quinta-feira, 17 de outubro de 2013

18. RECÉM-CHEGADOS EM SÃO PAULO

     Ao chegarmos no apartamento onde residiam os amigos Vitorino e Zeni, no centro de São Paulo, ele, que voltaria em seguida para a firma onde trabalhava, pois lá não era feriado no dia dois de fevereiro, disse-me: "Agora você desce e vai até a esquina (a uns 10 metros da entrada do prédio); ali tem uma banca de jornal; você pede o Estadão (jornal O Estado de São Paulo), que vem com um encarte de classificados; aí você procura emprego. Qualquer dúvida quanto a endereços, pergunta pra Zeni, que ela te dá umas dicas".
     Tomamos um choque, pois não era bem isto o que esperávamos em termos de receptividade. Eu não tinha a mínima noção de direcionamento naquela imensa cidade. Após uma pesquisa um tanto complicada, fui a uma loja de móveis e eletrodomésticos tentar uma vaga de vendedor, mas ao receber a resposta ao meu pedido de emprego, fui informado que estava com o nome cadastrado no SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito), e por isso não poderia ser admitido, a não ser que regularizasse a situação. Ora, não tinha recursos para tal providência, a não ser que começasse a trabalhar.
     Uma semana depois o amigo Vitorino chegou em casa e entregou-me um cartão do Sr. Ottmar Schultz, diretor-proprietário do Expresso Cruzador, transportadora com matriz em Venâncio Aires-RS. e filial em São Paulo, numa rua bem próxima do local onde estávamos.
     No dia seguinte, cedo, fui até essa empresa, conversei com o sr. Schultz e fui imediatamente admitido como funcionário do escritório. Em seguida a Empresa estaria se mudando para a Vila Maria, bairro localizado à margem da rodovia Presidente Dutra, que liga a capital paulista ao Rio de Janeiro.
     Após um breve período de sufoco, em que fomos morar em um pequeno cômodo de um sobrado de propriedade do Sr. Schultz, onde já residia um colega do escritório e sua jovem esposa, que não gostava de crianças (e tínhamos duas pequenas), conseguimos uma casa para alugar no Alto da Vila Maria, a cerca de doze quarteirões da nova sede da Empresa. Ficava na rua Cecília Meireles, nº. 26.
     Dividíamos uma parede com a residência contígua, do mesmo proprietário e cuja inquilina antiga era a simpática Dona Maria, que nos mostrara a casa anteriormente. Aos fundos havia uma pequena área de serviço. Ao lado direito havia um corredor, em terreno com ligeiro declive, o qual dava acesso a uma vila composta de cinco casas, situadas aos fundos da nossa, todas do mesmo senhorio, de nome Armando, uma pessoa boníssima, que cobrava os aluguéis no local, à semelhança do personagem "Seu Barriga" do programa "Chaves" do SBT.
     Diante do valor do aluguel, conversei mais uma vez com o sr. Schultz e ele me garantiu um aumento salarial já para o mês seguinte. Foi ele também quem conseguiu-nos um fiador para a locação desse imóvel.
     Compramos a prazo um fogão, um armário de cozinha e uma mesinha com quatro cadeiras, tudo bem simples, tendo por nosso avalista o Celso, filho do sr. Ottmar e diretor-adjunto da Empresa.
     Logo mais, ao se inteirarem da nossa real situação, pois não tínhamos outros mobiliários na casa e ninguém viu nenhuma mudança sendo descarregada, o que despertou a curiosidade dos vizinhos mais próximos, a dona Maria conseguiu-nos um colchão de casal e o seu Chico, vizinho dos fundos, doou-nos um sofá semi-novo; um pouco mais tarde, uma vizinha de frente, de origem japonesa, que se tornara cliente da Neida, pois ela atendia como manicure e pedicure, deu-nos uma cama e um guarda-roupa, daqueles móveis bem antigos, mas em perfeito estado de uso, que era de sua mãe, que estava se mudando para um apartamento menor. Fui com um colega da Empresa em um Mercedinho D-608 buscá-los em um bairro distante.
     Foi desta maneira que, recém-chegados em São Paulo, enfrentamos os primeiros desafios dessa nova etapa da vida, que haveria de nos trazer ainda muitas experiências.
     Com dez meses apenas de Expresso Cruzador, mas já de muito tempo sentindo uma certa hostilidade por parte do gerente, o Sr. Timba, fui convidado por um ex-colega, o Jeferson, para ir trabalhar com ele noutra empresa, o Expresso Zacharias, que tinha a sua sede em São Bento do Sul-SC., e a filial paulista na mesma rua, a cerca de meia quadra do Cruzador. Nessa nova Empresa vivenciei alguns fatos interessantes, que contarei no próximo texto. 
     Ah! meus amigos, como é bom recordar, mesmo dos momentos de maior sufoco, pois em tudo deixamos a marca de nossa passagem e todas as coisas e pessoas contribuíram de algum modo para o que somos no presente, uma vez que é de nossas experiências, agradáveis e desagradáveis, em meio a erros e acertos, que crescemos e desenvolvemos nossa personalidade e nosso caráter. ///
     

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

17. MUDANÇA PARA SÃO PAULO

     Vi alguns colegas saírem da loja para trabalhar em fábricas moveleiras ou em representações, com venda ao comércio varejista de móveis. Parecia que todos eles estavam se dando bem. O trabalho, na verdade, era só o de visitar as redes lojistas para recolher os pedidos. E o segredo do sucesso era apenas saber agradar aos vendedores para que eles direcionassem o interesse dos clientes para as linhas de produtos daquele determinado fabricante ou representante. Bá, era tudo o que eu queria.
     Teve um colega que foi trabalhar na Sharp, empresa japonesa que se lançara, naquela década de 70, no mercado brasileiro, com uma nova modalidade de vendas: a oferta de televisores coloridos e aparelhos de som de última geração diretamente ao consumidor final. A Empresa indicava os clientes a serem visitados. Por insistência do ex-colega e amigo, fui até o escritório dessa Empresa fazer a ficha de solicitação de emprego e um teste. Isto foi numa sexta-feira, e pediram-me para estar lá na segunda-feira às 8 h 30 min., para saber o resultado. Nesse dia, aprontei-me sem pressa e me dirigi ao local, lá chegando às 9 h e 15 minutos. O rapaz pegou a minha ficha e falou-me que havia sido aprovado. "No entanto  -  disse ele  -  era para você estar aqui às 8 horas e 30 minutos e você está bastante atrasado. Sabe como é... esta é uma empresa japonesa e uma das exigências aqui é a pontualidade. Por isto, não será possível admiti-lo, pelo menos desta vez. Fica para outra oportunidade".
     Que baita lição, heim?
     Mas eu estava decidido a sair do J.H.Santos e partir para a venda externa, que a meu ver me daria um ganho muito maior. Conversei com o senhor "M" a respeito disto e ele ficou de ver o que poderia fazer para me ajudar.
     Dias depois veio ele com um cartão de visita do diretor de uma Empresa de representação de uma famosa marca de móveis para escritório. Fui conferir e minha admissão foi imediata. Solicitei a minha demissão da loja e aventurei-me na nova modalidade de trabalho. Porém, na ânsia pela mudança, não me informei direito de pormenores, e só ao iniciar o treinamento, acompanhando um colega que já trabalhava no ramo havia uns dois anos, foi que descobri que se tratava de venda direta ao consumidor, isto é, diretamente para escritórios empresariais, e com região fechada, sendo que a minha era tipicamente formada por empresas de transportes, cujos escritórios, na maioria dos casos, compunha-se de duas ou três escrivaninhas e respectivas cadeiras, cujos gerentes não faziam muita questão de renovar. Além do que, a minha própria insegurança laborava contra mim. E foi assim que, com um mês de péssima experiência, percebi, ou melhor, confirmei que havia tomado o bonde errado e resolvi saltar antes que fosse tarde demais.
     Ainda na pura ansiedade, aventurei-me como vendedor agora de um Cursinho de Inglês, cuja clientela era indicada por uma pesquisa realizada anteriormente por outra equipe.
     O André já estava com quase um ano e a Bia com quase três, quando, mais uma vez sem grandes perspectivas, aproveitamos um final de semana prolongado para irmos a Pelotas visitar a minha sogra. No terceiro dia, creio, houve uma discussão, em que, deitada no sofá da sala às escuras e chorando, minha sogra acusava a filha de lhe haver causado um grande desgosto. Dizia ela que sabia que não iria viver por muito tempo e responsabilizava a Neida pelo que quer que lhe acontecesse.
     Diante disto, minha esposa chamou-me e às crianças e determinou que iríamos embora imediatamente, no primeiro ônibus que saísse para Porto Alegre.
     Na sequência dos acontecimentos, propôs-me uma mudança radical, ou seja, a possibilidade de irmos para São Paulo. 
     Tínhamos um casal de amigos morando naquela cidade e com quem costumávamos corresponder-nos.
     Escrevemos então uma carta para o Vitorino e a Zeni, contando da nossa decisão e solicitando-lhes ajuda. Responderam ambos que poderíamos contar com eles, aconselhando-nos a vender o máximo de móveis e eletrodomésticos possível, pois uma mudança custaria muito caro, além de não possuírem um local apropriado para guardá-los até que conseguíssemos alugar uma casa para morar.
     Eu estava indo sem emprego garantido, confiante apenas na força que receberia do amigo Vitorino, que, segundo ele mesmo, era muito bem relacionado com o empresariado do ramo de transportes, no qual ele trabalhava.
     Assim foi que no dia dois de fevereiro de 1976, com o André completando o seu primeiro ano de vida, desembarcamos na antiga rodoviária paulista, no centro da mega capital, já nessa época denominada "selva de pedra". ///

domingo, 6 de outubro de 2013

16. SITUAÇÃO DIFÍCIL NA SEGUNDA GRAVIDEZ

     Transcorria o ano de 1974 e a situação financeira era das mais graves, quando apresentou-se, de surpresa, a segunda gravidez. Diante das perspectivas sombrias, pois mal dávamos conta da alimentação apropriada para a pequena Bia, com um ano e pouco de vida, e dado o pouco tempo ainda de gestação, pois a descoberta por meio dos sintomas peculiares foi bastante adiantada, com no máximo três semanas, alguém até chegou a aconselhar-nos a interrompê-la, pois era visível o fato de que a situação só tendia a piorar. A Neida chegou a chorar diante desse aconselhamento, pois não teria esta coragem.
     Algum tempo depois, num daqueles momentos de maior aperto, quando tínhamos apenas um café preto e um pedaço de pão, sentindo o cheirinho de comida vindo de outro apartamento, bateu uma certa duvida, que a fez pensar: "será que a gente agiu certo, em continuar? Será que aquela pessoa não estava certa, quando nos deu aquele conselho?" sobreveio-lhe então um sonho, em que estava em uma praça com uma crianças brincando e passando por ela. Havia também um portão grande, como de uma escola. Desse portão saiu um menininho e veio correndo até onde ela estava, entregando-lhe um bilhetinho, no qual estava escrito: "Por favor, fique comigo; eu vou ser seu filho. Eu lhe amo muito".
     Ao acordar desse sonho, emocionada, eis que a minha companheira obteve e transmitiu-me a certeza de que seria mãe daquele menino, que lhe entregara o bilhetinho sorrindo, com um dentinho quebrado à mostra. E como sempre acreditamos na vida, não só após a morte, como também antes desta vida que temos no mundo, vimos esse sonho como um sinal  claro e evidente de que iríamos receber aquele espírito que estava designado para o nosso convívio, confiantes de que Deus nos haveria de suprir as necessidades para criá-lo juntamente com a filhinha que já fazia parte da nossa felicidade conjugal.
     No J.H.Santos, eu passava por um período de baixa produtividade, embora dos dez vendedores da loja eu me mantivesse sempre entre o 4º. e o 6º. lugares em vendas semanais, o que era até louvável para um cara como eu, tímido por natureza.
     Certa vez, quando estávamos em uma reunião de final de expediente com o gerente Rubem, o vigia recebeu, já na porta de saída dos funcionários, pois que a loja já estava fechada, um casal acompanhado de um outro cidadão, que depois vim a saber ser tratar-se de um intérprete do casal que era argentino, querendo pesquisar preços de móveis. Foi um tal de "eu não vou", "nem eu", "eu já encerrei minhas vendas por hoje", que levou o Rubem a indicar-me como "voluntário" para atender aquelas pessoas. Mais por consideração a ele do que por vontade própria, embora tivesse vendido pouco naquele dia, fui atendê-las, esperando que talvez me rendesse uma venda a mais, apesar do horário avançado. Depois de algumas indagações sobre preços e produtos, fiquei sabendo que se tratava de um executivo de uma grande empresa de Buenos Aires, o qual estava se transferindo para a sucursal de Porto Alegre e desejava mobiliar todo o apartamento comprando o máximo que pudesse em uma única loja. Depois de mais de uma hora de atendimento, essas pessoas foram embora com a promessa de me procurarem no dia seguinte caso voltassem para efetuar a compra. Queriam apenas um tempo para analisar a pesquisa feita naquela e noutras lojas, mas já adiantando que haviam gostado muito do que viram e do meu atendimento. E não é que voltaram mesmo? Vendi-lhes o montante de CR$ 45.000,00 e ainda dei de bandeja para uma colega do bazar um faturamento de quase CR$ 5.000,00. Isto já com todos os descontos possíveis para o pagamento à vista.
     A minha média semanal girava entre CR$ 55.000,00 a CR$ 60.000,00. Aquela foi considerada a maior venda individual de toda a história e de todas as lojas da rede J.H.Santos.
     Não obstante esse presentão que me fora dado pelo destino, ou pela circunstância, fechei a semana com um total acanhado de CR$ 59.000,00 em faturamentos. Parecia até que era eu quem não queria vender mais nada e superar a minha média normal. A breve euforia daquele momento especial de destaque foi abafada pela decepção do resultado final daquela semana igual a todas as demais, que antes deveria ter-me conduzido a um brilhante 1º. lugar. E olhe que o primeiro lugar daquela semana não ultrapassou a casa dos 70 mil, ficando o segundo com menos de 65 mil. Com a minha média normal somada àquela venda única eu deveria ter ido a no mínimo uns 90 mil cruzeiros. E vale lembrar que nessa época não havia cartão de crédito, nem venda por Internet. Era tudo ali na loja, no carnet ou à vista mesmo.
     Um colega meu, o Saldanha, a quem dei uma força, intercedendo junto ao gerente para que o promovesse a vendedor, pois era vigia da loja, e deu muito certo na nova função, chegou a dizer-me, em certa ocasião, que parecia até que eu fugia dos clientes, pois quando algum cliente se aproximava da porta, onde às vezes ficávamos jogando conversa fora, sem mais nem menos eu migrava lá para o fundo da loja. Algo me cegava e eu não notava a aproximação do cliente que acabava sendo atendido por ele ou por outro vendedor. Segundo ele, eu deveria estar com "algum encosto espiritual", que não queria que eu progredisse. Na época não estávamos nem tomando passes, muito menos frequentando algum Centro Espírita, o que provavelmente nos fazia mais vulneráveis a influências espirituais negativas. 
     E foi nesse clima que transcorreu toda a gestação do nosso filho André, cujo nascimento se deu em 02 de fevereiro de 1975, no Hospital Maternidade Divina Providência, no bairro Glória, junto à famosa Gruta.
     Nas escolha do seu nome também tivemos uma pequena dúvida e a Neida sonhou novamente (isto antes do seu nascimento, é claro): que íamos juntos por um corredor como de um hospital e de repente deparamo-nos com alguns quadros fixados em uma parede. Num deles estava a foto de um menino, que chamou a atenção da Neida e ela mostrou-me, dizendo: "olha aqui, este é o menino do meu sonho". Sim, era um sonho em que ela recordava de outro sonho. Isto é normal acontecer com muita gente e com certa frequência até. E sob aquele quadro estava gravado um nome: André Luiz. A minha dúvida era quanto a dar ao meu filho um nome já tão conhecido, o mesmo de um dos grandes escritores espirituais da psicografia de Chico Xavier. Eu considerava isto a mesma coisa que dar a um filho um nome como de Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Paulo Sérgio, etc. (cantores da época). Mas, no final da conta, ele foi registrado como André Luís (com "s" no final, porque o cartório assim o determinou).
     E a história prossegue no próximo capítulo. Até já... ///


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

15. A VOLTA PARA PORTO ALEGRE

     Viajei para a capital num final de semana e fui conversar com o sr. "M". Expus-lhe a nossa situação e a intenção de voltarmos. Conversamos e ele prontificou-se a ajudar-me. Na segunda-feira, conforme combinado, fomos juntos até a loja J. H. Santos e ele apresentou-me ao gerente, seu amigo Rímolo, que recomendou-me que fosse até o setor de R.H., ali perto, para preencher uma ficha solicitando uma vaga de vendedor, que ele me colocaria imediatamente no setor de móveis e estofados, por ele gerenciado.
     Feito isto, regressei para Pelotas, cheio de boas expectativas. Na terça, iria pedir minha demissão Da empresa, quando encontrei minha chefe, a caminho. Adiantei-lhe sobre a minha intenção e ela disse que desde o dia anterior, no qual eu faltara ao serviço, eu já estava demitido. Isto foi bastante oportuno, a meu ver, e até fiquei-lhe grato pela informação.
     Recém chegados em Porto Alegre, ficamos por alguns dias hospedados no apartamento do casal "M" e "G", na avenida Getúlio Vargas, bairro Menino Deus, enquanto providenciávamos uma nova locação.
     Alugamos um apartamento num prédio de seis andares da avenida Desembargador André da Rocha, na região central. Era pequeno, de apenas um cômodo, cozinha e banheiro. Dividimos esse cômodo com o guarda-roupas, fazendo uma salinha e o quarto de dormir. Estava mais do que bom para nós três, agora que tínhamos a pequena Bia por companheira de nossas vidas.
     Em outro apartamento do mesmo prédio morava um colega de loja, da linha branca, o Jorge, cuja esposa Leda se deu muito bem com a Neida. Eles tinham um garotinho, mais ou menos da mesma idade da Bia, que estava agora com dois meses e alguns dias de vida.
     Na loja, as chances de ganho eram muito boas, mas a velha timidez era a inimiga formidável que me impedia de obter melhores resultados nas vendas. O Rímolo falava muito bem a meu respeito para o sr. "M",  mas também falava-lhe do quanto era difícil ouvir a minha voz, pois eu falava muito baixinho com os clientes e  por isto ele não podia avaliar melhor o meu desempenho, embora eu fechasse algumas vendas a contento. Mas era preciso que soltasse mais o som da garganta. Disse, certa vez, que me admirava pela educação e a solidariedade com os colegas, que eu sempre demonstrava, prometendo que me treinaria para uma futura sub-gerência.
     Essa perspectiva me animara e eu procurava melhorar o meu desempenho. Porém, pouco tempo se passara quando ele, Rímolo, foi transferido para uma loja do interior do estado. Infelizmente não poderia mais contar com aquela possibilidade.
     Depois disto, o novo gerente me chamou em particular e me perguntou se eu não gostaria de ir para a loja do Centro Comercial da Praça Piratini (lembram? aquela praça em frente ao Colégio Julio de Castilhos). Lá eu iria trabalhar com eletro, som-imagem e linha branca, além de móveis e estofados, o que me daria a oportunidade de faturar um pouco mais. E só havia uma concorrente perto, no mesmo pavimento daquele prédio comercial.
     Mas não era só isso. Por incrível que pareça, havíamos-nos mudado para o antigo apartamento da Alberto Torres, onde a Neida morara com a mãe. É que, quando ela voltou para Pelotas, transferiu o contrato para um barbeiro também pelotense, o sr. "T". Este, por sua vez, também de regresso, nessa ocasião, para a sua cidade natal, chamou-nos e perguntou se queríamos o apartamento que ele estaria entregando, e nós o quisemos, é claro, pois era maior e o preço não mudava muito em relação ao outro. Portanto, era vantagem mudar para a loja do Centro Comercial, pois ficava bem mais perto e eu podia ir e voltar a pé.
     As minhas comissões até que eram boas, mas me era descontado em folha o valor de um terço do salário mínimo a título de pensão alimentícia para o meu filho Alexandre. Nada mais justo; porém, do que me sobrava tinha que tirar o aluguel, água, luz e demais despesas da casa. A Neida chegou a voltar a trabalhar com o sr. Carlos e o Dr. Ary, mas era complicado, pois pagávamos uma jovem para ficar com a Bia e às vezes dava algum problema, que gerava uma falta dela ou minha ao trabalho. Outras vezes ela levava a menina para o escritório, o que era de todo inconveniente. Foi um período muito difícil, com alimentação precária, pois tínhamos que priorizar a nossa filha, em detrimento de nós mesmos.
     Não devo esquecer aqui de registrar que o sr. "M" e a tia "G" foram os padrinhos da Bia, batizando-a em um templo do segmento anglicano, que não exigia que fôssemos seus frequentadores.
     De vez em quando eram eles, assim como também a minha sogra, que nos presenteavam com um rancho (compra de supermercado), o que nos proporcionava um certo alívio, pelo menos momentâneo.
     Se a nossa situação estava um tanto ruim, ainda poderia piorar um pouco mais, como irei mostrar na próxima sequência. ///
   

14. MUDANÇA PARA PELOTAS

     A Neida já havia saído da Companhia Monarca e estava trabalhando no escritório compartilhado pelo sr. Carlos (corretor de seguros) e o Dr. Ary (advogado).
     Muito preocupada com a mãe, ao mesmo tempo que sentia falta do apoio materno na tão delicada situação, que era a sua primeira gravidez, começou a alimentar o desejo de nós irmos de muda para Pelotas. A casa da dona "D" não era grande, mas daria perfeitamente para acomodar-nos e ficaríamos livres do aluguel. Além do mais ela, Neida, poderia cuidar da mãe, que morava sozinha e passava às vezes por momentos de grande tristeza, o que era ruim e perigoso para a sua saúde e integridade emocional.
     Certamente, emprego não me faltaria, pois a minha sogra era manicure muito conceituada na cidade. Fazia somente unhas masculinas e tinha clientes empresários e políticos, entre outros, bastante influentes.
     O assunto ficou mais ou menos resolvido, dependendo somente do meu pedido de demissão ser aceito. Ao solicitá-lo, surpreendi-me com uma proposta de aumento de salário, autorizada pela matriz. Trocamos ideias a respeito e mantive o pedido, que me rendeu uma nova proposta, agora um tanto mais substancial, chegando à casa dos 50% sobre o que eu percebia mensalmente, havia mais de seis meses sem nenhuma alteração e tendo à vista apenas o próximo aumento pelo dissídio. A oferta era tentadora, mas arranjamos, daqui e dali, boas desculpas para não aceitá-la. Cheguei a fazer uma contra-proposta, honestamente, inviável, só para meu desencargo de consciência. A última proposta foi mantida, pois já era boa demais. Sabe quando a gente fecha os olhos e tapa os ouvidos, para não ver nem ouvir mais nada, e diz não a uma grande chance de melhorar financeiramente?
     Foi isto o que fiz, pensando unicamente no bem da minha companheira, que vivia um momento tão delicado e tão sofrido.
     Enquanto a mudança para Pelotas era feita, eu cumpria o aviso prévio e tomávamos as devidas providências para nos instalarmos na nova morada.
     Por recomendação de um vereador, apresentei-me e fui admitido no então Expresso Fonseca Júnior, atual Embaixador. Fui colocado no Departamento Pessoal (Recursos Humanos), como auxiliar, ganhando pouco acima de um salário mínimo vigente, o que representava uma terça parte do que estaria ganhando na Monarca, se houvesse aceitado a última proposta.
     Não tardou para que as coisas começassem a acontecer de modo diferente do que pensáramos. O relacionamento entre mãe e filha não ia lá muito bem. Minha sogra continuava inconformada com a situação da filha, que não era casada legalmente, o que lhe era motivo de incômodo e vergonha, perante a sociedade pelotense, configurada na sua clientela e amizades pessoais, ambas bastante seletas.
     Foi neste clima que a nossa Bia (Beatriz Helena) nasceu, na maternidade do Hospital Beneficência Portuguesa, aos 28 dias do mês de abril de 1973.
     Foram transcorridos cinco meses de intranquilidade, insatisfação e arrependimento, até a tomada de uma nova decisão: a de tentarmos uma volta para Porto Alegre. ///

13. PRIMEIROS ENFRENTAMENTOS, SABORES E DISSABORES

     Iniciávamos naquele final de agosto um namoro que duraria praticamente um ano, pois decidimos que iríamos morar juntos a partir do dia 02 de setembro de 1972. Abrimos uma caderneta de poupança em conjunto para nela depositarmos nossas economias com vistas às compras de móveis e utensílios, pois pretendíamos alugar um apartamento pequeno, de começo, como realmente o fizemos.
     Enquanto fazíamos nossos planos, traçando nossas primeiras metas para a união definitiva, enfrentávamos já alguns problemas de ordem familiar, que se interporiam como barreiras a serem transpostas com coragem e decisão, principalmente pela Neida, que era a parte mais frágil e, não obstante, a mais exigida.
     Ela se mudara para Porto Alegre, vinda de Pelotas, havia pouco mais de um ano, residindo com a mãe, manicure, sra. "D", e o primo e quase irmão, "A". Eles se criaram juntos e tinham mesmo uma amizade de irmãos. Estavam morando em um apartamento térreo do prédio de nº 104 da rua Alberto Torres, no bairro Cidade Baixa, próximo ao centro da Capital.
     A mãe, que já me conhecia como colega de sua filha, casado, não aprovou o nosso relacionamento (namoro). O primo, ao me ver, um dia, no apartamento, já como namorado da quase irmã, discutiu acaloradamente, mostrando-se totalmente contrário à nossa situação. Ela o enfrentou e acabaram rompendo a amizade e o companheirismo que nutriam mutuamente desde crianças. Vale dizer aqui que a aversão de "A" pela Neida permanece até aos dias de hoje, por incrível que pareça. Como se diz: "a barra pesou" e ele passou a ignorá-la, mal suportando a minha presença.
     "A" era filho da tia "G", anterior ao casamento dela com o sr. "M", com quem já tinha mais três filhos: "L", "I" e "M-Jr".
     Com eles fiz boa amizade. Levei a Neida para conhecer os meus familiares, pai, mãe e irmãos, e todos lhe deram as boas vindas. Levei-a também até a Vó Cota e ouvimos do guia comunicante, na presença de minha mãezinha: "-Humm! Estes dois, agora que se reencontraram, não se largam mais".
     O tempo foi passando, fomos preparando o nosso enxoval, nada de luxo, alugamos o apartamento na avenida Ipiranga, nº 1300, entre a rua Gen. Lima e Silva e a av. Azenha.
     No primeiro sábado de setembro, dia dois, nos encontramos e fomos até a casa dos meus pais, onde eu ainda morava até aquele dia, na rua Barão do Amazonas; e lá foi realizada, na presença dos meus familiares, uma singela cerimônia, em que a Vó Cota nos deu, em nome dos Guias Espirituais que a acompanhavam, a bênção da união sagrada, pois nos comprometíamos a cuidar um do outro pelos anos afora, completando no próximo mês, agora, 41 anos de muita dedicação, carinho, cuidados, tropeços, lutas e muito, muito amor.
     Naquele dia, ao despedir-se da mãe e entregar-lhe as chaves do seu apartamento, esta lhe disse apenas, em tom grave: "- Tu é quem escolheste assim. Não precisas mais me procurar".
     Foi muito dolorido, para a minha amada, que realizava um sonho seu a um preço tão alto imposto pela pessoa por quem ela tinha o maior apreço, e que lhe devia o maior apoio e consideração, já que não lhe havia dado um pai e nunca fora cobrada por isto.
     Em vista disso, o nosso "enfim sós" não foi dos mais alegres, embora nos sentíssemos felizes por estarmos finalmente juntos.
     A primeira gravidez já se fazia sentir pelos seus reflexos físicos, embora não transparecesse ainda, a não ser pelos vômitos frequentes.
      Logo, porém, as coisas iriam tomar um novo rumo, pois a sra. "D" decidira retornar para Pelotas, onde tinha um imóvel de sua propriedade, que deixara alugado, havendo já solicitado ao inquilino a sua desocupação, no que fora atendida prontamente.
     Imaginem só a situação da filha única, "casada" sem o aval da mãe e agora grávida, enfrentando mais esse revés, conhecendo a mãe que tinha, frequentemente depressiva, embora ainda não se usasse este termo.
     Na próxima publicação, vocês saberão o que aconteceu conosco em seguida, por conta disto. ///

domingo, 18 de agosto de 2013

12. SENTIMENTOS, ATITUDES, DECISÕES E MUDANÇAS

     Aquele ano de 1971 reservava-me grandes surpresas, decisões extremas e mudanças radicais, antes inimagináveis.
     Havia sempre no quadro funcional da Companhia de Seguros Monarca - sucursal de Porto Alegre - duas jovens funcionárias, obrigatoriamente solteiras, por determinação da Matriz.
     Em fevereiro, com a saída de uma funcionária, a Zilah, jovem espírita e muito minha amiga, era admitida uma moça pelotense chamada Neida, também conhecedora do Espiritismo. Não muito tempo depois, era a vez da colega Dorinha sair, para a entrada de outra pelotense, de nome Dalva. As duas já eram amigas e inclusive estudavam juntas, à noite, tentando concluir o segundo grau. Eram bastante extrovertidas, alegres, excelentes colegas.
     Afora o gerente, senhor Antônio Alexandre, cearense criado no Rio de Janeiro, com nítido sotaque carioca, eu era o único casado da turma do escritório.
     Todos conversávamos, brincávamos, trabalhávamos em conjunto e solidariamente, mantendo um ambiente harmonioso e de muito respeito, sob a supervisão geral do companheiro, solteirão e simpático, descendente de alemães, vindo da região de Montenegro, Egon Panke, que em verdade vigiava a conduta de todos.
     No início do mês de julho entrei em férias, com a recomendação dos meus superiores de que deveria ir pelo menos uma vez por semana, se possível mais, conferir, acompanhar, supervisionar os trabalhos da pequena equipe pela qual eu era responsável.
     às vezes a esposa me acompanhava, outras vezes não. E foi numa dessas idas sozinho, para ser mais preciso, na última delas, no início de minha última semana de férias, que a colega Neida, sabendo que eu era, assim como ela mesma, fã do cantor Roberto Carlos, perguntou-me se já havia escutado seu último lançamento, através do disco (LP) "As 14 Mais", editado anualmente com diversos intérpretes da Jovem Guarda. Respondi-lhe que não. Ela, então, mostrou-me a letra da música, que já estava fazendo um tremendo sucesso, com o título "Amada Amante", de autoria da dupla Roberto e Erasmo. Achei o tema e os versos bastante fortes; diria um tanto picantes, pelo menos para a época.
     Quando eu já estava de saída, ela perguntou-me se eu queria uma cópia da letra, pois ela tinha mais de uma, e eu, para não ser indelicado, aceitei, com a intenção de jogá-la fora, assim que ganhasse a rua, a fim de evitar qualquer problema em casa, por má interpretação. Não obstante, esqueci-me completamente do papel que havia posto no bolso do paletó. Chegando em casa troquei de roupa e fui para os fundos do pátio, onde estava cavando uma fossa para a nova localização da "casinha", que até esse tempo ainda era "lá fora", como a gente dizia ao referir-se ao que hoje chamamos "WC", "toilete", ou, simplesmente, banheiro.
     Bem, dá para qualquer leitor adivinhar o que aconteceu na sequência. Encontrado o papelucho no bolso do casaco, sem nenhuma prévia explicação sobre o de que se tratava, só poderia ser entendido como uma declaração de amor de uma de minhas colegas, mais provavelmente daquela que não possuía em seu dedo nenhuma aliança de compromisso, a saber, a senhorita Neida, pois a Dalva era noiva.
     O clima familiar, que já não era dos mais agradáveis, ficou mais tenso, permanecendo instável até o final das minhas férias, que acabariam no próximo domingo.
     Algo muito grave estava por acontecer, ou já estava acontecendo em meu íntimo. Do nada, sem nenhum aviso e sem nenhum motivo aparente, a não ser uma possível influência de algumas insinuações, até então totalmente infundadas, que já me acostumara a ouvir de minha companheira, sem lhes dar maior importância, percebi que estava sentindo saudades daquele rosto meigo, daquele sorriso aberto, daquela alegria vigorosa, antes vistos tão naturalmente. Comecei a notar que a figura da colega de trabalho agora não me saía da mente, mesmo que tentasse afastá-la dos meus pensamentos.
     Na segunda-feira retornei ao escritório, decidido a não fraquejar ante o conflito íntimo gerado pela descoberta daquele novo sentimento que via brotando espontaneamente em minha alma.
     Adentrei a sala com um semblante intencionalmente sério, taciturno, procurando evitar qualquer aproximação e até mesmo um olhar, que não fossem absolutamente necessários por força de alguma tarefa ligada ao seu setor.
     Soube depois, pela Dalva, que aquela semana também fora atípica para ela, Neida, em relação aos sentimentos que também lhe assaltaram nos últimos dias de minha ausência naquele ambiente.
     Em uma das oportunidades em que a nossa aproximação física se fez necessária, ela perguntou-me, baixinho, se eu havia sentido saudades. Respondi-lhe, em tom grave e seco, que não. Notei o desconforto emocional que lhe causou minha resposta e, lamentando o fato, afastei-me imediatamente. O coração pulsava descompassado e aflito.
     Não sei por quanto tempo, se por algumas horas, por um dia, um dia e meio ou dois, mantivemos entre nós um silêncio tétrico e angustiante, mal dirigindo a palavra um ao outro quando estritamente necessário se fazia, ainda por causa de algum documento ou informação.
     Em meio a tal situação, já completamente insustentável, ela tomou a atitude de escrever-me um bilhete, contando-me o que realmente estava sentindo, dizendo-me saber tratar-se de algo impossível, dada a minha condição de homem casado e pai de um garotinho de apenas cinco meses de idade, que não poderia jamais ser prejudicado. Ao concluir o bilhete, disse que nada esperava de mim, senão a minha compreensão e que só não podia mais suportar aquele clima de indiferença forçada, cujo motivo tentava adivinhar sem encontrá-lo, pois achava que nada havia feito para magoar-me ao ponto de a tratar daquela forma.
     Quando acabei de ler suas palavras, com o coração quase a sair pela boca, estupefato, sentindo ainda mais forte aquele amor puro e sem mácula que me visitava o peito, sem o meu consentimento, olhei para a Dalva, que parecia aguardar ansiosamente a minha reação, e disse: "-É, minha amiga! Acho que estou num mato sem cachorro"...
     Ela caiu na risada.
     Querem saber? Não lembro muito exato como e quando dei a resposta à autora do bilhete revelador.
     O que sei é que em casa, definitivamente, "a maionese já estava desandando" e não demorou quase nada para que a separação se fizesse inevitável e acontecesse de fato.
     Infelizmente, tive que abrir mão de meu filho, tão pequenino ainda, deixando-o sob a guarda materna, consoante as prescrições da Lei e do bom senso.
     Vem-me à lembrança o quadro de sofrimento imposto igualmente à minha saudosa mãezinha por conta da separação do neto querido, que ela havia ajudado a cuidar até então, e a quem muito se apegara.
     Decisões tomadas, mudanças à vista. Era uma nova vida que começava para mim. E aqui estou, quarenta e dois anos depois, contando esta história, que não acaba por aqui; antes, está apenas começando. ///

11. JUNTANDO OS PEDAÇOS

     Voltando um pouco a fita do filme da minha vida, do qual também fazem parte meus irmãos, lembro-me de quando o Pedro construiu uma casa na parte de cima do terreno, que dava frente para a rua Guilherme Alves. A casa era de madeira e foi erguida à base do mutirão. Nessa época eu era adolescente, mas não lembro com que idade estava.
     Prontifiquei-me também a ajudar na obra. Em dado momento, quando pregava uma ripa ou tábua, a uma certa altura da parede, minha mãe surgiu e pareceu-me ficar um tanto aflita com a minha exposição ao perigo de cair daquela altura. Batendo o martelo, errei umas duas ou três vezes a cabeça do prego, e, percebendo isto, minha mãe falou: - "Desce daí, guri; tu não dás pra este tipo de serviço; o teu negócio é estudar pra ser um doutor, médico, advogado ou coisa parecida". Aquilo foi como uma martelada na minha cabeça. Fiquei desconsertado, mas insisti, errando mais algumas batidas de martelo, até fincar o prego na madeira. Desci em seguida e não mais me meti nesse tipo de atividade, dando sempre alguma desculpa e guardando comigo a observação negativa do comentário materno.
     Achei conveniente registrar este fato, não porque ainda esteja magoado com minha saudosa mãezinha, de jeito nenhum, porque um pai e uma mãe nunca haverão de querer causar qualquer dano, inclusive psicológico, ao seu filho ou filha, embora, sem o querer, às vezes o façam. Mas é que, ao recordar esse episódio, que me marcou e me tolheu a iniciativa de execução de tarefas que envolvam madeiras, tijolos, argamassa, enfim, construção ou reforma de um imóvel ou qualquer de suas partes integrantes, lembro-me que também preciso me penitenciar de uma palavra dita à minha filha Sílvia, que lhe causou igualmente profundo sentimento, que há não muito tempo atrás ela expôs, em uma mensagem que deixou escrita nas páginas de um caderno, numa de suas vindas a Curitiba, para que lêssemos depois de sua partida de regresso a Pelotas.
      Em uma reunião familiar, quando ela tinha lá seus 7, 8 anos, não tenho a lembrança exata, lemos uma historinha que falava de um jacarezinho egoísta, que não dividia a água do seu lago com os outros animais. Num outro momento, por uma dessas atitudes normais de criança, quando há uma disputa por algo, um brinquedo ou um lugar à mesa, também não recordo o que era, querendo apenas educá-la, chamei-a de "jacarezinho egoísta". Esse rótulo, sem que eu jamais o suspeitasse, ficou gravado em sua mente infantil e a incomodou até a idade adulta, machucando esta alma tão querida, de que tenho muito orgulho e muita gratidão de ser pai. Filha amada, muito longe estás de ser um "jacarezinho egoísta". Ao contrário, devemos-te muito pelo teu altruísmo e por tudo o que já fizeste e ainda fazes por todos nós, teus pais e irmãos.
     Isto é para a gente ver quantas vezes a harmonia e a naturalidade da vida se quebram em nossas mãos, sendo necessários muito tempo e esforço para irmos juntando os pedaços e recompondo a caminhada.
     Voltando um pouco mais ao passado, já o meu irmão João, ao contrário de mim, deu-se sempre muito bem com todos os tipos de ferramentas de carpintaria, de pedreiro, etc. Tanto, que, com a ajuda de alguns amigos e de um profissional da área, meteu a mão e construiu, no meio do mesmo terreno, um chalé. Casou-se e foi morar na sua casa própria, fazendo, de tempos em tempos, a devida manutenção e até algumas melhorias.
     Se bem me recordo, pela ocasião do meu casamento o Pedrinho já havia desconstruído a casa da Guilherme Alves e levado o material todo para Viamão, onde comprara um lote, reconstruindo-a naquele local. Lá terminou de criar seus lindos filhos, meus quatro sobrinhos queridos: Eliéser, Eliete (já vovó), Elísio e Elisete. Todos eles possuem hoje suas próprias famílias, muito abençoadas.
     Eu, ganhando então um pouco mais do que o salário mínimo, como já mencionei antes, fui morar com a jovem esposa em um cômodo apenas da casa paterna.
     Em março de 1971 nasceu meu primeiro filho, o Alexandre.
     No meu serviço tudo ia bem; eu até já estava ocupando o posto de chefe do Deptº.de Emissão, após a saída do Luiz, que foi, a convite do antigo colega Adalberto, trabalhar também na seguradora do Banco Real.
     No lar, entretanto, a desarmonia conjugal era uma constante. Imaturidade de uma parte, inabilidade de outra, e os conflitos se sucediam, desgastando a cada dia o relacionamento. ///

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

10. SUSTO NO PRIMEIRO EMPREGO

     Iniciei o ano tirando um  curso rápido de datilografia, que, para fazer justiça, devo dizer que foi patrocinado pela namorada, que trabalhava como doméstica em uma casa de família na avenida Bento Gonçalves, próximo à Companhia Geral de Indústrias.
     Soube, por intermédio do mano João, que o nosso primo Alceu era gerente em uma companhia de seguros e fui procurá-lo. Fui muito bem recebido por ele, que disse não haver nenhuma vaga naquela empresa no momento, mas entregou-me uma carta de apresentação para que eu fosse a uma outra seguradora, onde havia uma vaga para contratação imediata.
     Atendido pelo chefe geral do escritório, senhor Egon Panke, fui conduzido a uma sala, onde preenchi uma ficha de pedido de emprego. Outro funcionário, o Adalberto, chefe do departamento de emissão de apólices, veio em seguida e solicitou que eu fizesse um teste de datilografia, adiantando-me que não seria exigida rapidez, mas o mínimo possível de erros de ortografia, marginação, etc. Com muita calma e atenção, caprichei no teste e fui aprovado.
     Admitido em 03 de março de 1969 na Companhia de Seguros Monarca, ex-Pearl Assurance Company Limited (Companhia inglesa, com capital recentemente nacionalizado), faria preferencialmente os serviços externos, treinando, quando não houvesse demanda, as funções internas, datilografando documentos como memorandos, endossos e anexos com as condições gerais das apólices de seguro contra incêndio.
     Mal chegara ao segundo mês de trabalho e vejam só o que me aconteceu: Fui ao banco descontar os cheques de alguns funcionários, referentes ao adiantamento quinzenal de salário, incluindo o meu próprio adiantamento, conforme já o fizera anteriormente e de acordo com as recomendações recebidas. Teria apenas que dar uma passada em uma casa de carimbos para pegar um carimbo que havia sido mandado confeccionar. Feito isto, retornando para o escritório, fui abordado por um cidadão, aparentemente muito simples, dizendo-se chegado do interior, ostentando em seu poder um bilhete da loteria federal supostamente premiado e falando-me que não sabia como fazer para recebê-lo. Temendo por ele, já que parecia tão inocente em meio ao movimento de todo tipo de pessoas da cidade grande, tentei ajudá-lo de alguma forma, mesmo não sabendo ainda o que deveria fazer. Dizia-lhe que tomasse cuidado, que não mostrasse aquele bilhete para qualquer um, quando outro cidadão, aparentando boa formação profissional e muito educado, como se tivesse ouvido parte do diálogo, aproximou-se e prontificou-se a ajudá-lo, pedindo que eu fosse junto com ambos até a agência central da Caixa, para que não pairasse dúvidas sobre a sua boa intenção e desinteresse. Fui envolvido de tal maneira, que, mesmo alegando que tinha que voltar de pressa à empresa, que ficava a meia quadra da esquina onde estávamos, acabei concordando. O segundo homem, então, me disse que eu também corria risco de ser assaltado, com aquele volume de dinheiro aparecendo no bolso da calça, e deu-me uma pequena pasta fechada com zíper, para colocar nela as cédulas. Meio inseguro e confuso, coloquei o dinheiro na pastinha e segurei-a firme, preocupado. Ele, numa ação rápida e inesperada, tomou-a de minhas mãos e colocou-a dentro de uma pasta grande, modelo executivo. Protestei, visivelmente receoso, ao que, fingindo entender a minha preocupação, devolveu-ma dizendo: - "Então o amigo vai até a sua empresa levar esse dinheiro, que nós lhe esperamos aqui, para irmos juntos até a Caixa". O horário permitiria isto, pois já era quase onze e meia, término do expediente matinal. Muito perturbado, dei alguns passos e resolvi conferir o conteúdo da pasta. Surpreso, verifiquei que o zíper estava amarrado com um cadarço de sapato, o qual desatei depressa e nervosamente. Olhei para trás e já não havia nem sombra dos dois homens com quem acabara de falar. Abri-a e constatei que havia apenas um bolo de notas antigas de um cruzeiro, já fora de circulação, sem valor nenhum.
     Cheguei ao escritório, pálido, branco como um boneco de cera. Fui direto à sala do gerente, senhor Antônio Alexandre. Contei-lhe o ocorrido e ele, sem qualquer reação emocional, instruiu-me para que fosse a uma delegacia de polícia registrar a ocorrência, concedendo-me o prazo até o dia seguinte para que reembolsasse os meus colegas.
     Saí dali desesperado. Fui até a DP central acompanhado de minha mãe e da Vó Cota, na primeira hora da tarde. As duas foram minhas avalistas, evitando que eu ficasse detido, por conta da desconfiança dos policiais de que eu era quem estivesse tentando dar o golpe em meus colegas de trabalho.
     Meu pai, por sua vez, mobilizou-se, indo até a agência bancária onde recebia seus proventos. Ele sempre retirava os valores redondos dos contra-cheques, deixando os quebrados para formar o que ele chamava de um fundo de emergência. Foi isto exatamente o que me salvou naquela situação emergencial, permitindo-me reembolsar os colegas. Um fato interessante foi que não restou na conta mais nada de saldo, depois de sacado o valor estritamente necessário.
     Diante de tais providências, continuei no emprego e, poucos meses depois, com a saída do Adalberto, o Luiz assumiu o lugar de chefe do departamento, passando-me para os serviços exclusivamente internos, e admitindo outro rapaz para as funções externas.
     Em dezembro daquele mesmo ano casei-me e passei a morar em um cômodo reservado na casa de meus pais. O mano João, muito habilidoso, abriu uma porta lateral, para que esse cômodo ficasse com entrada independente.
     E a vida foi seguindo em frente, oferecendo-me novas experiências, que contarei na sequência. ///

domingo, 4 de agosto de 2013

09. DOIS CAMINHOS E UMA ESCOLHA

     Já era um pouco tarde da noite, creio que uma dez horas ou mais; voltávamos do parquinho de diversões instalado no pátio contíguo à Igreja São Jorge, na Bento esquina Aparício, eu e o meu inseparável amigo Wilton (Leia-se Vilton, ok?). Ao passarmos por duas meninas que vinham na direção oposta, brinquei: -"O que é que duas garotas fazem na rua uma hora dessas?". Uma delas respondeu algo que não entendemos e o Wilton perguntou: -"O que foi que você disse?". Houve uma nova resposta, mas agora elas já iam a uma distância um pouco maior e não conseguimos registrar suas palavras novamente. Então o Wilton me falou: -"Vamos atrás delas, Ivo?" (Ele sempre me chamava de Ivo). -"Ué! Vamos", falei.
     Apressamos os passos para alcançá-las. Quando já estávamos nos aproximando das duas, elas trocaram de lado entre si, como num jogo de sorte (ou de azar).
     Abordei então a que ficara do lado que eu estava e o meu amigo a outra. Elas pararam. A minha pergunta foi a mesma de antes: -"O que é que duas meninas estão fazendo na rua a uma hora dessas?". E ela me respondeu: -"Nós estamos vindo de um encontro de jovens da Primeira Igreja Batista do bairro..."; não lembro a que bairro ela se referiu. O certo é que eu gostei de saber que estava tratando com duas gurias direitas, já que vinham de um evento religioso. Ela disse ainda que morava logo na próxima rua (uma travessa entre a rua em que estávamos uma de suas paralelas).
     Lembro-me vagamente de que a outra garota era da outra igreja, ou seja de outro bairro, e havia vindo passar aquela noite na casa da amiga. Não deu nada entre ela e o Wilton.
     Chegamos à esquina da travessa onde morava a senhorita Eva Beatriz, com quem eu conversava, e, depois de alguns minutos dialogando, combinamos de nos encontrarmos no dia seguinte, à noitinha, de preferência na outra esquina, que era mais perto de sua casa.
     Fui sozinho ao encontro e já fui logo falando em namoro. Fiz questão de dizer que se tratava de coisa séria, que até gostaria já de falar com seus pais. Ela me falou do pai, que era meio nervoso, meio ríspido com os futuros genros, pois já conhecia bem "a fera", uma vez que tinha duas irmãs casadas. Nisto, depois de uma meia hora de conversa, veio ao nosso encontro a senhora mãe dela, desconfiada. Perguntou à filha o que significava aquilo e a resposta foi de que eu estava querendo pedi-la em namoro. A senhora, com ares de certa severidade, quis saber quais eram as minhas intenções. Satisfeita com a minha resposta, falou-me também do marido; disse que era brabo e que ela teria que "fazer o nosso lado", com certa cautela. Conversamos mais um pouco e combinamos que eu as acompanharia ao culto de domingo na Igreja Batista, que ficava a poucas quadras dali.
     Assim começamos o namoro, eu com 19 anos e ela com 17. Eu me sentia o tal. Para quem era tão tímido, saíra-me bem demais.
     Acredito em Destino, mas não em Fatalidade. Como costuma dizer a Neida, minha esposa há 41 anos: "A vida sempre nos aponta dois caminhos e nós temos que escolher um dos dois".
     Para o leitor que não sabe ainda o desfecho desta história, este é um nó que vou desatar talvez já no próximo texto, ou no outro seguinte; ainda não sei, pois ainda não os escrevi.
     Prosseguindo: Eram fins de 1968. Eu havia concluído o primeiro ano do científico e passara por média em quase todas as matérias. Tivera de fazer apenas dois exames finais, precisando de meio ponto em uma e um ponto e meio noutra. Não obstante, o fato novo era que eu havia iniciado aquele namoro pra valer, o que me levou a tomar uma decisão: interromper o ciclo estudantil. Agora eu teria de arrumar um emprego, trabalhar para sustentar o futuro lar. Além do mais, não havia nenhuma perspectiva de eu chegar a uma faculdade, por falta de recursos financeiros, e, pensava assim, eu não iria aguentar o tranco que a maioria dos meus colegas do noturno enfrentava, tendo por objetivo apenas a conclusão do científico, do qual ainda faltavam dois anos. Não imaginei que um dia o agora chamado "2º. grau completo" teria um peso tão grande. Na época, quem tinha o ginásio completo já estava feito, em termos de mercado de emprego.
     Dois anos... Vocês se deram conta? Aqueles dois anos que joguei fora lá no início do ginasial eram os dois anos que me faltavam para terminar o científico. Se eu não os houvera desperdiçado, estaria naquele momento com o científico concluído, e a história que estaria contando seria bem outra.
     Era, portanto, uma escolha do passado repercutindo no presente e que iria repercutir ainda mais no futuro, uma vez somada com a nova escolha que acabara de fazer. Depois, certamente, viriam, como de fato vieram, outras tantas escolhas, que foram mudando os meus rumos. E assim acontece com todas as pessoas neste mundo. Esta é uma lição que só agora estou racionalizando. Muitas vezes culpei ao Destino, pelas opções que me ofereceu, quando deveria era ter-me culpado pelas escolhas que fiz. "Há sempre dois caminhos e uma escolha". E essa escolha, ou melhor, essas escolhas é que realmente irão compor a nossa história. ///

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

08. UM JOVEM EM RITMO DE AVENTURA

     O mano Pedrinho (Jesus Pedro), o único que serviu ao Exército Brasileiro, mas que, por insistência da mãe, desistiu de seguir a carreira militar, trabalhava agora na empresa Irmandade do Arcanjo São Miguel e Almas, administradora do primeiro e maior cemitério com galerias, chegando a até 5 andares e com elevador, de Porto Alegre. Nessa empresa trabalhavam, já antes do meu irmão, um tio de minha mãe (funcionário desde a fundação do cemitério), Israel Torres; meu avô emprestado e padrinho de batismo, padrasto de minha mãe, Vitório Semensato; meus tios Oswaldo, Valter e Cláudio (irmãos da mãe); o tio Alceu, marido da tia Lídia (também irmã da mãe), e dois primos, se a memória não me falha.
     Havia um serviço particular que alguns clientes contratavam junto aos funcionários e que podia ser feito por eles em suas horas de folga, ou terceirizado. Era a limpeza e conservação dos jazigos familiares, incluindo o polimento das letras e números em bronze ou metal cromado. Por esse tempo o mano Pedro propunha-me a execução desse serviço, remunerando-me conforme os valores cobrados aos clientes, para o que eu reservava duas manhãs ou tardes por semana. Era o meu primeiro dinheirinho no bolso, geralmente usado para a compra de discos, o que mais me empolgava nessa época.
     Um fato digno de anotação: Um certo dia, indo para o cemitério, havendo embarcado em um micro-ônibus da linha Caldre e Fião, ocorreu que, depois de uma três paradas, em uma descida não muito acentuada, porém longa, o veículo perdeu o freio. Eu estava em pé junto ao primeiro banco, próximo à porta, que havia sido aberta quando se aproximara de um ponto de embarque. Ao perceber as manobras do motorista para conter o veículo, que já desenvolvia uma certa velocidade, um senhor, que estava bem ao meu lado, fez menção de saltar para fora, descendo o primeiro degrau, desesperado. Eu o segurei firme pelo braço, não permitindo que fizesse aquela loucura, pois  com certeza se machucaria. O motorista percebeu isto e acionou o fechamento da porta, pedindo calma aos passageiros. O pior é que lá no final da rua, só havia uma outra rua transversal, a rua Professor Oscar Pereira. O coletivo deveria dobrar à direita, mas na velocidade em que estava, se fizesse a curva fechada, tombaria. Além disso, se estivesse passando algum veículo naquele momento a colisão seria inevitável. O que fiz eu? Orei. Pedi proteção para todos nós, passageiros e para aquele motorista, que tudo estava fazendo para minimizar uma possível fatalidade. Quase abalroou uma carroça que havia ingressado na rua por onde descíamos. Ao chegar o momento de dobrar para a rua Oscar Pereira, ele abriu bem para a esquerda e, graças a Deus, não havia nenhum veículo em trânsito, em nenhuma direção, quando então, na contra-mão e já em um aclive que havia nessa via, ele conseguiu estancar o coletivo, segurando-o no freio de mão. Saímos todos ilesos. Foi um susto e tanto, mas eu mantive a calma o tempo inteiro, orando e confiando na Providência Divina. E eu era apenas um adolescente, só para lembrar.
     Depois, meu irmão foi promovido para outro setor, indo trabalhar no escritório central da empresa, no centro da cidade. Ali ele também me arrumou um "bico", que consistia em tramitar com a papelada exigida para transladações de corpos ou ossadas para outras cidades do estado e até para outros estados do país, pelos órgãos competentes, efetuando pagamentos de taxas em cartórios, encaminhando pedidos de deferimento, etc. Esta nova atividade também foi muito gratificante, pois me rendeu boas experiências e certa desenvoltura.
     Durante o período em que "trabalhei" no cemitério, o que mais adorava, enquanto executava a tarefa, era ficar ouvindo a música clássica que sonorizava o ambiente através de algumas dezenas de pequenas caixas de som espalhadas por todos os corredores e andares daquelas galerias. Eram melodias suaves da coleção "Música à Luz da Oração", da Orquestra de Câmera RGE, sob a regência do Maestro Simonetti, da qual tenho em meu poder os volumes 1, 2 e 5, em vinil. De vez em quando os escuto. Tenho algumas dessas músicas e outras do gênero em CD-MP3, que ouço no carro, principalmente enquanto me desloco para os trabalhos espirituais no Centro Espírita, pois considero esse tipo de música, assim como os hinos evangélicos instrumentais, dos quais também possuo um CD e 2 LPs, como uma forma de criar um ambiente propício à elevação do espírito.
     Enquanto isso, voltando ao passado, a Jovem Guarda corria solta, com a aparição de novos cantores, cantoras, conjuntos vocais e instrumentais, ao lado da nova Bossa Nova e dos grandes sucessos românticos italianos, franceses e os, sem dúvida indispensáveis, "hits" americanos ou de outras nacionalidades, mas no idioma mais difuso do planeta, donde se originavam inúmeras versões.
     Eu até já estava gostando, mas sem supervalorizar ninguém daquelas tribos, nem mesmo os ídolos máximos da juventude de então, Roberto Carlos e Beatles, que ponteavam todas as paradas de sucesso de todas as emissoras de rádio.
     Um dia o amigo Wilton chegou, eufórico, convidando-me para assistirmos a um show do Roberto Carlos e outros cantores, que iria acontecer dali a uns dois dias no Ginásio de Esportes da Brigada Militar. O ingresso era apenas um brinquedo de qualquer valor, que seria arrecadado e destinado à campanha do natal das crianças pobres.
     Meio de nariz torcido, aceitei o convite. Fomos logo a uma loja de "1,99"... Epa!... He, he, he... Isto nem existia naquela época. Compramos os brinquedos e lá estávamos nós, no dia do show, enfrentando uma fila que já fazia a segunda volta em torno do pavilhão. Eu continuava torcendo o nariz, achando que não valeria muito à pena, mas aguentando o sol quente na cabeça para não perder o amigo, que até então já me fizera pegar certo gosto pela música dos Beatles, que antes para mim era indiferente.
     Depois de algumas longas horas de espera, começou o espetáculo com a apresentação da cantora Vanusa e do cantor Eduardo Araújo. Não me lembro bem, mas parece que teve mais algum, antes da entrada do tão esperado rei da Jovem Guarda. Eu estava apenas curioso. Afinal, ver um artista da televisão e de tanto sucesso ao vivo, não era nada comum.
     De repente, um grupo de jovens instrumentistas ocupou o palco, e, depois de alguns preparativos e ajustes nos instrumentos, entoou seus primeiros acordes (era o já famoso RC-7), com uma vibração tão envolvente, que, em meio à gritaria geral, correu-me pelo rosto, próximo às orelhas, no sentido do pescoço para os cabelos, uns arrepios incontroláveis. Uma indizível emoção me assaltara, inexplicavelmente.
     Os acordes eram nada menos do que a introdução, um pouco mais demorada, como a fazer suspense, da música "Eu sou terrível", faixa 1 do lado 1 do novo LP: "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura", lançado juntamente com o filme de mesmo título naquele ano de 1967.
     Peguei vocês, com o título deste texto, hein? Garanto que ainda não haviam entendido a ligação desse título com a minha personalidade, é ou não é? Mas, ah! meus amigos: "Quando" ele entrou naquele palco, entrou também na minha vida. "E por isso estou aqui". Desde aquele momento tornei-me fã incondicional desse cara. É mesmo! Se tem um cara que é fã incondicional do Roberto Carlos, de ontem e de hoje, "esse cara sou eu". Tenho quase a coleção de vinil completa, umas 20 fitas cassete gravadas com seleções feitas por mim mesmo, alguns CDs originais, 4 CDs-MP3 e um pendrive com mais de 300 músicas.
     Tá bom, ou querem mais? ///

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

07. UMA NOVA ETAPA: A ADOLESCÊNCIA

     Na nova etapa estudantil, tudo mudou. Aprendi a gostar de português, que era uma das minhas dificuldades anteriores. A professora chamava-se Mariazinha. Pequenina no porte físico, mas muito inteligente e hábil para ensinar e empolgar os alunos em relação à complicada, porém riquíssima matéria, que tem tudo a ver com o meu gosto atual por escrever. Ah! se não tivesse feito aquelas bobagens, quem sabe eu pudesse ser hoje um jornalista, quem sabe fosse um filósofo, um psicólogo, um escritor famoso? Mas, deixa pra lá.
     Lembro-me também do professor Marques, de matemática, com quem só não aprendia quem não quisesse mesmo. Ele era um gênio, talentoso no fazer a gente raciocinar diante dos números e das operações mais intrincadas. Acompanhou-me, assim como a "profe" Mariazinha, da primeira à quarta séries do ginásio.
     Nas demais disciplinas era só uma questão de esforço pessoal e de tempo, que para mim havia de sobra, graças aos meus pais queridos, que tudo faziam para que eu não precisasse trabalhar enquanto me dedicasse aos estudos. A maioria dos meus colegas era formada por jovens que haviam retornado aos estudos depois de uma parada estratégica, e adultos, pais e mães de família, que trabalhavam e sacrificavam o próprio descanso, o conforto do lar e o convívio com os filhos, indo, heroicamente, direto do serviço para a sala de aula. Eu os admirava e me dava muitos melhor conversando com pessoas assim, mais maduras e sofridas, do que com a gurizada da minha idade. Colhia muitas experiências.
     Depois de algum tempo, substitui o bonde pelo ônibus, do qual apeava a uma distância bem menor de casa. Chegava em casa quase meia-noite e encontrava sempre a minha mãezinha debruçada no muro, à minha espera, muitas vezes no sereno. Eu lhe dizia da não necessidade disso, mas ela alegava que não conseguia ficar dentro de casa, pois tinha o coração apertado, aflito e ficava orando em silêncio para que nada de mal me acontecesse. Só ficava aliviada ao ver-me aproximando. E isto foi assim durante todos aqueles anos. Só para deixar bem claro, naquela época não existia telefone celular; o telefone convencional era só para famílias abastadas, e nem sequer havia o tal de "orelhão" nas esquinas da cidade. Comunicação, só pessoalmente, mesmo.
     Durante essa fase, o meu irmão João já estava trabalhando em um restaurante, no 12º. andar de um prédio comercial no centro da cidade; e o mano Valter, que não quisera seguir além do 3º. ano primário, também, trabalhava num depósito de bananas, de propriedade de um vizinho nosso, à rua Guilherme Alves. O Valter começou, aos onze anos, como ajudante de distribuição e na classificação do produto. Aos dezoito, liberado do serviço militar, tirou carteira de motorista e passou a vendedor-distribuidor. Mais tarde, tornou-se empresário do ramo e continua nessa atividade até hoje, por sinal muito bem sucedido.
     Na faixa entre os meus quinze e dezenove anos, também dispensado do serviço militar, por excesso de contingente, a música exerceu um papel muito importante na minha vida. Gostava de ouvir música antiga, desde valsa, tango, bolero, samba, samba-canção, marcha-rancho, marchas e dobrados militares, até tudo o que havia de música romântica. Já tínhamos um aparelho de som (eletrola/vitrola), no qual eu fazia minhas seleções musicais variadas, como se estivesse numa rádio. Sonhava ser radialista, apresentador de programa. Não dava muita bola para o movimento da Jovem Guarda, pois achava aquilo tudo meio maluco, letrinhas sem graça, ritmos indefinidos, vozes pequenas. Preferia a Velha Guarda, mesmo.
     O mano João havia aprendido com um colega seu, a quem chamava de "Mano", a tocar violão. Descobrimos que um primo nosso, o Alceu, filho da tia Mercedes, irmã do nosso pai, agora residente em Gravataí, também tocava violão e fazia uma dupla com um seu irmão de criação, apresentando-se em festas e eventos, tocando e cantando boleros mexicanos, em espanhol. Por influência dessa dupla, o João e eu passamos a colecionar letras de boleros e a cantá-las, também em espanhol. Interpretávamos os maiores sucessos do Trio Los Panchos, Trio Cristal, Los Viñales, entre outros. Eu fazia a segunda voz e até compramos um par de maracas, com que eu ritmava, enquanto o João dedilhava as cordas do instrumento simples, mas majestoso, que ele mesmo havia comprado.
     Depois, começaram a aparecer alguns amigos que também mandavam bem na viola. Um deles gostava somente de sambas e outro era fissurado nos sambas-canções do Nelson Gonçalves. Eu me empolguei e comecei a cantar também alguns sambas mais conhecidos e adorei interpretar o Nelsão, dividindo o espaço com esses amigos, que me incentivavam e até elogiavam a minha voz e afinação.
     De repente, não sei exatamente quando, apareceu um novo amigo, também trazido pelo João, e que também tocava violão, o Wilton. Era um neguinho da vila metido a play boy, no bom sentido. Tinha lá uns amigos ricos, guitarristas, tocadores de rock. O Wilton era  um beatlemaníaco de primeira. Ele só gostava de tocar e cantar músicas da ocasião, ou seja, da jovem guarda, mais precisamente dos grupos atuantes, como Renato e Seus Blue Caps, Golden Boys, Os Vips,  Fevers e outros, além, é claro, dos Rolling Stones e The Beatles. E já passei a fazer dupla com ele, nos "saraus" do fundo do quintal, fazendo igualmente a segunda voz. Mandávamos, por exemplo, do repertório de Renato e Seus Blue Caps: "Eu sei", "Até o fim",
"Gosto de você", "A primeira lágrima" e "A irmã do meu melhor amigo". Sucesso absoluto. Nossas fãs, as minhas manas Eloá e Iná, também a amiga e vizinha Najara, elogiavam o nosso vocal e apreciavam os nossos shows gratuitos, em que soltávamos a voz, sem nenhuma reserva.
     Foi muito lindo esse tempo. Que saudades! Se pudesse apertar um botão e voltar ao passado, quanta coisa boa teria para rever e, se possível fosse, reviver.
     Mas tem mais coisas para relembrar dessa mesma época. Aguardem o próximo capítulo da minha história, do que eu lembro da vida. ///

terça-feira, 30 de julho de 2013

06. BOBEIRAS DE UM ADOLESCENTE

     Com onze anos concluí o curso primário (fundamental), passei no "exame de admissão" ao ginásio (ensino médio) e fui matriculado no afamadíssimo Colégio Estadual Júlio de Castilhos, popularmente conhecido por Julinho. Com isso, passei a viajar de bonde para lá e para cá, ou seja, naquele veículo elétrico importado que rodava sobre trilhos e tinha, na época, quatro portas, todas abertas. Cansei de me dependurar numa das portas de trás, segurando-me no pega-mão e, depois de uma corridinha, saltando com os pés no estribo. Uma manobra perigosa, mas muito legal para o meu senso de guri. Tomava a condução na avenida Bento Gonçalves, quase esquina com a rua Barão do Amazonas e descia na avenida da Azenha, quase no seu encontro com a João Pessoa, em frente à praça Piratini, onde fica, ainda, o referido estabelecimento educacional. Uma vez, na volta do colégio, uma parada antes daquela em que eu desembarcaria, o bonde arrancou, eu corri e pulei, como sempre fazia, mas errei o pé e fiquei pendurado, agarrado ao pega-mão, até que não aguentei a ação da gravidade e me larguei, rolando para o meio dos trilhos. Como estava na parte traseira do veículo, sofri apenas algumas escoriações leves. Mas o susto foi grande e aprendi a lição.
     No primeiro dia de aula, o meu pai acompanhou-me até o colégio. Enquanto buscava saber em que turma ficaria, um menino veio ao meu encontro e acabamos nos identificando como colegas da mesma classe. Em meio ao nosso bate-papo, ele apontou na direção do meu pai e perguntou-me: -"É teu avô?" Constrangido, respondi-lhe: -"Não, é meu pai". Ele fez um ar de surpresa e eu ruborizei, envergonhado. Eu completaria, em abril, apenas doze anos de idade; meu pai já tinha sessenta anos e ostentava os cabelos brancos sobre a meia calvície. Bem poderia mesmo ser meu avô, na aparência. Por isto, sem confessar-lhe o verdadeiro motivo, pedi que não me levasse mais até a porta do colégio. Insisti que não precisava, pois já aprendera o caminho e não teria nenhum embaraço para chegar até ali. Após muitas recomendações, ele e minha mãe consentiram que eu fosse só.
      Engraçado: hoje estou com 64 anos e tenho um filho com 16 (o Carlos Eduardo, que completará 17 agora em agosto/2013). Portanto, quando eu estava com 60, ele estava exatamente com 12 anos. E já ouvi pessoas perguntando a ele se eu seria seu avô, como também muita gente já me perguntou, indicando-o: -"É seu neto?", a que respondo, agora com muita naturalidade: -"Não, é meu filho".
     Passado o primeiro semestre e encontradas as primeiras dificuldades no novo sistema de distribuição de matérias, olhem só a besteira que eu fiz: incentivado por um colega, comecei a gazear (matar, cabular) as aulas, especialmente de algumas matérias com que não tinha muita afinidade. Tínhamos mais ou menos as mesmas dificuldades, por isto um servia de companhia ao outro, burlando a vigilância e evadindo-nos do prédio, ou, muitas vezes, nem chegando a entrar, rumando para o Parque Farroupilha, onde fazíamos hora, para voltarmos para as nossas casas, como se houvéssemos estado na sala de aula o tempo todo.
     Tínhamos uma caderneta de presenças, onde eram carimbadas as palavras "COMPARECEU", ou "FALTOU", com tinta azul. Pois vejam só: o meu colega descobriu que escrevendo em letras maiúsculas, com uma caneta azul, a palavra "COMPARECEU", numa borracha branca, comprimindo-a sobre a linha correspondente ao dia da semana, na caderneta, ficava exatamente como se houvesse sido carimbada. Ninguém percebia a fraude. Assim o fizemos muitas vezes e o resultado foi que reprovamos e tivemos de repetir o ano. Juntos novamente, não tardou para que começássemos a aprontar tudo de novo.
     Em casa, inventava mil razões para não estar bem em certas matérias. Meus pais não conseguiam entender o porquê do meu duplo fracasso, já que novamente reprovei na mesma série.
     O mano João, dois anos mais velho que eu, tendo reprovado no curso primário, chegara ao ginásio quase junto comigo. Só que, por ter mais idade, foi direto para as aulas noturnas, no Ginásio Estadual Ignácio Montanha, a umas duas quadras do Julinho. Desistiu, depois de completar a 2ª série.
     Solicitei aos meus pais, já que não poderia mais frequentar o turno matinal, a minha transferência para o mesmo colégio do meu irmão, à noite, no que fui prontamente atendido.
     Aí, sim, voltei a ser aquele estudante aplicado, esforçado, interessado, como antes sempre havia sido. Agora, passava por média em quase todas as matérias, completando todas as séries ginasiais e chegando até ao final do primeiro ano do curso científico (2º grau, ou superior).
     Essa história, entretanto, custou-me muito caro e estou pagando, com juros e correções, pelos dois anos perdidos, até hoje. Desaconselho qualquer jovem que esteja fazendo algo parecido, ainda que seja simplesmente negligenciar os estudos, pois, lá na frente, no seu futuro, ele sentirá os efeitos negativos dessa negligência. Na sequência dessas minhas recordações, o leitor irá compreender a extensão do dano que a mim mesmo causei.
     Para quem me conhece, fica talvez a surpresa de que nem sempre fui um bom menino. Confesso, no entanto, para decepção geral, que também cometi erros clamorosos já na fase adulta, especialmente no que se refere às atividades profissionais, como irei narrar oportunamente. ///


segunda-feira, 29 de julho de 2013

05. UMA DESCOBERTA PARA A VIDA INTEIRA

     Aos domingos eu me arrumava e ia sozinho para a Igreja, mais com o intuito de rezar do que assistir a missa. Também ia garimpar mais um santinho para a minha coleção, é claro.
     Bem pertinho dali morava uma amiga de meus pais, madrinha do meu irmão Pedro, a quem chamávamos de tia Cota. Mais tarde foi promovida a vó Cota. Era viúva, tinha 3 filhos, sendo um homem e duas mulheres, e havia desenvolvido a mediunidade no Centro Espírita Dias da Cruz, situado na avenida Azenha. Aplicava passes em sua própria residência, somente. Fazia-o incorporada, atendendo apenas a um número limitado de pessoas conhecidas ou indicadas por estas, gratuitamente. Seguidamente nós íamos tomar passe e receber orientações dos bons Espíritos que se manifestavam por seu intermédio.
     Meu pai (João Batista Leal) era o único do nosso grupo familiar que entendia de Espiritismo. Era o doutrinador oficial, quando havia manifestações de espíritos sofredores ou obsessores. Já minha mãe (Olinda dos Santos Leal), mais católica fervorosa do que espírita, sabia do Espiritismo apenas o básico. Nós, crianças, embora confiássemos nos bons conselhos que recebíamos dos "guias da Vó Cota", não dávamos muita importância a tudo isso, achando tudo muito natural, mas sem nenhuma análise crítica ou teórica do que víamos e ouvíamos. Na verdade, o único dos seis irmãos que, em dado momento, passou a buscar conhecimento e a racionalizar sobre conceitos religiosos, era eu mesmo.
     Lembro-me que o mano Pedro casou-se, por essa ocasião, com a minha querida cunhada Eugênia, natural de Quaraí (RS), membro da Igreja Metodista. Uma vez fui com eles à igreja e gostei muito dos hinos que lá eram entoados. Também gostei da pregação do pastor, simples e bem audível.
     Corria o ano de 1959 (eu nascera em 1949), quando recebi o opúsculo contendo o Evangelho Segundo São Lucas, que, meio desconfiado ainda, comecei logo a ler. Fiquei muitíssimo impressionado com a belíssima história, recheada de maravilhosos ensinamentos e grandes feitos, de Jesus, o mestre já aceito por mim como Salvador dos homens, que viera a Terra para resgatar nossos pecados. Dessa leitura resultou que conversei com meu pai e lhe pedi, para o natal que se aproximava, uma Bíblia de presente, no lugar de qualquer brinquedo.
     Fui atendido e, tão logo chegou em minhas mãos a Bíblia novinha em folha, passei a ler o primeiro livro, "Gênesis", de Moisés, com muita atenção. Não tardou, porém, o surgimento de algumas dúvidas, ante a constatação de certas incoerências, entre as quais, destacava-se o casamento de Caim, depois de este haver assassinado seu único irmão, Abel. Ora, pensava eu, como teria ele casado, se não havia outra família sobre a face da Terra, além dele mesmo e seus pais, Adão e Eva?
     Consultei meu pai a respeito dessas dúvidas e confusões e ele me falou sobre o sentido simbólico da história contada por Moisés ao seu povo, tanto no que se referia aos primeiros habitantes da Terra, quanto às origens do planeta, do Universos e da vida. Teceu ele várias considerações, em meio às minhas insistentes indagações, até chegar às explicações dadas pela Doutrina Espírita, que a tudo esclarecia, dada a sua natureza científica e filosófica.
     Enquanto me elucidava, recorreu a alguns trechos do livro A GÊNESE, OS MILAGRES E AS PREDIÇÕES SEGUNDO O ESPIRITISMO, da obra codificadora de Allan Kardec, o qual tinha guardado, entre outros, em uma velha estante em seu quarto de dormir. Meu pai acabara, assim, de apresentar-me uma nova e cativante religião, que abarcava os conceitos católicos e expandia a visão para novos e claríssimos horizontes da espiritualidade que eu já buscava intimamente, embora sem a consciência exata disto.
     Depois de ler mais um pouco o "Gênesis" bíblico, já não sopitando a curiosidade e a expectativa de novos conhecimentos, tratei logo de iniciar a leitura da referida obra kardequiana, que a cada página mais me assombrava positivamente, como se eu me recordasse de coisas já sabidas, que provavelmente estavam adormecidas em meu subconsciente.
     Solicitei ao meu pai, então, que me levasse a um centro espírita, ao que ele acedeu prontamente. Fomos em um que não recordo o nome nem a localização. Em seguida fomos ao Centro Espírita Allan Kardec, situado na rua General Andrade Neves (nº. 60), no centro de Porto Alegre. A partir de então, troquei as missas dominicais pela Evangelização nessa casa espírita, que é a mais antiga do estado dos gaúchos. Passei a adquirir o jornalzinho "Luz de Damasco" e segui lendo outros livros espíritas, que me iluminavam a mente cada vez mais. 
     Tive, mais tarde, outras experiências religiosas, que irei narrar ao longo destes textos, oportunamente. ///
   

domingo, 28 de julho de 2013

04.O MENINO QUE QUERIA SER PADRE

     Eu, que iniciara minha formação escolar aos 7 anos, como era costume nesse tempo, estava agora, aos 10 anos, no 4º. ano do curso primário (hoje fundamental), passando de ano a ano por méritos próprios, de acordo com as normas educacionais vigentes.
     Fazia parte da grade escolar a educação religiosa, diga-se de passagem: católica, ministrada por padres, que vinham até a escola pública em seu traje típico, marrom, falando com aquele sotaque latino, bondoso.
     Aos alunos que correspondiam bem aos seus ensinamentos, demonstrando-o nas provinhas orais feitas de improviso, davam como prêmio um santinho (de papel), cada qual mais lindo. Também costumavam incentivar os alunos a participarem das missas em uma das igrejas mais próximas, que eram a de Santo Antônio e a de São Jorge, equidistantes em relação ao Grupo Escolar Afonso Guerreiro Lima, instalado havia apenas um ano em terreno existente em frente à minha residência, pela rua Guilherme Alves, onde meus irmãos e eu havíamos sido matriculados desde a sua construção.
     Assim, passei a frequentar a Igreja Santo Antônio do Partenon, onde eu havia sido batizado, distante cerca de um quilômetro do local. Pouco entendia das pregações, por causa do eco que se gerava no interior daquele tipo de edificação, confundindo minha audição, que nunca foi das melhores. No entanto, dedicava-me a rezar pela minha família, por todos os meus parentes e vizinhos, além de pedir, com fé, algumas bênçãos para mim mesmo.
     A melhor parte, porém, ficava por conta da hora das ofertas, porquanto, ao alçá-las, ganhava sempre um santinho, que ia somar-se aos que ganhava na escola e que já faziam parte de uma coleção.
     Por essa época, eu alimentava secretamente o sonho de me tornar padre, ansiando ajudar as pessoas com minhas orações. O sacerdócio católico parecia-me uma missão divina muito linda, muito gratificante.
     Ah! Mas havia um problema, que me fazia às vezes vacilar. É que, ao mesmo tempo, eu sonhava com um lar, no qual eu teria ao meu lado uma doce companheira, uma esposa amorosa e amada, e muitos filhos.
    O dilema era grande: ser padre ou chefe de família, já que, pela lei da Igreja, padre não pode casar?
      Aos dez anos de idade os meninos já olhavam para as meninas. Embora super tímido, não tinha como não eleger, entre as coleguinhas de aula, ou entre as menininhas da vizinhança, uma que seria meu par ideal, quando crescêssemos, naturalmente.
     Um certo dia, ao dar a oferta na igreja, para minha decepção, em vez de mais um santinho para a minha coleção, recebi um opúsculo, com letras miúdas e sem sequer uma estampa de santo na capa ou em alguma de suas muitas páginas. Tratava-se de O Evangelho Segundo São Lucas.
     Ao começar a lê-lo, no entanto, a curiosidade foi tomando conta de mim, uma vez que ali era narrada, com detalhes, a história de Jesus, o Salvador, a quem eu gostaria de servir de alguma forma, daí a insistente ideia de vir a ser padre, quando me tornasse adulto.
     Em casa, quando lia trechos do Evangelho em voz alta, meus irmãos comentavam, devido a pronúncia dos verbos na terceira pessoa do plural e dos "ES", muito bem articulados com aquele sotaque latino dos professores de religião: -"Este guri parece mesmo um padre", ou: -"O Evoti tem todo o jeito de que vai ser padre quando crescer". E isto em vez de me chatear, magoar ou ofender, ao contrário, enchia a minha bola e alimentava a minha certeza de que tinha a vocação sacerdotal.
     Apenas para que não fique uma imagem tão sóbria ou soturna dessa fase da minha infância, devo acrescentar, nestas memórias, a lembrança de que também confeccionava e soltava pandorgas (pipas, arraias), jogava bolitas (bolinhas de gude), andava de patinete e de carrinho-de-lomba, que eram feitos com madeira bruta e com rodas de rolimã (rolamento), junto com os meus irmãos, primos e amigos daquela faixa etária.
     Eu posso até ter sido muito enjoado e um pouco avançado em relação aos pensamentos e atitudes próprios da idade, mas tive infância, sim, podem apostar. ///
   

sexta-feira, 26 de julho de 2013

03. BRINCANDO SOZINHO

     Em torno dos meus oito, nove anos de idade, um tanto retraído, preferia ficar a sós comigo mesmo, brincando sozinho por horas a fio. Tinha certa predileção por ônibus e micro-ônibus a qualquer outro tipo de veículo. Então, tinha dois tipos de brincadeira que costumava fazer, esquivando-me de qualquer companhia. Uma delas era pegar um velho carrinho de bebê, já sem lona, só a carcaça de ferro, deitá-lo em um cantinho do pátio, fazendo de uma das quatro rodas o volante do veículo que eu dirigia, sentado numa cadeira. Com um pedaço de pau fincado no chão fazia a palanca do câmbio, com que imaginava as trocas de marcha. Três pedras estrategicamente colocadas sob os meus pés compunham os pedais do acelerador, do freio e da embreagem. Com um movimento dos lábios e a emissão de um som característico, imitava o ruído do motor e mentalmente percorria o trajeto da antiga linha "Santo Antônio", hoje substituída pela "Caldre e Fião", que servia o nosso bairro. Ia do ponto final, que era na rua Caldre e Fião, esquina com a Barão do Amazonas, até a avenida da Azenha, trecho que eu conhecia bem, parando em cada ponto de embarque e desembarque, imaginando tudo detalhadamente.
     A outra brincadeira também tinha a ver com transporte de passageiros. Com efeito, talhava alguns pedacinhos de ripa de madeira, confeccionando uns "onibusinhos", com janelinhas desenhadas à caneta e as cores da empresa concessionária da época pintadas a lápis de cor. Os toquinhos não possuíam rodas, mas para mim era como se as tivessem. Nos fundos do pátio, próximo à cerca e ao portão de acesso pela rua Guilherme Alves, com uma tabuinha eu desenhava no solo uma cidade imaginária, com várias ruas paralelas, transversais, curvas, etc. Depois de pronta, determinava um itinerário e então conduzia as pequenas viaturas para lá e para cá, com direito a um ponto de partida e um ponto final, passando por várias paradas.
     Ainda dessa mesma fase da minha vida, lembro-me de colecionar carteiras de cigarros. Das marcas existentes, retenho na lembrança as seguintes: Continental, Hollyood, Mistura Fina, Urca, Marrocos, Pullmann, Belmont, Saratoga, LS, Minister...
      Os gibis que eu mais gostava de ler eram estes: Bolinha, Luluzinha, Brasinha, Gasparzinho, Tom & Jerry, O Pato Donald, Tio Patinhas, Mickey, Zorro, Jene Autry e Roy Rogers.
     Jogar bola com a molecada da minha faixa etária não fazia parte do meu "cardápio" de brincadeiras, pois sabia que iriam tirar sarro do meu "pé torto", e eu não suportava críticas e zombarias.
     Às vezes, dependendo dos participantes, animava-me a brincar de mocinho e bandido, assim como de esconde-esconde.
     Desse modo cheguei aos meus dez anos de vida, de onde extraio as lembranças mais gratas e indeléveis da infância agora longínqua.
     Até hoje, quando como um doce de abóbora, emerge em minha memória o dia do meu primeiro decenário, em que minha mãe fez um, muito gostoso, para comemorar a data, quando vieram abraçar-me a tia Vadina, a tia Lourdes e a tia Lídia, também irmã de minha mãe. Além delas, uma prima por parte do pai, a Geni, que era enfermeira da Cruz Vermelha, chegou de surpresa e me deu um lindo balão (bexiga) amarelo com listras e pintas vermelhas e azuis.
     Foi um dia muito alegre aquele, em que fui o centro das atenções dessas pessoas queridas, hoje saudosas.
     Não muito tempo depois, não consigo precisar quanto, a prima Geni veio a falecer, tão jovem ainda, por complicações de uma gravidez da qual ninguém tivera notícia até o dia do triste acontecimento, que chocou a todos nós, adultos e crianças.
     O velório foi realizado na nossa casa, já que ela morava sozinha e os demais parentes do lado paterno moravam em Santa Maria e região, a cerca de 300 quilômetros da Capital, o que, para a época, representava uma distância considerável, o que os impediu de comparecerem ao féretro. 
     Foi a primeira vez que vi uma pessoa morta bem de perto. Por sinal, uma pessoa muito querida, embora os poucos contatos que tivemos, porquanto de vez em quando ela vinha ver os tios e era sempre muito amável para conosco, seu primos. Lembro-me de haver sonhado com ela, na mesma noite do velório, aparecendo-me viva e sorridente, como a se despedir de todos ali presentes, sem dor e sem mágoas, na partida para a outra vida.
     Sabe a frase: "saudades eternas"? Há casos em que é absolutamente verdadeira, e este é um deles. ///

02. OS MEUS PRÓXIMOS CINCO ANOS

     Depois de nossa chegada em Porto Alegre, até os meus dez anos de idade, embora fosse considerado motivo de orgulho para os meus pais, pois diziam que eu era muito inteligente e, de fato, gostava de estudar e de ler, devo ter sido um menino muito chato, quase insuportável. Começa que eu era demasiado tímido e bastante sensível. Na verdade, eu era mesmo muito susceptível. A qualquer pequena contrariedade já fazia um beiço de índio botocudo e desatava a chorar. Meus irmãos, primos e amiguinhos da vizinhança mexiam comigo só para me ver descontrolado. Chamavam-me, então, de manteiga derretida, o que fustigava ainda mais a minha baixa estima, fazendo-me desmanchar em lágrimas e soluços, indo dar queixa deles para a minha mãe, que sempre me acudia e me acalmava com palavras carinhosas e incentivadoras.
     Na escola, responder à chamada era um dos piores momentos. Mas as professoras sempre elogiavam o meu comportamento exemplar e a minha facilidade de aprendizado. Num bom trocadilho, em língua portuguesa eu tirava tudo de letra, enquanto em matemática eu só tirava 10.
     Minha tia Oswaldina, a tia Vadina, esposa do tio Inácio, que era barbeiro, quando fazia alguma festa em sua casa, pertinho da nossa, onde havia um enorme alpendre e bastante fartura, reunindo a família inteira de minha mãe, tios, primos e avós, pelo menos uma vez por mês, era a única pessoa que entendia as minhas manhas. Era ela, portanto, quem me servia à mesa, depois de verificar, com muita paciência e atenção, o de que eu realmente gostava e como preferia. Ela costumava dizer, em alto e bom tom: - "Deixa que eu sirvo o 'Votizinho'. Eu é que sei como é que ele gosta das coisas." E servia-me o prato de comida, o refrigerante ou suco, o café e o pão com a mistura escolhida, tudo de acordo com o meu paladar e as minhas manias de guri chato e cheio de vontades. Nem parecia que eu era filho de uma família pobre, que tomava café preto com pão seco torrado na chapa do fogão à lenha, ou mexido com farinha de mandioca e açúcar.
     Lembro-me de que os nossos uniformes escolares eram confeccionados pela mãe, com muito carinho e capricho, mas aproveitando sempre os sacos brancos de farinha de trigo que ela comprava no armazém. Usávamos alpargatas e tamancos de madeira, e as nossas cobertas de cama eram feitas com retalhos de velhos capotes militares que o pai deixava de usar.
     Por muito tempo, os banhos eram de bacia, num quartinho reservado para isto, e continuávamos usando a famosa "casinha" no quintal, que de vez em quando tinha que ser mudada de lugar, porque o buraco que servia de fossa enchia e outro era aberto para receber a latrina.
     A mana Iná já havia nascido e crescia cercada de carinho e cuidados de todos os irmãos. Uma vez, brincávamos de esconder e, em meio à brincadeira, ela sumiu. Todos saímos à sua procura, por toda parte e nada. Já havia um clima de desespero geral, quando o Valter foi checar um dos quartos da casa e a encontrou dormindo embaixo de uma das camas, onde ela se havia escondido.
     Sem geladeira e sem televisão, mas com os pais maravilhosos que tínhamos, nada parecia faltar-nos do essencial para vivermos e sermos felizes.
     Apenas os natais e as páscoas eram sempre uma incógnita para nós, crianças. É que ganhávamos brinquedos bem simples, enquanto nossos primos e amiguinhos ganhavam carrinhos de pedalar e bicicletas, entre outros presentes de valor, ou cestas recheadas de coelhos de chocolate maciço e ovos grandes, enquanto nossos ninhosinhos eram preenchidos com ovinhos pequenos, bombons e balas.
     Mas, com tudo isto, que tempos bons eram aqueles!  Que saudades! ///

quinta-feira, 25 de julho de 2013

01. LEMBRANÇAS DA PRIMEIRA INFÂNCIA

     Da minha infância primeira guardo na mente poucas e vagas lembranças. Como que envolta em branda névoa, lembro-me de uma casa de madeira, onde morávamos, na pequena cidade de General Câmara, situada à margem do Rio Taquari, na vizinhança das cidades de Taquari e São Jerônimo, no estado do Rio Grande do Sul, há poucos quilômetros da capital gaúcha. Foi nesta cidadezinha que nasceram meus irmãos Valter e Eloá, respectivamente dois e três anos mais novos que eu.
     Recordo que a rua não tinha pavimentação e que havia uma esquina perto de nossa casa. Eu devia ter cerca de 5 anos, talvez incompletos, não sei bem. O mano mais velho, Pedrinho, então com aproximadamente 15 anos, empurrava um carrinho de bebê, já fora de uso, velozmente, com meu irmão João (7 a.) e eu a bordo. Era muito divertido.
     Como o terreno tinha um ligeiro declive, havia uma escada de madeira, com cinco ou seis degraus, que dava da porta da cozinha para o pátio, na parte dos fundos da moradia. Alguns metros separavam essa escada da "casinha", chamada de privada ou latrina, mas que nós chamávamos de "patente".
     Mais ao fundo do terreno havia uma cerca de arame, limitando a propriedade locada, havendo em seguida um pequeno barranco e, depois deste, os trilhos do trem que por ali trafegava diariamente. De vez em quando íamos com o pai e a mãe passear nos trilhos e colher ervas de chás, como cidreira, carqueja, funcho, maçanilha, macela e outras.
     O fato pitoresco que marcou minha história nessa ocasião foi uma queda que sofri, rolando do primeiro ao último degrau da escada da cozinha. Fiquei sabendo depois que na época eu tinha o hábito de me finar quando chorava. Para quem não sabe o que é isto, é quando, durante o choro sentido, a criança vai liberando o ar dos pulmões (expirando), tendo, na sequência, certa dificuldade de fazê-lo retornar ao organismo. Resultado disto é que eu começava a ficar roxo, a amolecer o corpo, chegando muito próximo do desfalecimento. Quem estivesse por perto tentava imediatamente socorrer-me soprando em meu rosto e sacudindo-me, até voltar-me o fôlego. Era deveras assustador.
     Ao ver-me rolar escada abaixo, minha querida e saudosa tia Lourdes, irmã de minha mãe, que estava passando uma temporada conosco, saiu às pressas da privada, interrompendo a delicada operação fisiológica, temendo por minha integridade física, tão frágil costumava ser ante o menor incidente. Não obstante sua grande preocupação a meu respeito, muito brava ela ficou ao constatar que o seu sacrifício fora desnecessário, pois, em vez de chorando e me finando, encontrou-me dando risada do acontecimento.
     Quero crer, pelo pouco que ainda retenho na memória, que eu deveria ainda estar com meus cinco anos de idade, quando meu pai, brigadiano, foi transferido de volta para Porto Alegre, minha cidade natal, praticamente ainda desconhecida para mim.
     Após entendimentos mantidos com a família de minha mãe, acomodamo-nos provisoriamente em um puxado que havia nos fundos, entre as casas do tio Valter (mais conhecido por tio Quininho) e da tia Oswaldina (chamada de tia Vadina), no terreno sito à rua Guilherme Alves, com a outra frente para a rua Barão do Amazonas (número 2450), no bairro Partenon, próximo à Vila Maria da Conceição.
     A viagem foi no pequeno navio (ou barcaça) a vapor, de nome Porto Alegre, do qual sinto ainda uma saudade inexplicável.
     Não tardou para que meu pai descobrisse e comprasse uma propriedade, distante apenas duas outras de onde estávamos instalados. Era um terreno de 11 X 40 metros, com uma casa velha de madeira, sob o número 2482 da rua Barão do Amazonas. No meio desse terreno há, até hoje, um desnível, formando um barranco de quase dois metros, sendo que no nível inferior do mesmo é que estava a  referida construção, que, com muito labor, foi bastante melhorada, ganhando, inclusive uma meia água coberta com telhas de zinco. Quando chovia, o barulho era intenso, porém muito gratificante para todos nós. Anos depois, com a morte de meu pai, minha mãe reformou completamente a casa, onde hoje reside minha irmã mais nova, Iná, que nela nasceu.
     À época, a rua não era pavimentada, ganhando, alguns anos depois, um calçamento com pedras irregulares, sendo, mais recentemente, asfaltada.
     Ali vivi os melhores dias da minha infância, adolescência e juventude, ao lado dos meus queridos e saudosos pais e meus irmãos. ///