segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

19. NOVAS EXPERIÊNCIAS

       No Expresso Zacharias, trabalhei de janeiro de 1977 a setembro de 1978. Inicialmente, das 17 às 23 horas; mas, na verdade, saía geralmente por volta da meia-noite, 1 hora da madrugada. Minha função era a de operador do C.P.D. (Centro de Processamento de Dados). Depois, passei a trabalhar, na mesma função, das 10 às 19 horas, porém saindo normalmente entre 20 e 21 horas.
      De vez em quando terminávamos de manifestar os caminhões lá pelas 22 horas, pois tínhamos que aguardar a chegada dos veículos carregados que vinham do Rio de Janeiro, para batermos os conhecimentos de carga dos mesmos, com mais de duzentas notas cada um. Além deles, tinha também o veículo de coletas da própria filial de São Paulo, que vinha carregado também com um número de notas fiscais superior a cem. 
       O Géferson e eu éramos os dois únicos funcionários do CPD, mas havia uma equipe de apoio, que separava as vias dos conhecimentos, grampeava-as às notas, destinava-as ao armazém para o carregamento ou remanejo das viaturas que seguiriam viagem, ao seguro, ao arquivo, entre outras providências complementares.
       Certa ocasião, numa discussão boba com o colega de sala, ele pegou da gaveta de sua escrivaninha uma arma e a apontou para mim, quase a encostando em minha testa. Despejou-me vários insultos e ameaças, enquanto eu, mentalmente, pedia socorro aos Céus, provavelmente pálido de medo. Depois de várias ofensas a minha pessoa, guardou a arma e voltou à sua atividade, em silêncio, como se nada houvesse acontecido. Suspirei, aliviado, mas com um sentimento de insegurança e estupefação, que remoía mentalmente. Isto ocorreu no período da manhã. Quando fui almoçar, contei para a Neida e disse-lhe que não tinha condições de voltar ao trabalho, pelo menos naquela tarde, pois estava abalado emocionalmente.
       Um pouco mais tarde, fui até o telefone público que havia em frente à padaria, a uns dois quarteirões de casa, e liguei para o gerente da Empresa, pedindo-lhe uma audiência em particular, expondo-lhe por alto o que havia ocorrido naquela manhã. Ficou combinada uma entrevista para o dia seguinte, bem cedo, para tratarmos do assunto.
       Após a exposição detalhada do acontecimento, ele deu-me a seguinte instrução: eu deveria sair de sua sala pela porta da gerência e adentrar ao ambiente de trabalho pela porta funcional, como se estivesse chegando de casa, agindo normalmente, para não despertar nenhuma suspeita junto ao companheiro. À tarde seríamos ambos chamados ao setor de R.H. e seríamos ambos demitidos, sem justa causa. Mas eu não deveria preocupar-me, pois na segunda-feira seguinte (isto foi numa quarta-feira) seria readmitido. Para todos os efeitos, a Empresa teria achado por bem readmitir-me, pois os novos funcionários contratados não estariam dando conta do serviço. E assim foi.
       Uns três ou quatro dias depois, ao sair do supermercado, que se situava na avenida principal do bairro, encontrei o ex-colega, que mostrou-se preocupado comigo, diante da situação, dizendo-me que já estava empregado em uma outra empresa e que poderia apresentar-me lá, se eu quisesse. Foi então que lhe contei da minha readmissão, que fora chamado na segunda-feira. Ele, então, mostrou-se muito feliz por mim. Disse que havia pensado muito em mim, na minha situação, que eu tinha dois filhos pequenos para criar e que minha esposa estava esperando outro bebê, enquanto ele não tinha família para se preocupar. Reiterou que estava muito contente com o fato de me haverem chamado de volta e ainda brincou: - "É, eles pensaram que seria mole substituir dois caras com experiência, que nem eu e você, por dois caras novos que não sabem como é que funciona aquele negócio lá... Ainda bem que eles voltaram atrás, e ainda bem que chamaram você, porque eu não iria voltar mesmo. Já tô noutra e quero mais é botar eles na justiça, a menos que façam um acordo comigo".
       De fato, haviam contratado dois rapazes, ambos mineiros, sendo que eu ficaria, a partir de então, como responsável pelo setor, que incluía os funcionários de apoio.
       Em 03 de janeiro de 1978, nascia a nossa filha Sílvia Regina. Já aí a nossa situação financeira estava bem mais equilibrada, pois além da promoção que eu recebera após aquele episódio, a Neida, mesmo durante toda a gestação, trabalhava em casa como manicure e pedicure, faturando um bom dinheiro. Além disso, ela fazia geladinhos para vender, o que nos rendia um ganho extra, que economizávamos em uma conta poupança. 
       A gravidez ocorrera de inesperado. A Neida andava se sentindo meio enfraquecida. Suspeitava-se que estivesse com certo grau de anemia, pois sentia cansaço e falta de força. Marcada a consulta médica pelo convênio com o sindicato dos empregados em empresas de transportes, ao qual eu me associara, eis que o inesquecível Dr. Salomão debochou do nosso diagnóstico leigo: -"Anemia? O que a senhora tem é um bebê nessa barriga, isto sim". 
       A notícia nos pegou de surpresa, mas, podem crer, foi uma grata surpresa. Um vizinho nosso, motorista de táxi, foi quem nos levou até o hospital maternidade para o grande evento. A Bia e o André ficaram aos cuidados da avó, que havia chegado no dia anterior. Quando a Sílvia estava completando o seu primeiro mês de vida, viajamos para Pelotas e convidamos o querido e saudoso tio Duca, irmão da D.Deloá, para padrinho de batismo, juntamente com sua e nossa grande amiga, Luíza. Foi a primeira vez que viajamos de avião. Pouco tempo depois, em junho do mesmo ano, o tio Duca veio a falecer, o que nos deixou muito consternados, inclusive diante da impossibilidade de retornarmos a Pelotas para o seu sepultamento. Recebi o telefonema na empresa, com a triste notícia, e não pude impedir que a emoção me levasse às lágrimas, pois ele era um cara muito especial, que desde o início se mostrara muito meu amigo.
       A nossa rotina prosseguia, sem novas ocorrências dignas de registro, até que algumas mudanças nos regulamentos da Empresa vieram alterá-la significativamente.
       A primeira foi com o corte da condução (uma kombi de propriedade da Empresa) que levava os funcionários em casa sempre que o expediente ultrapassava a marca das 20 horas, o que era frequente, quase que diariamente. Depois foi suspensa também a janta por conta da Empresa, aos sábados, após às 19 horas.
     Essas duas medidas encontraram uma compreensível resistência por parte da pequena equipe supervisionada por mim. Saí em sua defesa junto à gerência, mas de nada valeram os meus argumentos. Eu morava perto, mas havia um rapaz que residia em Guarulhos e os outros dois (os mineirinhos) em Santo André, na região metropolitana paulista. Cada um deles gastava no mínimo duas horas de viagem para chegar até suas respectivas residências. Com isto, o clima ficou muito ruim e o serviço passou a ser boicotado após aquele horário, comprometendo muitas vezes os carregamentos e as saídas dos caminhões para os seus destinos de viagem.
       Após um outro episódio, em que esquecemos de alimentar os equipamentos de emissão com o formulário contínuo, rigorosamente numerado, neles utilizado, e que ficava armazenado em uma sala da qual somente o gerente e o assessor de diretoria tinham as chaves de acesso, interrompendo assim o trabalho por falta do material indispensável, fui demitido, mediante a seguinte justificativa: -"Você é pago para defender os interesses da Empresa e não os dos seus subordinados. O que aconteceu ontem à noite foi uma falta grave da sua parte. Uma irresponsabilidade sua, mais do que dos seus funcionários. Nós achamos que você não está correspondendo mais às nossas expectativas, por isto o estamos demitindo".
       Diante disto, respondi apenas: -"O senhor é quem sabe". Passei no R.H. para o devido acerto de contas e fui para casa. ///
        

        

Nenhum comentário:

Postar um comentário