quinta-feira, 15 de maio de 2014

28. NOTÍCIA RUIM E REAÇÃO INESPERADA

       Sexta-feira santa, íamos todos almoçar na casa da minha sogra. A Neida ia tensa, preocupada em como lhe daria a notícia e como a mãe reagiria, pois era ela quem nos socorria nas dificuldades financeiras. E ali estava se desenhando mais uma dessas situações, pois estava desempregado de novo.
        Chegamos e eu fui em seguida para a sala da tevê, onde o seu Mário costumava estar na sua poltrona confortável. O companheiro de minha sogra se alegrava com as bagunças feitas pelas crianças e com a minha companhia, pois conversávamos bastante. Ele sempre me perguntava sobre o serviço e eu escutava com atenção as suas histórias engraçadas e bastante pitorescas às vezes.
       Sabia que a qualquer momento seria chamado a apresentar minhas justificativas sobre a demissão e os planos para o futuro imediato, isto é, se já tinha algum outro emprego em vista ou como pretendia agir em busca do mesmo. E o momento aguardado com ansiedade não tardou a chegar. Não lembro qual dos filhos veio chamar-me, dizendo que a vó queria falar comigo. Esperava uma expressão de descontentamento, que seria bastante justa e apropriada. Parei frente à porta de acesso à cozinha, onde mãe e filha conversavam. Mas a pergunta que soou em minha direção foi a mais inusitada e inesperada possível: - "Tu gostarias de aprender a profissão de barbeiro?" Foi tamanha a minha surpresa que não sabia nem o que responder, pois sequer jamais havia pensado nessa possibilidade. Só consegui dizer: - "Ué! De repente!
       Minha sogra era manicure do Salão Pará, já de longo tempo. Depois do pequeno lapso de aproximadamente dois anos em Porto Alegre, que deu ocasião à Neida e a mim de nos conhecermos, ela retornara para Pelotas e voltara a trabalhar nesse mesmo local, ainda sob a direção do senhor Homero, antigo proprietário. Tinha uma vasta e seleta clientela, disposta a segui-la onde ela estivesse, na cidade, é claro. O Salão Pará era exclusivamente masculino, assim como a sua clientela de unhas também o era. Os irmãos Orlando e Ari Volcão, profissionais que trabalhavam no salão já havia um bom tempo, tinham comprado o ponto com todas as instalações existentes, passando a dirigir o estabelecimento, que contava, ao todo, com dez cadeiras de barbeiros (todas ocupadas), duas manicures e um engraxate - o Adão, que há bem pouco tempo veio a falecer, ainda em atividade.
       Ela disse-me, então: - "Olha, o Orlando já ensinou a profissão para uns quatro ou cinco, e eu tenho certeza de que se eu pedir a ele pra te ensinar ele não vai me negar. Eu só preciso saber se tu gostarias de aprender ou não".
       Ainda meio sem convicção, falei: - "Bueno, se tiver alguém que me ensine eu aprendo, sim. Não tenho nenhuma dificuldade para aprender. E acho até que vou gostar, não sei".
       Ela ficou de falar com ele no dia seguinte e me avisar caso ele quisesse conversar comigo. Mandaria o recado pela nossa vizinha de lado, já que não tínhamos telefone. Conhecia o Orlando apenas de vista e não tinha intimidade com nenhum dos profissionais do salão. Ainda me marcava bastante a personalidade uma timidez que trazia desde a infância e a juventude, porém não tinha receio de lidar com pessoas novas desde que fosse chamado a fazê-lo, principalmente quando convidado por elas mesmas. A minha maior dificuldade estava em eu mesmo, espontaneamente, forçar uma nova relação.
       Por volta das 10 horas recebi o recado para ir imediatamente até o salão. Já estava pronto e foi só tomar a condução e em cerca de meia hora lá cheguei, bastante ansioso. Apresentado pela minha sogra ao Orlando, ele pediu-me que aguardasse um pouco, pois tinha mais um cliente para atender, depois do que estava já na sua cadeira. Esperei por cerca de quarenta e cinco minutos, até que ele veio ao meu encontro e convidou-me para irmos até o tradicional Café Aquário - na Sete esquina Quinze. Enquanto tomávamos o delicioso cafezinho, que eu nunca antes havia provado, conversamos e nos entendemos. Vejam o resultado da nossa conversa no próximo capítulo destas recordações. ///

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