segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

22. NOSSA MUDANÇA PARA A VILA EMA

     Ultimamente andava me sentindo bastante cansado, à beira de um esgotamento físico e psicológico, devido ao excesso de trabalho, sem ainda haver gozado férias, em mais de um ano e meio, quase dois, na tumultuada função que exercia na Empresa. Além do mais, estava muito descontente, pois já fazia algum tempo que vinha pleiteando junto ao gerente um reajuste de salário, por conta da minha reconhecida dedicação e prestatividade. Embora ele não negasse o meu mérito, parecia-me não estar devidamente empenhado em defender a minha demanda junto aos diretores, pedindo-me sempre que tivesse paciência e aguardasse. Mas o tempo passava e nada de aumento, o que me deixava mais na certeza de estar sendo "enrolado".
     Certo dia, já muito contrariado e realmente me sentindo estafado (hoje diríamos "estressado"), decidi ir até a clínica médica conveniada, para consultar um médico e solicitar-lhe um atestado, que seria para aquela quinta-feira, sexta e sábado. Incluiria na parada para o necessário descanso o domingo, e voltaria ao trabalho na segunda-feira. Diante do que lhe expus, o médico disse-me que o que eu precisava era de umas férias de trinta dias e se possível longe de São Paulo. Aleguei que isto seria impossível, que nem mesmo de quinze dias seria viável, pois não havia substituto para o que eu fazia. Não que eu fosse insubstituível, mas porque ninguém no escritório jamais havia metido a mão no meu serviço, em qualquer mínima ausência minha. Tudo ficava à minha espera. Inclusive eu já sabia até o que me aguardava depois daquela pausa de três dias de acúmulo de material sobre a minha mesa. Mas precisava dar uma descansada na cabeça. A muito custo ele me deu o atestado, dizendo que não iria resolver o meu problema, que ele estava disposto a recomendar à Empresa conceder-me as férias a que já tinha direito legal havia muito tempo.
     Sem nada comunicar ao gerente, retornei ao trabalho na segunda-feira apresentando o atestado, atitude esta que o desagradou, pois eu devia ao menos ter-lhe avisado por telefone. Àquela época, não tínhamos telefone em casa e eu decidira nem mesmo ligar de um orelhão, pois queria mais era causar um certo pânico, esperando fosse notada finalmente a minha importância naquele contexto funcional.
     Como previra, o serviço havia-se acumulado, de tal forma, que a minha mesa virara a maior bagunça. Pior é que, enquanto eu tentava tirar um pouco do atraso, aparecia cada vez mais serviço novo, pois a época era de "vacas gordas", uma vez que o fluxo de mudanças havia aumentado expressivamente.
     Foi então que um dos diretores percebeu a situação e passou a questionar-me a respeito. Acabei travando um diálogo mais acalorado e menos amistoso com ele. Resultado disto foi que ele se retirou visivelmente contrariado e logo o gerente veio falar comigo, muito aborrecido, dizendo que eu tinha feito a maior besteira, pois seria demitido, segundo decisão daquele diretor.
      No dia seguinte, dei de cara com um rapaz a quem eu deveria ensinar o serviço. Ele, de cara, achou muito complicado o meu sistema de controle. Então eu disse-lhe o seguinte: "Olha, amigo, até aqui eu fiz deste modo, mas daqui para a frente tu vais fazer do jeito que achares melhor; a minha preocupação com estes dados acaba aqui. Vou cumprir o meu aviso prévio e deu pra mim. Não quero mais nem sonhar com esses problemas todos". E passei a sair, como manda a lei, às 4 horas da tarde, o que me parecia algo muito estranho, depois de praticamente dois anos saindo às 9 / 10 horas da noite.
     Para piorar a situação, durante esse período, fui chamado ao escritório do advogado que administrava o imóvel onde residíamos, sendo-me proposto um aumento no valor do aluguel da ordem de aproximadamente 60%, o que se me configurava inviável, ainda mais num momento de novas expectativas com relação ao meu futuro salarial. O administrador, que era irmão do recentemente falecido proprietário de todos os imóveis da vila, alegou que este havia deixado defasarem-se os valores das locações de todas as suas propriedades, e que agora ele estava convocando todos os inquilinos para uma atualização desses valores, segundo a cotação de mercado. Caso eu não concordasse, teria um mês de prazo para desocupar o imóvel. Vejam só em que situação nos encontrávamos naquele momento.
     A Neida e eu já éramos cooperadores oficiais, ela uniformizada e eu de terno, gravata e tudo mais, na Igreja de Vila Ema. Em vista dessas ocorrências, solicitei uma audiência em particular com o nosso pastor e coloquei-o a par da nossa situação.
     Nessa mesma ocasião, já estava começando a ser construído o novo templo, à distância de alguns quarteirões da sede antiga, a qual já se tornara pequena para abrigar o público crescente de então. Estava também sendo construído um chalé de meia-água que seria usado como nova casa da zeladoria, pois era necessário ter alguém cuidando o material que lá ficava depositado, a fim de evitar que o roubassem na calada da noite. A feliz coincidência favoreceu-nos de modo extraordinário, pois, diante disto, o pastor decidiu remanejar para aquele local o irmão Clemente, que era diácono e o zelador da sede ainda em uso, convidando-nos a ocupar as peças que lhe serviam de moradia nessa sede. Eram pequenas, mas ele abriria mão de mais uma sala onde se lecionava o evangelho para um grupinho de crianças na escola dominical, e onde também estavam sendo guardados alguns sacos de cimento naquela ocasião, para o nosso uso provisório. Foi onde, aliás, armamos o nosso quarto de dormir (todos juntos, o casal e os três filhos pequenos). Nas outras duas peças instalamos a cozinha e a sala de almoço e jantar.
     Melhor solução seria impossível. Não pagaríamos mais aluguel, não precisaríamos mais nos locomovermos de tão longe para estar no convívio com a comunidade onde já fizéramos tantas amizades, onde encontráramos ensejo de praticar a fraternidade e a que sonhávamos dedicar-nos mais e mais, por ser-nos isto tão prazeroso. O nosso compromisso seria o de zelar por aquele espaço, que no futuro seria transformado em salão de festas. Enquanto os cultos continuassem sendo ali realizados, a Neida se encarregaria da limpeza dos corredores (parte externa) e dos banheiros; a irmã "senhora Clemente" continuaria fazendo a limpeza do salão da igreja (parte interna), incluindo o palco e duas saletas contíguas, que eram usadas para atendimentos personalizados e pequenas reuniões sob as vistas do pastor titular.
     Ao procurar os motoristas proprietários de caminhões, que terceirizavam serviços para a Granero, a fim de ver quanto me cobrariam pela mudança, surpreendi-me com a disposição e até a disputa entre dois deles para fazerem-na de graça, pois era muito grande a estima que nutriam pela minha pessoa, dado o tratamento que lhes dispensara durante todo aquele tempo em que trabalhara na Empresa. "Você paga apenas uma cervejinha para os ajudantes e estamos conversados", disseram-me ambos. Valeu à pena tratar a todos da melhor maneira que pude, sempre. É bem como um amigo espírita asseverou, alguns anos mais tarde: "Como é bom ser bom". E é bem como disse um outro amigo, mais algum tempo depois: "Quem é bom para os outros, acaba sendo ainda melhor para si mesmo". ///

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