quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

23. ÚLTIMOS SETE MESES EM SAMPA

     Logo que chegamos na Vila Ema, fui em busca de um novo emprego. Como não havia nenhuma transportadora para esses lados da cidade e a Vila Maria, onde a maioria delas estavam instaladas, ficava bem distante, aventurei-me em outro ramo. Consegui vaga de vendedor em uma loja atacadista de utilidades domésticas e brinquedos, manufaturados em plástico e alumínio. Não me senti muito confortável no ambiente da loja, cujos corredores eram estreitos e, sem a devida prática no negócio, logo percebi que teria grande dificuldade de adaptação.
     Enquanto ali estive, notei que os artigos vendidos tinham, muitas vezes, o destino das feiras-livres, onde eram oferecidos ao consumidor final por pequenos comerciantes autônomos, que se instalavam nas periferias, ou seja, nas esquinas de algumas transversais à rua principal de cada feira. Faziam-no de forma clandestina, mas fixa. Para quem não sabe, as feiras-livres em São Paulo se estendem por cerca, ou mais, de dez quadras, com bancas que oferecem os mais diversos tipos de mercadorias, inclusive roupas, calçados e utensílios para os mais diversos fins. Aqueles pequenos comerciantes, que atuavam à margem da legalidade, isto é, sem o devido alvará de licença emitido pelo poder público para venderem o "seu peixe", eram chamados de marreteiros, tendo de se cuidar das eventuais  blitzes promovidas pela fiscalização municipal, para o que contavam com o apoio de atentos olheiros, que percorriam toda a feira anunciando a chegada da "rapa", quando da eventual visita dessa fiscalização.
     Depois de observar e colher algumas informações acerca dessa atividade, decidi investir um pequeno capital, fruto de minha última rescisão de contrato trabalhista, em utensílios domésticos de plástico, e lá fui eu, com o nosso fusquinha lotado, sem o banco do carona, marretear nas feiras da região mais próximas de nossa nova moradia. Foi muito divertido, porém pouco lucrativo, pois eu receava pôr uma margem muito alta e o meu lucro bruto, sem levar em conta as despesas de locomoção, não ultrapassavam aos 30/40%.
     Nessa época, a minha irmã Eloá esteve passando uns dias em Sampa (apelido carinhoso dado à mega capital paulista), indo comigo todos os dias para a feira. Com sua maquininha Kodac, tirou algumas fotos que temos guardadas como doces lembranças daquele momento, tão difícil, sim, mas tão gratificante também.
     Na Igreja, éramos cooperadores atuantes em todos os cultos e reuniões de estudos. Antes de quaisquer outros companheiros de atividades espirituais, éramos aqueles que dávamos as boas vindas aos primeiros irmãos que chegavam àquela "Casa de Deus". Minha esposa, contrariando as ordens dadas pelo pastor, atraía algumas irmãs e irmãos que vinham de longe, geralmente a pé, sob o sol causticante ou frio e chuva, principalmente para os cultos vespertinos, a fim de que ingressassem sorrateiramente na cozinha da nossa pequena e simples morada, oferecendo-lhes um copo de suco refrescante ou um gostoso cafezinho, às vezes acompanhados de um pedaço de bolo ou torta salgada, feitos por ela mesma com muito carinho e um grande sentimento de fraternidade. Era comum recebermos visitas prazerosas de alguns irmãos fora de hora, o que também nos era recomendado evitar, sob o pretexto de "não misturarmos as coisas". Mas de nada adiantavam tais ordens e recomendações, porque sempre fomos afeitos a dispensar aos mais simples, especialmente àqueles que não possuíam as condições de conforto para chegarem até o local, as nossas melhores atenções.
     Tudo ia muito bem, apesar das dificuldades financeiras que mais uma vez batiam à nossa porta, pois estava me descapitalizando muito depressa. Teve uma ocasião, em que estive com uma gripe muito forte, impossibilitado de praticar a atividade econômica por alguns dias, em que, sabedores de nossa situação, alguns irmãos promoveram uma campanha surda, somente entre os membros do diaconato, brindando-nos com uma abençoada cesta básica de alimentos.
     Mas um fato inusitado veio a mudar completamente o rumo da nossa história, uma vez mais. Vocês vão saber agora, já no próximo capítulo dessas minhas anotações autobiográficas, como e porquê saímos da IEQB de Vila Ema e de SAMPA, rumo ao Pampa Gaúcho, mais precisamente à nossa querida Princesa do Sul - Pelotas, que nos recebeu de braços abertos e onde escrevemos novos e belos capítulos da nossa história. ///

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