda sob a direção do senhor Homero, antigo proprietário. Tinha uma vasta e seleta clientela, disposta a segui-la onde ela estivesse, na cidade, é claro. O Salão Pará era exclusivamente masculino, assim como a sua clientela de unhas também o era. Os irmãos Orlando e Ari Volcão, profissionais que trabalhavam no salão já havia um bom tempo, tinham comprado o ponto com todas as instalações existentes, passando a dirigir o estabelecimento, que contava, ao todo, com dez cadeiras de barbeiros (todas ocupadas), duas manicures e um engraxate - o Adão, que há bem pouco tempo veio a falecer, ainda em atividade.
       Ela disse-me, então: - "Olha, o Orlando já ensinou a profissão para uns quatro ou cinco, e eu tenho certeza de que se eu pedir a ele pra te ensinar ele não vai me negar. Eu só preciso saber se tu gostarias de aprender ou não".
       Ainda meio sem convicção, falei: - "Bueno, se tiver alguém que me ensine eu aprendo, sim. Não tenho nenhuma dificuldade para aprender. E acho até que vou gostar, não sei".
       Ela ficou de falar com ele no dia seguinte e me avisar caso ele quisesse conversar comigo. Mandaria o recado pela nossa vizinha de lado, já que não tínhamos telefone. Conhecia o Orlando apenas de vista e não tinha intimidade com nenhum dos profissionais do salão. Ainda me marcava bastante a personalidade uma timidez que trazia desde a infância e a juventude, porém não tinha receio de lidar com pessoas novas desde que fosse chamado a fazê-lo, principalmente quando convidado por elas mesmas. A minha maior dificuldade estava em eu mesmo, espontaneamente, forçar uma nova relação.
       Por volta das 10 horas recebi o recado para ir imediatamente até o salão. Já estava pronto e foi só tomar a condução e em cerca de meia hora lá cheguei, bastante ansioso. Apresentado pela minha sogra ao Orlando, ele pediu-me que aguardasse um pouco, pois tinha mais um cliente para atender, depois do que estava já na sua cadeira. Esperei por cerca de quarenta e cinco minutos, até que ele veio ao meu encontro e convidou-me para irmos até o tradicional Café Aquário - na Sete esquina Quinze. Enquanto tomávamos o delicioso cafezinho, que eu nunca antes havia provado, conversamos e nos entendemos. Vejam o resultado da nossa conversa no próximo capítulo destas recordações. ///

domingo, 11 de maio de 2014

27. UM PEQUENO DESLIZE E UMA GRANDE CONSEQUÊNCIA

       O clima em relação à proposta do sr. Zanete, para que eu fosse pra São Paulo, estava assim, na base do "vamos deixar do jeito que está, pra ver como é que fica". Nesse meio tempo, aconteceram dois acidentes envolvendo caminhões que traziam cargas fracionadas de São Paulo para Pelotas, contratados pela Empresa, de uma maneira incrível: um num sábado e outro no sábado seguinte. Em ambos os casos houve tombamento do veículo na estrada, com parte da carga saqueada no local e parte recolhida trazida para o depósito da Empresa, para uma posterior vistoria da seguradora, com fins de indenização pelas avarias e perdas resultantes dos dois sinistros.
       Um certo dia fiquei sabendo que alguns colegas do escritório já haviam carregado consigo alguns itens ali depositados, por conta de que seriam contados entre os que haviam sido saqueados nos locais dos acidentes e de que o seguro ressarciria os valores correspondentes. Então pensei: Por que não me juntar a eles e levar também algumas peças, que, afinal, não fariam grande diferença no cômputo final? Dei uma espiada no que havia e escolhi umas peças íntimas femininas que poderiam ser vendidas na nossa lojinha. Assim recolhi-as e as levei, em três etapas, perfazendo um total de doze peças, mais ou menos. A operação deve ter sido realizada entre quarta e sexta-feiras, já que no sábado não seria possível, pois o expediente acabava por volta da uma hora da tarde e o diretor da Empresa costumava estar por lá nesse momento. Também era de costume ele dar carona a um dos colegas, que morava nas imediações de sua residência, no bairro Três Vendas.
       Naquele sábado, depois de deixarem o escritório, passaram ambos em um bar para tomarem um aperitivo e tratar de alguns assuntos rotineiros. Foi quando o rapaz achou por bem contar-lhe o que se sucedera naquela semana, em relação às mercadorias subtraídas do depósito.
       Não tenho a lembrança precisa se foi naquela mesma tarde, ou se no domingo pela manhã, que o Corcel II do sr. Zanete estacionou em frente à nossa casa. Saí ao seu encontro e ele foi logo me dizendo: - "Evoti, eu vim aqui buscar as mercadorias que tu pegaste lá do depósito. E quero que me entregues tudo, pra bem de eu não ter que ir na polícia fazer um boletim de ocorrência". Não pensei duas vezes, envergonhado pela situação e lhe disse apenas: - "Sim, senhor. Um momentinho". Ele tornou a falar, dizendo: "Os teus colegas ali (apontando para o carro, onde estavam dois dos participantes da ação) já devolveram tudo o que levaram; e daqui nós vamos até a casa do "Fulano" (outro colega). Por favor, não fica com nada, e segunda-feira (ou, talvez tenha dito: amanhã) a gente conversa". Virei-me e fui rapidamente recolher das gavetas de um armário da loja as peças que havia trazido e as apresentei ao patrão, dizendo-lhe que aquilo era realmente tudo o que eu havia pegado.
       Na segunda, depois de mais ou menos umas duas horas de trabalho, surgiu a ocasião e ele chamou-me para a conversa anunciada, que começou mais ou menos nestes termos: - "Como já te disse, eu estou precisando de um funcionário que vá aqui da matriz lá para a filial de São Paulo. Eu gostaria de te dar uma segunda chance, pois já dispensei o "Fulano" e o "Beltrano". Se tu aceitares a tua transferência pra lá, eu esqueço tudo o que aconteceu. Caso contrário eu sou obrigado a te mandar embora. Tu decides." Respondi-lhe: "O senhor é quem sabe. Se o senhor quiser me dispensar, tudo bem. Não posso fazer nada. Eu sei que realmente cometi um erro, pelo qual devo ser punido de alguma forma, e agradeço-lhe muito a confiança que ainda deposita em mim, mas o caso é que pra São Paulo eu não pretendo mais voltar, pois nós estamos bem instalados aqui, eu e minha família."
       Depois de uns trinta segundos em silêncio total, como se meditasse sobre a decisão que iria tomar, ele me disse: "É uma pena!" E arrematou:  - "Podes trabalhar o resto do dia e amanhã não precisas vir mais. Podes ir direto lá no contador acertar as contas com ele".
       Assim foi. Segundo o registro que consta em minha carteira de trabalho, a data oficial da minha demissão foi 18 de abril de 1984, às vésperas de uma sexta-feira santa. Lembro-me bem deste detalhe, porque foi justamente nessa sexta-feira santa que houve algo que posso definir como o primeiro passo para uma grande mudança em relação à minha condição de trabalhador, ou à minha vida profissional. ///


sábado, 10 de maio de 2014

26. OUTRO EMPREGO EM SEGUIDA

       O chefe do setor de Transportes ficou visivelmente chateado com a minha dispensa, pois nos entendíamos muito bem, desde os tempos em que ele era carreteiro (motorista de uma das carretas da própria Firma). Disse-me que tinha uma grande amizade com um dos donos de uma empresa transportadora e soubera que ele estava precisando de um funcionário exatamente com as minhas características. Deu-me o endereço e prometeu dar boas referências a meu respeito. Assim, dentro de poucos dias eu já estava trabalhando na empresa Comercial Agrícola e Transportes Zanete, cujo nome dá a impressão de tratar-se de uma firma comercial também, mas operava somente no ramo de transportes. Como era um pouquinho mais distante, embora ainda na mesma região, passei a utilizar uma bicicleta para ir ao trabalho. E uma vez quase fui atropelado por um carro que vinha de frente, na avenida Fernando Osório, pois eu transitava na faixa da contra-mão. Outra vez, eu e outro ciclista colidimos, na calçada da avenida Salgado Filho, porque ficamos ambos indecisos ao cruzarmos um pelo outro e acabamos escolhendo o mesmo lado. Apenas uma leve entortada no guidão, pois batemos já quase parados.
       Nessa Empresa trabalhei por quase dois anos e meio. Não consigo lembrar em que período exato do ano de 1983 fui a São Paulo, junto com um colega, a fim de ajudá-lo a organizar as coisas por lá, uma vez que ele ficaria em definitivo tomando conta do pequeno escritório que a firma mantinha como ponto de apoio, apenas para fazer acertos de conta com os motoristas, na sua maioria caminhoneiros terceirizados, que tinham a capital paulista ou a carioca como destinos.
       Esse funcionário faria os pagamentos dos saldos de frete e receberia os cheques dos destinatários, depositando-os e enviando-me depois os respectivos comprovantes, via malote, para que eu os lançasse no Movimento de Caixa e os remetesse imediatamente ao contador oficial da Empresa, Sr. Cláudio Franz, que tinha seu escritório de contabilidade no centro da cidade.
       Em dezembro daquele ano, num jantar comemorativo dado pela Empresa aos funcionários, tomei conhecimento de que houvera sido levantada uma suspeita de que eu estivesse envolvido em um golpe financeiro juntamente com o colega que ficara em São Paulo. É que foi descoberto um esquema em que o rapaz fazia alguns saques bancários em espécie, os quais não apareciam no meu movimento de caixa, motivo pelo qual suspeitava-se da minha conivência com o mesmo. Porém, antes mesmo que eu desconfiasse da existência desse fato, pois ele simplesmente deixava de enviar-me as folhas de extrato bancário em que constavam as suas retiradas "extras", e como a movimentação era intensa e os documentos chegavam-me sempre com muitos dias de atraso, o diretor da Empresa e outro funcionário de sua extrema confiança investigaram e encontraram o "furo", inocentando-me e afastando de minha pessoa as tais suspeitas, por completo.
       Em janeiro ou fevereiro de 1984, o senhor Zanete, que então já era o único proprietário da Empresa, já que o seu sócio lhe havia vendido a sua parte, fechou negócio com uma transportadora também pelotense que trazia cargas fracionadas ("bagulho") de São Paulo para Pelotas e Região. Ele comprou todos os direitos sobre a clientela, assumindo também, inicialmente, os funcionários paulistas da empresa adquirida.
       Por essa ocasião, passou a assediar-me com o convite para que eu fosse assumir o comando burocrático da nova filial, que se constituía de um escritório e um armazém, havendo também, no mesmo prédio, uma parte que servia apropriadamente como moradia. A oferta era para que eu fosse com a família e teria essa residência disponível sem pagar aluguel, e ainda com a vantagem de trabalhar sem sair de casa.
       Recusei o convite e expliquei-lhe que estávamos bem instalados em nossa casa na Cohab Tablada, pela qual também não pagávamos aluguel e ainda mantínhamos uma lojinha de miudezas e artigos para presente. O nome carinhoso dessa lojinha era "Patinho Azul". Por essa época, minha esposa também fazia tricô à máquina, dedicando-se a confeccionar peças para enxoval de bebês, de onde se originou o nome da loja, que era pequenina, mas que ajudava de alguma forma no nosso orçamento familiar e ainda servia como ponto de referência para negociar os seus trabalhos feitos artesanalmente e praticamente personalizados.
       Mas o senhor Zanete continuava insistindo para que eu pensasse bem e aceitasse a sua proposta, alegando que estava precisando de alguém de confiança naquela filial, enquanto ali na matriz estava sobrando funcionário, dizendo ainda que isso evitaria ter que me mandar embora, pois o meu salário era um dos melhores da turma na ocasião.
       Mesmo correndo esse risco, voltar para São Paulo naquele momento seria a última hipótese a ser levantada em família, dado inclusive o nosso ótimo relacionamento com a mãe, sogra e avó, Deloá, que estava sempre presente, ajudando-nos de uma forma ou de outra, principalmente demonstrando-se sempre muito apegada aos três netos que ela realmente amava. ///
    

quinta-feira, 8 de maio de 2014

25. NOSSA CHEGADA EM PELOTAS

       Logo que chegamos, com a ajuda de minha sogra, Dona Deloá, alugamos uma casa na Cohab Tablada (Cohab 2), na rua Alfredo Satte Allan, número 622. Era uma casa de esquina. O contrato era por seis meses, ao fim do qual ela nos brindou com a compra de uma outra casa na mesma rua, número 835, a fim de que não pagássemos mais aluguel.
       De vez em quando a Bia, o André e a Sílvia comentam que foi nessa casa que viveram a melhor parte de sua infância e início de adolescência. Falam dela e da época em que ali moraram com uma grande e inocultável saudade. É que, realmente, foi um dos momentos marcantes de nossa história conjunta, que não poderia deixar de ser registrado nessas minhas lembranças.
       O seu Mário, companheiro da minha sogra, havia conseguido para mim um emprego na Empresa Casarin Comércio de Alimentos, estabelecida na avenida Fernando Osório, a uma distância relativamente curta da nossa moradia. Para lá me dirigia por uma estradinha que beirava um canalete de irrigação existente entre o Hipódromo da Tablada e o Aeroporto Internacional de Pelotas.
       Nessa firma fui admitido para trabalhar no setor de transportes, que estava sendo organizado por aquela ocasião, dadas as minhas experiências anteriores registradas em carteira. Uma das contribuições que dei ao setor foi a de adaptar às necessidades peculiares da empresa um esquema de controle de vida útil dos pneus dos caminhões, já que ela possuía uma frota de entregas que percorria toda a zona sul do estado, até aquele momento sem noção do gasto médio de cada veículo na manutenção desse tipo de acessório. Tratava-se de um mapa no qual eram anotados os números correspondentes a cada pneu, sendo fornecida pelo motorista a quilometragem rodada durante cada viagem e as trocas ou concertos de pneus efetuados, também com a indicação da quilometragem em que eram realizados, entre outras informações. Também fazia acertos de contas de viagens com os motoristas e mantinha com eles um relacionamento bastante amistoso. Uma boa parte das minhas tarefas envolviam a datilografia, com o preenchimento de fichas de controle.
       Enquanto trabalhava, gostava muito de assobiar as músicas que me vinham à mente, tanto sucessos do momentos quanto aquelas mais antigas de que eu tinha saudades. Acredito haver sido nessa época que adquiri esse hábito, pois não consigo recordar-me dele em tempo mais remoto. No dia da revelação do amigo secreto, próximo ao natal daquele ano, a colega que tirou o meu nome disse: - "O meu amigo é um cara muito legal, prestativo e se dá bem como todo o mundo aqui no escritório, mas enche o saco o dia inteiro assobiando". Depois dessa passei a me controlar um pouco, mas até hoje é um hábito que não consegui abolir completamente. Volta e meia me pego a assobiar, inclusive melodias autorais, às vezes feitas até de improviso. Outro dia a minha neta Luíza (de 5 anos) perguntou: - "Vô, por que tu estás sempre assobiando?" Só faltou ela me dizer também que eu lhe "encho o saco". Será que não? Será que sim? Preciso esforçar-me um pouco mais para não azucrinar os ouvidos dos meus ouvintes compulsórios.
       Mas, voltando ao Casarin, lá estava eu mais uma vez lutando por um aumento salarial, já que entrara ganhando pouquíssimo mais que o salário mínimo da época. Havia sido admitido na Firma em agosto de 1981 e já corria o mês de outubro de 1982, tendo conseguido uma promessa de aumento promocional de forma muito vaga da parte do chefe geral do escritório. Até que um incidente aconteceu e mudou tudo. Ao sair com o veículo particular do diretor, um Fiat 147 luxo, para buscar seus filhos na escola, uma vez que o motorista incumbido dessa tarefa diária havia faltado por motivo de doença, acabei atropelando um cão que atravessou correndo em minha frente, na avenida Fernando Osório, próximo à antiga garagem da Empresa de Ônibus Esperança. Mesmo havendo acionado o freio não me foi possível evitar o choque com o pobre animalzinho, que deixei, com muita tristeza, agonizando junto ao meio-fio da calçada. Verificando que nada poderia fazer para salvá-lo da morte, restava-me apenas prosseguir a viagem, pois estava bem em cima da hora de saída das crianças, que eu tinha de apanhar no educandário e levar até sua residência, voltando em seguida para o meu posto de trabalho.
       Ao retornar, estacionei o carro bem em frente à porta de entrada do escritório, onde havia uma vaga reservada para o referido veículo, de uso particular do patrão. De repente, irrompeu ele no recinto, com um tom bravio na voz, perguntando quem havia amassado o seu carro. Foi só então que, ao tentar justificar o ocorrido, indo até o veículo para ver do que ele estava falando, percebi que a saia protetora existente abaixo do para-choque dianteiro havia sofrido realmente um considerável dano, um amassamento de boa proporção, que antes eu não havia reparado. Ante as minhas explicações, ele questionou-me, ainda esbravejante, a que velocidade eu deveria estar no momento do choque, para não ter tempo de evitá-lo e causar aquele estrago todo. Sem qualquer interesse em ouvir mais nenhuma consideração da minha parte, virou-se e saiu dali visivelmente irritado. Na manhã seguinte fui surpreendido com uma notificação de que estava sendo despedido. O motivo alegado era de que eu vinha pressionando a Firma em busca de um aumento de salário, o que já não estava sendo muito do agrado da direção, culminando com o fato da tarde anterior que realmente havia irritado bastante o diretor, o qual dera ordem para que eu fosse dispensado, sem justa causa, em caráter sumário. A data desse episódio foi 12 de novembro de 1982, conforme registro feito em minha carteira profissional.
       Mas a vida continuaria e novos fatos se seguiriam, os quais prosseguirei relatando, de imediato. ///
       

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

24. EPISÓDIO CULMINANTE

     Mais uma vez o vento soprou forte e fez a nossa frágil embarcação mudar de rumo novamente. Oxalá o pastor da nossa Igreja nos houvesse chamado, a mim e a minha esposa, para uma conversa em particular e nos passasse uma reprimenda com a contundência que coubesse de fato ao caso. Mas não foi o que ele fez.
     Era uma noite daquelas muito especiais, de "santa ceia", no início de julho de 1981. A sala do diaconato, que ocupava todo o segundo piso, sobre a construção onde, no piso inferior, se estabelecia a nossa moradia, aos fundos do salão da Igreja, já estava repleta de obreiros, diáconos e cooperadores, aguardando a chegada do pastor titular, que costumava, por ocasião desse evento mensal, passar ele próprio algumas instruções, dar alguns avisos e fazer uma rápida preleção, antes de assumirmos nossos postos de trabalho relacionados com o culto da noite, que tinha sempre um cunho mais espiritual, mais reflexivo, mais, digamos, elevado, do que os demais.
     Adentrando o recinto, já com alguns minutos de atraso e a muda mas ansiosa interrogação coletiva do porquê deste, o líder foi logo se referindo a um acontecimento recente, sem citar os nomes dos envolvidos, classificando a atitude dos mesmos como inadequada, indecente, imoral e inaceitável para um ambiente sagrado como aquele, passível de severa punição. Em dado momento do seu inflamado discurso, feitas algumas alusões mais específicas, mas ainda sem a devida clareza sobre a ocorrência em si mesma e os seus protagonistas, nós, minha esposa e eu, ela em meio a um grupo de senhoras, eu em meio a um grupo de companheiros, ao lado dos quais iríamos trabalhar naquela noite, começamos a desconfiar e logo mais a não ter nenhuma dúvida de que era a nosso respeito que se falava, diante dos quase 80 membros daquele diaconato. Eu sequer suspeitava e a Neida não conseguia entender dos motivos daquela reprimenda tão veemente e pública sobre nós. Lembro-me de uma frase, que me marcou profundamente: "Assim como eu coloquei essa gente aqui, eu os mando embora sem direito a nada".
      Só mais tarde ficamos sabendo que o pastor se referira a um deslize inocentemente cometido por minha esposa, numa certa manhã daquela semana, enquanto eu me encontrava na feira e ela fazia a sua parte nas tarefas de limpeza daquela sede. E sabem qual foi esse deslize? O de inadvertidamente colocar a tocar na vitrola, em volume mais ou menos alto, um disco (LP) do Roberto Carlos, no qual, certamente, entre outras músicas românticas, consideradas por alguns cristãos como mundanas, havia uma com uma letra um pouco mais "picante". Se não estou enganado em minhas lembranças, essa música era a que leva o título "O Gosto de Tudo", da dupla Roberto e Erasmo. Ora, isto escandalizou sobremaneira a outra irmã que fazia a limpeza da parte interna da igreja. O atraso do pastor para começar a reunião fora justamente devido à comunicação feita por essa irmã ao pastor, que a fez assinar suas declarações (ele inclusive exibiu o papel), que gerou aquela contundente e pública advertência ao casal.
     Ao término daquela reunião, seguimos, cabisbaixo, para os nossos respectivos postos de atuação. Enquanto o pastor pregava com a costumeira intrepidez que o caracterizava como um mestre da palavra, eu de um lado, a Neida de outro, chorávamos silenciosamente, profundamente sentidos. Disse-me ela que se aproximara de uma e depois de outra irmã em serviço e perguntara-lhes algo sobre o que afinal acontecera, pois nem ela sabia do que se tratava aquela advertência tão grave contra nós. Uma e outra responderam: -"Nem eu sei e nem quero saber; não me meta nesta confusão, irmã..."
     Ao final do culto, quando nos aproximamos um do outro, olhos úmidos e atônitos, indagando-nos mutuamente do motivo daquilo tudo, eis que o pastor chega até nós e nos abraça, paternal, dizendo-nos: -"Não fiquem pensando bobagem; não foi nada com vocês; fiquem tranquilos, amanhã a gente conversa".
      Creio que só foi na manhã seguinte que soubemos da razão exata por que fôramos tão chicoteados, embora não houvessem sido mencionados os nossos nomes. Alguns irmãos e irmãs foram ver-nos, pela manhã, trazendo-nos as informações precisas e a sua palavra de conforto e apoio a nós, que sempre fôramos muito atenciosos para com todos.
      Tentei ainda entender, mas a minha esposa, sempre muito decidida, disse-me que ali não ficaria mais, em hipótese alguma. Foi a um telefone público e ligou para sua mãe, que sempre era quem nos salvava das situações mais complicadas, mais especificamente no quesito financeiro. Contou-lhe, omitindo os verdadeiros fatos daquela noite, que o pastor nos havia anunciado a disposição de vender aquela sede, tão logo a construção da nova igreja permitisse ser transferida para lá a realização dos cultos, e que nós deveríamos providenciar outro lugar para morarmos, porém não tínhamos mais contato com o nosso antigo fiador, nem com quem o conseguiu para nós. Sem pedir maiores explicações, eis mais ou menos o que a minha sogra falou: -"Vendam o carro pra pagar a mudança e venham embora pra Pelotas. Tenho certeza que o Seu Mário consegue um emprego pro Evoti. Venham logo, que eu tô com muita saudade dos meus netos, e vocês não têm mais nada que fazer aí, tão longe."
      E foi assim que imediatamente saí a negociar o carro em revendas próximas e tratar de conseguir um caminhão para a mudança, que acabou custando quase o valor apurado na sua venda, salvando ainda as nossas passagens de ônibus para a viagem.
     E mais um capítulo da nossa história ali se encerrava, para dar lugar a outro e outros mais, cujas lembranças serão por mim resgatadas e relatadas na sequência deste trabalho. ///

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

23. ÚLTIMOS SETE MESES EM SAMPA

     Logo que chegamos na Vila Ema, fui em busca de um novo emprego. Como não havia nenhuma transportadora para esses lados da cidade e a Vila Maria, onde a maioria delas estavam instaladas, ficava bem distante, aventurei-me em outro ramo. Consegui vaga de vendedor em uma loja atacadista de utilidades domésticas e brinquedos, manufaturados em plástico e alumínio. Não me senti muito confortável no ambiente da loja, cujos corredores eram estreitos e, sem a devida prática no negócio, logo percebi que teria grande dificuldade de adaptação.
     Enquanto ali estive, notei que os artigos vendidos tinham, muitas vezes, o destino das feiras-livres, onde eram oferecidos ao consumidor final por pequenos comerciantes autônomos, que se instalavam nas periferias, ou seja, nas esquinas de algumas transversais à rua principal de cada feira. Faziam-no de forma clandestina, mas fixa. Para quem não sabe, as feiras-livres em São Paulo se estendem por cerca, ou mais, de dez quadras, com bancas que oferecem os mais diversos tipos de mercadorias, inclusive roupas, calçados e utensílios para os mais diversos fins. Aqueles pequenos comerciantes, que atuavam à margem da legalidade, isto é, sem o devido alvará de licença emitido pelo poder público para venderem o "seu peixe", eram chamados de marreteiros, tendo de se cuidar das eventuais  blitzes promovidas pela fiscalização municipal, para o que contavam com o apoio de atentos olheiros, que percorriam toda a feira anunciando a chegada da "rapa", quando da eventual visita dessa fiscalização.
     Depois de observar e colher algumas informações acerca dessa atividade, decidi investir um pequeno capital, fruto de minha última rescisão de contrato trabalhista, em utensílios domésticos de plástico, e lá fui eu, com o nosso fusquinha lotado, sem o banco do carona, marretear nas feiras da região mais próximas de nossa nova moradia. Foi muito divertido, porém pouco lucrativo, pois eu receava pôr uma margem muito alta e o meu lucro bruto, sem levar em conta as despesas de locomoção, não ultrapassavam aos 30/40%.
     Nessa época, a minha irmã Eloá esteve passando uns dias em Sampa (apelido carinhoso dado à mega capital paulista), indo comigo todos os dias para a feira. Com sua maquininha Kodac, tirou algumas fotos que temos guardadas como doces lembranças daquele momento, tão difícil, sim, mas tão gratificante também.
     Na Igreja, éramos cooperadores atuantes em todos os cultos e reuniões de estudos. Antes de quaisquer outros companheiros de atividades espirituais, éramos aqueles que dávamos as boas vindas aos primeiros irmãos que chegavam àquela "Casa de Deus". Minha esposa, contrariando as ordens dadas pelo pastor, atraía algumas irmãs e irmãos que vinham de longe, geralmente a pé, sob o sol causticante ou frio e chuva, principalmente para os cultos vespertinos, a fim de que ingressassem sorrateiramente na cozinha da nossa pequena e simples morada, oferecendo-lhes um copo de suco refrescante ou um gostoso cafezinho, às vezes acompanhados de um pedaço de bolo ou torta salgada, feitos por ela mesma com muito carinho e um grande sentimento de fraternidade. Era comum recebermos visitas prazerosas de alguns irmãos fora de hora, o que também nos era recomendado evitar, sob o pretexto de "não misturarmos as coisas". Mas de nada adiantavam tais ordens e recomendações, porque sempre fomos afeitos a dispensar aos mais simples, especialmente àqueles que não possuíam as condições de conforto para chegarem até o local, as nossas melhores atenções.
     Tudo ia muito bem, apesar das dificuldades financeiras que mais uma vez batiam à nossa porta, pois estava me descapitalizando muito depressa. Teve uma ocasião, em que estive com uma gripe muito forte, impossibilitado de praticar a atividade econômica por alguns dias, em que, sabedores de nossa situação, alguns irmãos promoveram uma campanha surda, somente entre os membros do diaconato, brindando-nos com uma abençoada cesta básica de alimentos.
     Mas um fato inusitado veio a mudar completamente o rumo da nossa história, uma vez mais. Vocês vão saber agora, já no próximo capítulo dessas minhas anotações autobiográficas, como e porquê saímos da IEQB de Vila Ema e de SAMPA, rumo ao Pampa Gaúcho, mais precisamente à nossa querida Princesa do Sul - Pelotas, que nos recebeu de braços abertos e onde escrevemos novos e belos capítulos da nossa história. ///

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

22. NOSSA MUDANÇA PARA A VILA EMA

     Ultimamente andava me sentindo bastante cansado, à beira de um esgotamento físico e psicológico, devido ao excesso de trabalho, sem ainda haver gozado férias, em mais de um ano e meio, quase dois, na tumultuada função que exercia na Empresa. Além do mais, estava muito descontente, pois já fazia algum tempo que vinha pleiteando junto ao gerente um reajuste de salário, por conta da minha reconhecida dedicação e prestatividade. Embora ele não negasse o meu mérito, parecia-me não estar devidamente empenhado em defender a minha demanda junto aos diretores, pedindo-me sempre que tivesse paciência e aguardasse. Mas o tempo passava e nada de aumento, o que me deixava mais na certeza de estar sendo "enrolado".
     Certo dia, já muito contrariado e realmente me sentindo estafado (hoje diríamos "estressado"), decidi ir até a clínica médica conveniada, para consultar um médico e solicitar-lhe um atestado, que seria para aquela quinta-feira, sexta e sábado. Incluiria na parada para o necessário descanso o domingo, e voltaria ao trabalho na segunda-feira. Diante do que lhe expus, o médico disse-me que o que eu precisava era de umas férias de trinta dias e se possível longe de São Paulo. Aleguei que isto seria impossível, que nem mesmo de quinze dias seria viável, pois não havia substituto para o que eu fazia. Não que eu fosse insubstituível, mas porque ninguém no escritório jamais havia metido a mão no meu serviço, em qualquer mínima ausência minha. Tudo ficava à minha espera. Inclusive eu já sabia até o que me aguardava depois daquela pausa de três dias de acúmulo de material sobre a minha mesa. Mas precisava dar uma descansada na cabeça. A muito custo ele me deu o atestado, dizendo que não iria resolver o meu problema, que ele estava disposto a recomendar à Empresa conceder-me as férias a que já tinha direito legal havia muito tempo.
     Sem nada comunicar ao gerente, retornei ao trabalho na segunda-feira apresentando o atestado, atitude esta que o desagradou, pois eu devia ao menos ter-lhe avisado por telefone. Àquela época, não tínhamos telefone em casa e eu decidira nem mesmo ligar de um orelhão, pois queria mais era causar um certo pânico, esperando fosse notada finalmente a minha importância naquele contexto funcional.
     Como previra, o serviço havia-se acumulado, de tal forma, que a minha mesa virara a maior bagunça. Pior é que, enquanto eu tentava tirar um pouco do atraso, aparecia cada vez mais serviço novo, pois a época era de "vacas gordas", uma vez que o fluxo de mudanças havia aumentado expressivamente.
     Foi então que um dos diretores percebeu a situação e passou a questionar-me a respeito. Acabei travando um diálogo mais acalorado e menos amistoso com ele. Resultado disto foi que ele se retirou visivelmente contrariado e logo o gerente veio falar comigo, muito aborrecido, dizendo que eu tinha feito a maior besteira, pois seria demitido, segundo decisão daquele diretor.
      No dia seguinte, dei de cara com um rapaz a quem eu deveria ensinar o serviço. Ele, de cara, achou muito complicado o meu sistema de controle. Então eu disse-lhe o seguinte: "Olha, amigo, até aqui eu fiz deste modo, mas daqui para a frente tu vais fazer do jeito que achares melhor; a minha preocupação com estes dados acaba aqui. Vou cumprir o meu aviso prévio e deu pra mim. Não quero mais nem sonhar com esses problemas todos". E passei a sair, como manda a lei, às 4 horas da tarde, o que me parecia algo muito estranho, depois de praticamente dois anos saindo às 9 / 10 horas da noite.
     Para piorar a situação, durante esse período, fui chamado ao escritório do advogado que administrava o imóvel onde residíamos, sendo-me proposto um aumento no valor do aluguel da ordem de aproximadamente 60%, o que se me configurava inviável, ainda mais num momento de novas expectativas com relação ao meu futuro salarial. O administrador, que era irmão do recentemente falecido proprietário de todos os imóveis da vila, alegou que este havia deixado defasarem-se os valores das locações de todas as suas propriedades, e que agora ele estava convocando todos os inquilinos para uma atualização desses valores, segundo a cotação de mercado. Caso eu não concordasse, teria um mês de prazo para desocupar o imóvel. Vejam só em que situação nos encontrávamos naquele momento.
     A Neida e eu já éramos cooperadores oficiais, ela uniformizada e eu de terno, gravata e tudo mais, na Igreja de Vila Ema. Em vista dessas ocorrências, solicitei uma audiência em particular com o nosso pastor e coloquei-o a par da nossa situação.
     Nessa mesma ocasião, já estava começando a ser construído o novo templo, à distância de alguns quarteirões da sede antiga, a qual já se tornara pequena para abrigar o público crescente de então. Estava também sendo construído um chalé de meia-água que seria usado como nova casa da zeladoria, pois era necessário ter alguém cuidando o material que lá ficava depositado, a fim de evitar que o roubassem na calada da noite. A feliz coincidência favoreceu-nos de modo extraordinário, pois, diante disto, o pastor decidiu remanejar para aquele local o irmão Clemente, que era diácono e o zelador da sede ainda em uso, convidando-nos a ocupar as peças que lhe serviam de moradia nessa sede. Eram pequenas, mas ele abriria mão de mais uma sala onde se lecionava o evangelho para um grupinho de crianças na escola dominical, e onde também estavam sendo guardados alguns sacos de cimento naquela ocasião, para o nosso uso provisório. Foi onde, aliás, armamos o nosso quarto de dormir (todos juntos, o casal e os três filhos pequenos). Nas outras duas peças instalamos a cozinha e a sala de almoço e jantar.
     Melhor solução seria impossível. Não pagaríamos mais aluguel, não precisaríamos mais nos locomovermos de tão longe para estar no convívio com a comunidade onde já fizéramos tantas amizades, onde encontráramos ensejo de praticar a fraternidade e a que sonhávamos dedicar-nos mais e mais, por ser-nos isto tão prazeroso. O nosso compromisso seria o de zelar por aquele espaço, que no futuro seria transformado em salão de festas. Enquanto os cultos continuassem sendo ali realizados, a Neida se encarregaria da limpeza dos corredores (parte externa) e dos banheiros; a irmã "senhora Clemente" continuaria fazendo a limpeza do salão da igreja (parte interna), incluindo o palco e duas saletas contíguas, que eram usadas para atendimentos personalizados e pequenas reuniões sob as vistas do pastor titular.
     Ao procurar os motoristas proprietários de caminhões, que terceirizavam serviços para a Granero, a fim de ver quanto me cobrariam pela mudança, surpreendi-me com a disposição e até a disputa entre dois deles para fazerem-na de graça, pois era muito grande a estima que nutriam pela minha pessoa, dado o tratamento que lhes dispensara durante todo aquele tempo em que trabalhara na Empresa. "Você paga apenas uma cervejinha para os ajudantes e estamos conversados", disseram-me ambos. Valeu à pena tratar a todos da melhor maneira que pude, sempre. É bem como um amigo espírita asseverou, alguns anos mais tarde: "Como é bom ser bom". E é bem como disse um outro amigo, mais algum tempo depois: "Quem é bom para os outros, acaba sendo ainda melhor para si mesmo". ///

sábado, 18 de janeiro de 2014

21. ENQUANTO ISSO...

     Durante o período em que trabalhei na Granero, algumas coisas bem interessantes aconteceram, que marcaram nossa passagem por São Paulo. Houve um tempo, mais ou menos longo, em que eu entrava às 7:30 horas da manhã e saía da empresa mais de 10 horas da noite. O horário de almoço era restrito a uma hora apenas, que mal dava para chegar em casa, sentar-me à mesa por uns 20 minutinhos e retornar ao trabalho. À noite, quando chegava cansado do dia estafante, encontrava a Bia, com a idade entre 6 e 7 anos, e o André, entre 4 e 5, num regime natural de revesamento, como se tivessem combinado que cada um deles ficaria de plantão, dia sim e dia não, esperando o pai chegar para vê-lo. A Sílvia ainda era bebê, por isso não participava do esquema.
     Tínhamos uma vizinha, dona Ida, que sofria de alcoolismo. Ela tinha 3 filhos, uma mocinha com necessidades especiais, um rapaz, adolescente, e uma menininha da idade do André. Certa feita ela desapareceu de casa, causando grande preocupação e certo alvoroço. Era o marido e toda a vizinhança se mobilizando de um jeito ou de outro na tentativa de achá-la, talvez jogada em alguma sarjeta do bairro. Mas só depois de alguns dias o esposo soube que ela estava na casa de uma irmã, no distante bairro de Vila Ema, na zona sul da capital paulista. Mais alguns dias depois, ela retornou ao lar, bastante mudada e muito feliz, dizendo-se liberta do vício que a infelicitava. Essa irmã a havia levado a uma Igreja, onde ela fora curada do alcoolismo, "libertada do demônio pela unção divina", segundo suas próprias palavras. Toda entusiasmada, convidou-nos para irmos com ela conhecer essa Igreja. Bem, até então, nós, que éramos espíritas, não frequentávamos nenhum Centro, até porque no bairro onde morávamos, Vila Maria, não havia um sequer. Perguntamos-lhe qual era o nome dessa Igreja e ela disse que só sabia que estava escrito numa placa, na fachada da mesma, "CRUZADA NACIONAL DE EVANGELIZAÇÃO". 
     Naturalmente, por querermos dar-lhe o nosso apoio moral, incentivá-la a permanecer naquele caminho que lhe havia feito tanto bem, aceitamos o convite e a acompanhamos ao culto de domingo à noite.
     Ao chegarmos pela primeira vez ao local, fomos muito bem recepcionados pelos agentes cooperadores que se postavam à entrada e em pontos estratégicos no interior do estabelecimento religioso, dando-nos as boas vindas e indicando-nos os assentos vagos, inclusive mostrando-se solícitos para um atendimento especial em relação às crianças.
     Logo ficamos sabendo tratar-se, em realidade, da Igreja do Evangelho Quadrangular do Brasil (IEQB). Por coincidência, o meu irmão Pedro era pastor dessa mesma denominação em Viamão/Porto Alegre. Havia um coral e um grupo de jovens, postados um de cada lado do palco onde havia um púlpito para as pregações. Um e outro entoavam belos hinos de louvor, antes do início do culto propriamente dito. Depois, um pastor auxiliar ou obreiro puxava um repertório de "corinhos", dos quais todo o público participava; alguns alegres, com bate-palmas; outros mais calmos, espirituais, que faziam a gente arrepiar-se, emocionar-se, todos muito lindos.
     Voltamos com a D. Ida mais uma vez; depois ela tornou a ir para a casa da irmã, passando a frequentar a Escola Dominical, que se realizava à tarde. Mas já que estávamos gostando e éramos sempre bem recebidos, continuamos. Logo mais soubemos que a nossa vizinha havia deixado de frequentar, mas ainda assim nós permanecemos.
     Em fins de 1979, tirei a carteira de habilitação. Já em meado de 1980 com as moedas dos geladinhos tínhamos conseguido juntar uma boa quantia na caderneta de poupança. Com esse dinheiro, mais uma ajuda extra da minha sogra, compramos o nosso primeiro carro, um fusquinha 1300 ano 1967. Aí já podíamos ir aos cultos dos sábados à noite, também. Dei até um testemunho de bênção a esse respeito.
      Em agosto desse mesmo ano, recebi a notícia do falecimento de minha mãe. O joão ligou para a Empresa avisando-me, sendo que o sepultamento seria realizado às 17 horas daquele mesmo dia. Com o auxílio do gerente, efetuei a compra da passagem e embarquei num voo das 15 horas, chegando em Porto Alegre pouco depois das 16. Tomei um táxi e fui direto para o Cemitério São Miguel e Almas, onde estava sendo feito o velório. Cheguei em cima da hora para acompanhar as últimas homenagens proferidas por um padre, depois pelo meu irmão pastor e, por anuência de todos, também eu proferi um pequeno discurso. Na Igreja eu já havia participado de algumas reuniões do Grupo Missionário de Homens, que franqueavam a palavra para treinarmos fazer pregações, com vistas a futuramente nos tornarmos obreiros da palavra.
       Fiquei mais dois dias em Porto Alegre, junto de minhas irmãs Iná e Eloá, que ficaram bastante abaladas com o passamento de nossa mãezinha. Ao retornar para São Paulo, consegui uma carona em um caminhão da própria Empresa. O motorista chamava-se Salatiel e era um grande camarada. Deu-me a direção do veículo em um trecho plano da rodovia. Pude tirar uma casquinha, embora não tivesse prática nenhuma com veículo grande. Até então havia dirigido somente fusca e kombi. Foi uma experiência bastante arriscada.
      Voltando a fita, quando fomos para a Igreja, tanto eu quanto a Neida fumávamos. Assim que firmamos o compromisso de frequentá-la assiduamente, chegamos à conclusão que deveríamos nos libertar daquele vício à toa e tão pernicioso. Devo dizer que as crianças adoraram a nossa iniciativa. E já participávamos de outros encontros, já que com o carro a nossa locomoção se tornara bem mais fácil.
      Devo dizer que a minha sogra não gostava nada disto, pois achava que havíamos ficado muito fanáticos e que aquela igreja explorava a fé das pessoas, pois cobrava dízimos e pedia ofertas em todos os cultos. Nós nos adaptamos muito bem à comunidade, fazendo muitas amizades. Só não concordávamos quando o pastor ou algum obreiro falava mal do Espiritismo, que bem conhecíamos, tachando-o de obra dos demônios, religião do Diabo e coisas semelhantes e sempre negativas. Mas nós nos calávamos, respeitando a crença alheia e as opiniões de quem não conhecia o verdadeiro caráter da Doutrina Espírita. Às vezes eu dizia para algum irmão mais chegado que não era bem assim, que era muito diferente do que eles imaginavam; mas não passava disso, para não criar polêmica.
     E, assim, o tempo foi passando, sem mais acontecimentos dignos de nota, até quase o final do ano de 1980. ///
    

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

20. NA EMPRESA DE MUDANÇAS

     Depois de rapidíssimas passagens por duas outras transportadoras, Creciumense e Aurora, , fui buscar uma colocação na Empresa "Mudanças Granero", por indicação de uma cliente da Neida, mãe dos dois jovens diretores da mesma. O escritório da garagem, onde eu iria trabalhar, ficava a cerca de um quilômetro da casa onde morávamos, no Alto da Vila Maria.
      Numa época em que ainda não havia computadores de uso abrangente como os que hoje fazem parte do dia-a-dia de todas as empresas e pessoas, o gerente, sr. Élio, pediu-me para organizar um livro de controle, com a finalidade de identificar mais facilmente os destinos de alguns caminhões e/ou motoristas em viagem; ou para definir outros aspectos, como datas de coleta e entrega, e com quem estariam determinadas mudanças, em trânsito por todo o país, uma vez que a Empresa paulista atendia a todas as praças de norte a sul, muitas vezes utilizando-se de carretas que podiam levar até cinco mudanças em regime de aproveitamento, conforme as suas metragens cúbicas.
     Inicialmente, ele mesmo criou uma planilha com 6 ou 7 itens a serem registrados nesse livro de controle. À medida, porém, que as buscas por informações me eram solicitadas, fui aprimorando o sistema, por minha conta, criando símbolos e traçando novas colunas, a fim de registrar todos os dados possíveis, envolvendo cada serviço, cada veículo e cada condutor, desde o início até a entrega da carga e chegada de retorno do caminhão ao pátio. Desse modo, podia responder a qualquer questionamento que me fosse feito.
     Exemplos:
     1) Com quem está a mudança de tal cliente?
     2) Que data saiu essa mudança, em que caminhão, ou com que motorista?
     3) Qual o motorista que viajou com o caminhão de placa tal?
     4) Tal motorista viajou com qual caminhão e para onde?
     5) Que dia saiu e/ou chegou tal mudança, tal motorista, ou tal caminhão; quais os seus destinos, etc.?
     6) Quem fez a apanha ou entrega de tal mudança?
      Acontecia, muitas vezes, de um determinado motorista, que estava escalado para uma viagem, adoecer, estando já carregado o seu caminhão, tendo que outro motorista ser convocado para assumir o seu lugar; uma vez restabelecida a saúde e retornando ao trabalho, aquele motorista pegava o caminhão do colega que o substituíra na viagem e ficava fazendo os serviços locais que competia àquela viatura. Nesses casos, a pergunta poderia ser: Quem viajou com o caminhão do Fulano? Ou: O Fulano está trabalhando com qual caminhão (ou: de quem)?
      E, assim, não havia nada que me fosse perguntado que eu não pudesse responder em questão de um ou dois minutos apenas, tempo necessário para a consulta às minhas anotações.
    Além disso, fazia parte das minhas tarefas receber no balcão os cheques e dinheiro referentes ao pagamento das mudanças, trazidos pelos motoristas. Vale lembrar que na época não havia cartões de crédito. O dinheiro ia direto para o caixa do escritório local, enquanto os cheques tinham de ser relacionados e enviados o mais breve possível para o escritório central (matriz). Também era eu quem despachava os motoristas e ajudantes, fornecendo-lhes vales-refeição ou adiantamento de diárias de viagem. Acertava também as diárias dos chapas (ajudantes ou motoristas proprietários de veículos que terceirizavam seus serviços para a Empresa, sem vínculo empregatício).
     O meu relacionamento com todos esses funcionários, assim como com os colegas do escritório e o gerente da garagem, inclusive com os da portaria, do almoxarifado e da oficina de consertos, instalados no mesmo local, era o melhor possível. 
       Ingressei na Granero em 15 de janeiro de 1979 e saí em 11 de dezembro de 1980.
      Enquanto isso... ///
     

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

19. NOVAS EXPERIÊNCIAS

       No Expresso Zacharias, trabalhei de janeiro de 1977 a setembro de 1978. Inicialmente, das 17 às 23 horas; mas, na verdade, saía geralmente por volta da meia-noite, 1 hora da madrugada. Minha função era a de operador do C.P.D. (Centro de Processamento de Dados). Depois, passei a trabalhar, na mesma função, das 10 às 19 horas, porém saindo normalmente entre 20 e 21 horas.
      De vez em quando terminávamos de manifestar os caminhões lá pelas 22 horas, pois tínhamos que aguardar a chegada dos veículos carregados que vinham do Rio de Janeiro, para batermos os conhecimentos de carga dos mesmos, com mais de duzentas notas cada um. Além deles, tinha também o veículo de coletas da própria filial de São Paulo, que vinha carregado também com um número de notas fiscais superior a cem. 
       O Géferson e eu éramos os dois únicos funcionários do CPD, mas havia uma equipe de apoio, que separava as vias dos conhecimentos, grampeava-as às notas, destinava-as ao armazém para o carregamento ou remanejo das viaturas que seguiriam viagem, ao seguro, ao arquivo, entre outras providências complementares.
       Certa ocasião, numa discussão boba com o colega de sala, ele pegou da gaveta de sua escrivaninha uma arma e a apontou para mim, quase a encostando em minha testa. Despejou-me vários insultos e ameaças, enquanto eu, mentalmente, pedia socorro aos Céus, provavelmente pálido de medo. Depois de várias ofensas a minha pessoa, guardou a arma e voltou à sua atividade, em silêncio, como se nada houvesse acontecido. Suspirei, aliviado, mas com um sentimento de insegurança e estupefação, que remoía mentalmente. Isto ocorreu no período da manhã. Quando fui almoçar, contei para a Neida e disse-lhe que não tinha condições de voltar ao trabalho, pelo menos naquela tarde, pois estava abalado emocionalmente.
       Um pouco mais tarde, fui até o telefone público que havia em frente à padaria, a uns dois quarteirões de casa, e liguei para o gerente da Empresa, pedindo-lhe uma audiência em particular, expondo-lhe por alto o que havia ocorrido naquela manhã. Ficou combinada uma entrevista para o dia seguinte, bem cedo, para tratarmos do assunto.
       Após a exposição detalhada do acontecimento, ele deu-me a seguinte instrução: eu deveria sair de sua sala pela porta da gerência e adentrar ao ambiente de trabalho pela porta funcional, como se estivesse chegando de casa, agindo normalmente, para não despertar nenhuma suspeita junto ao companheiro. À tarde seríamos ambos chamados ao setor de R.H. e seríamos ambos demitidos, sem justa causa. Mas eu não deveria preocupar-me, pois na segunda-feira seguinte (isto foi numa quarta-feira) seria readmitido. Para todos os efeitos, a Empresa teria achado por bem readmitir-me, pois os novos funcionários contratados não estariam dando conta do serviço. E assim foi.
       Uns três ou quatro dias depois, ao sair do supermercado, que se situava na avenida principal do bairro, encontrei o ex-colega, que mostrou-se preocupado comigo, diante da situação, dizendo-me que já estava empregado em uma outra empresa e que poderia apresentar-me lá, se eu quisesse. Foi então que lhe contei da minha readmissão, que fora chamado na segunda-feira. Ele, então, mostrou-se muito feliz por mim. Disse que havia pensado muito em mim, na minha situação, que eu tinha dois filhos pequenos para criar e que minha esposa estava esperando outro bebê, enquanto ele não tinha família para se preocupar. Reiterou que estava muito contente com o fato de me haverem chamado de volta e ainda brincou: - "É, eles pensaram que seria mole substituir dois caras com experiência, que nem eu e você, por dois caras novos que não sabem como é que funciona aquele negócio lá... Ainda bem que eles voltaram atrás, e ainda bem que chamaram você, porque eu não iria voltar mesmo. Já tô noutra e quero mais é botar eles na justiça, a menos que façam um acordo comigo".
       De fato, haviam contratado dois rapazes, ambos mineiros, sendo que eu ficaria, a partir de então, como responsável pelo setor, que incluía os funcionários de apoio.
       Em 03 de janeiro de 1978, nascia a nossa filha Sílvia Regina. Já aí a nossa situação financeira estava bem mais equilibrada, pois além da promoção que eu recebera após aquele episódio, a Neida, mesmo durante toda a gestação, trabalhava em casa como manicure e pedicure, faturando um bom dinheiro. Além disso, ela fazia geladinhos para vender, o que nos rendia um ganho extra, que economizávamos em uma conta poupança. 
       A gravidez ocorrera de inesperado. A Neida andava se sentindo meio enfraquecida. Suspeitava-se que estivesse com certo grau de anemia, pois sentia cansaço e falta de força. Marcada a consulta médica pelo convênio com o sindicato dos empregados em empresas de transportes, ao qual eu me associara, eis que o inesquecível Dr. Salomão debochou do nosso diagnóstico leigo: -"Anemia? O que a senhora tem é um bebê nessa barriga, isto sim". 
       A notícia nos pegou de surpresa, mas, podem crer, foi uma grata surpresa. Um vizinho nosso, motorista de táxi, foi quem nos levou até o hospital maternidade para o grande evento. A Bia e o André ficaram aos cuidados da avó, que havia chegado no dia anterior. Quando a Sílvia estava completando o seu primeiro mês de vida, viajamos para Pelotas e convidamos o querido e saudoso tio Duca, irmão da D.Deloá, para padrinho de batismo, juntamente com sua e nossa grande amiga, Luíza. Foi a primeira vez que viajamos de avião. Pouco tempo depois, em junho do mesmo ano, o tio Duca veio a falecer, o que nos deixou muito consternados, inclusive diante da impossibilidade de retornarmos a Pelotas para o seu sepultamento. Recebi o telefonema na empresa, com a triste notícia, e não pude impedir que a emoção me levasse às lágrimas, pois ele era um cara muito especial, que desde o início se mostrara muito meu amigo.
       A nossa rotina prosseguia, sem novas ocorrências dignas de registro, até que algumas mudanças nos regulamentos da Empresa vieram alterá-la significativamente.
       A primeira foi com o corte da condução (uma kombi de propriedade da Empresa) que levava os funcionários em casa sempre que o expediente ultrapassava a marca das 20 horas, o que era frequente, quase que diariamente. Depois foi suspensa também a janta por conta da Empresa, aos sábados, após às 19 horas.
     Essas duas medidas encontraram uma compreensível resistência por parte da pequena equipe supervisionada por mim. Saí em sua defesa junto à gerência, mas de nada valeram os meus argumentos. Eu morava perto, mas havia um rapaz que residia em Guarulhos e os outros dois (os mineirinhos) em Santo André, na região metropolitana paulista. Cada um deles gastava no mínimo duas horas de viagem para chegar até suas respectivas residências. Com isto, o clima ficou muito ruim e o serviço passou a ser boicotado após aquele horário, comprometendo muitas vezes os carregamentos e as saídas dos caminhões para os seus destinos de viagem.
       Após um outro episódio, em que esquecemos de alimentar os equipamentos de emissão com o formulário contínuo, rigorosamente numerado, neles utilizado, e que ficava armazenado em uma sala da qual somente o gerente e o assessor de diretoria tinham as chaves de acesso, interrompendo assim o trabalho por falta do material indispensável, fui demitido, mediante a seguinte justificativa: -"Você é pago para defender os interesses da Empresa e não os dos seus subordinados. O que aconteceu ontem à noite foi uma falta grave da sua parte. Uma irresponsabilidade sua, mais do que dos seus funcionários. Nós achamos que você não está correspondendo mais às nossas expectativas, por isto o estamos demitindo".
       Diante disto, respondi apenas: -"O senhor é quem sabe". Passei no R.H. para o devido acerto de contas e fui para casa. ///