Era o início de 1988 e minha sogra estava precisando de uma ajuda ainda mais efetiva de nossa parte. É que o seu Mário já não conseguia levantar-se da cama sem o auxílio de um braço forte, precisando também ser amparado para ir ao banheiro, o que ocorria pelo menos umas duas ou três vezes por noite.
Ela, por sua vez, já não tinha condições de ajudá-lo nesse sentido, pois não podia fazer nenhum esforço físico devido aos problemas cardíacos, que, embora estáveis e sob controle, exigiam o máximo de cuidado. A ideia então era de irmos morar junto com eles. E assim ficou combinado e decidido. Alugamos provisoriamente uma casa maior, com três quartos, situada na rua Dr. Cassiano, bem próximo à rua Professor Araújo. O apartamento da Telles foi desalugado e as casas da Osório e Cohab Tablada postas à venda, para que se pudesse comprar um outro imóvel compatível com as novas necessidades.
Na época, vale recordar, havia uma desvalorização brutal da moeda nacional e o rendimento das aplicações financeiras, inclusive da poupança, eram bastante acentuados, com variações diárias, tornando qualquer transação econômica de vulto em uma verdadeira fonte de tensão emocional muito forte.
A dona Deloá sempre soubera lidar muito bem com as suas economias pessoais. No entanto, aquele era um momento que exigia redobrada perspicácia e agilidade em negociações do porte da que estava prestes a se concretizar.
Achamos uma casa que nos pareceu, dentre outras, a ideal. As duas nossas já haviam sido vendidas e o dinheiro apurado devidamente aplicado para não sofrer depreciação de valor. Quando tudo parecia estar correndo favorável, porém, eis que surge um impasse, por problema referente ao espólio da família proprietária daquele imóvel que pretendíamos comprar; e o negócio foi desfeito, o que abalou bastante emocionalmente a minha sogra, que já contava como certa a nossa mudança imediata para a nova casa. Partimos então para uma nova busca, correndo contra o tempo, pois o contrato de locação venceria em seguida e caso não saíssemos antes, o mesmo seria renovado automaticamente e isto incidiria em multa contratual se o quiséssemos cancelar posteriormente, salvo se o fizéssemos em curtíssimo prazo, não lembro de quantos dias.
Procura daqui, procura dali, surgiu um imóvel que atenderia às nossas necessidades, pelo menos com um pouco de boa vontade da nossa parte. Era o melhor que havíamos conseguido até ali, depois daquela outra que tivera a aprovação total, mas cuja negociação resultara frustrada. Esse novo imóvel situava-se à rua Marcílio Dias, esquina com a rua Major Cícero de Goes Monteiro. Rapidamente a compra foi realizada e providenciado o serviço de um pintor, um amigo de toda a turma lá do salão, a fim de dar-lhe uma traquejada para que pudéssemos habitá-la o mais breve possível.
Em meio a essa movimentação toda, frenética e repleta de emoções, um fato de grandiosa expressão veio mexer ainda mais com os ânimos de todos nós. Foi o nascimentos da nossa filha Ana Paula, naquele dia 2 de julho. Sendo este um evento tão importante e tão peculiar, requer seja tratado em capítulo à parte. Só o que posso adiantar é que, embora tenhamos sido chamados de "loucos", porquanto já tínhamos três filhos com que nos preocuparmos, ela foi tão bem vinda, que até a vó Deloá chegava do serviço à noite cheia de paixão e de saudades. Assistia a sua novela preferida com a netinha querida ao colo, demonstrando sempre nutrir por ela um carinho todo especial, que, a bem da verdade, não negara a nenhum dos netos. Só que todos eles passaram aquela fase tenra longe dela, em São Paulo, enquanto a Aninha ali estava, macia, frágil, ao mesmo tempo muito esperta, nos braços da "vovó coruja".
O tempo passava célere e agora já era o dia 12 de setembro, uma segunda-feira como outra qualquer. A casa quase pronta e a mudança com perspectiva de ser feita dentro de breves dias. Minha sogra e eu chegamos de nossas atividades profissionais. Como sempre, jantamos uma boa comidinha feita com o capricho de sempre pela minha esposa e sua filha. A Neida tivera mais um dia de muitos afazeres domésticos, incluindo as atenções cotidianas ao seu Mário e aos quatro filhos, três deles em idade escolar, comprometidos também com seus respectivos deveres de casa, além do neném, a quem não faltavam os cuidados maternos e dos manos babões rotineiros. A conversa na sala, o telejornal, a novela, depois os banhos, todos se acomodando para dormir, tudo corria como de costume.
Foi então que ouvimos alguns suspiros, entre gemidos, um tanto estranhos, vindos do quarto de minha sogra, e fomos ver o que se passava. Era ela mesma queixando-se de falta de ar, de uma grande dificuldade para respirar. Percebemos logo que a situação era anormal. Rapidamente, ainda sob os seus protestos, pois achava desnecessário, solicitamos um táxi com urgência, enquanto a Neida ligava para o Prontocor, da qual minha sogra era associada. Acompanhei-a até o pronto atendimento do Plano de Saúde, mas já no caminho ela sofreu uma parada cardíaca, tornando a si espontaneamente. Tão logo lhe foi dado o primeiro atendimento, sendo-lhe feitas as perguntas de praxe, ao ser colocada na viatura que a levaria para a UTI do Hospital Santa Tereza (hoje extinto), eis que teve uma segunda parada e foi logo reanimada pela equipe especializada que a atendia, na própria ambulância. Dado o socorro, já com ela consciente outra vez, partiram às pressas, pois não podiam perder tempo algum a fim de salvá-la. Eu segui a pé, pois o hospital ficava a poucas quadras dali, na rua Barão de Santa Tecla. A Neida e a Giselda, esta imediatamente avisada pela prima, chegaram em seguida. Contei-lhes o que havia acontecido e ficamos no aguardo de notícias. Por volta de uma hora da madrugada do dia 13, conforme nos foi informado por um dos enfermeiros, que por sinal era cliente dela e estava bastante abalado ante o fato, ela havia sofrido um terceiro infarte, dessa vez irreversível, levando-a ao óbito inesperado.
Diante do dramático acontecimento, as filhas do seu Mário vieram buscá-lo, assumindo os seus cuidados, dizendo-nos que agora não competiria mais a nós, sim a elas, a responsabilidade de atendê-lo em suas necessidades, até porque tínhamos um bebê que certamente nos exigiria bastante atenção. Ele contava nessa ocasião com 80, senão 81 anos.
Conforme estava previsto, embora não dessa forma, mudamo-nos em seguida para a nova casa, seguindo os novos rumos que agora se nos impunham, de acordo com a lei da vida. ///
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