quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

24. EPISÓDIO CULMINANTE

     Mais uma vez o vento soprou forte e fez a nossa frágil embarcação mudar de rumo novamente. Oxalá o pastor da nossa Igreja nos houvesse chamado, a mim e a minha esposa, para uma conversa em particular e nos passasse uma reprimenda com a contundência que coubesse de fato ao caso. Mas não foi o que ele fez.
     Era uma noite daquelas muito especiais, de "santa ceia", no início de julho de 1981. A sala do diaconato, que ocupava todo o segundo piso, sobre a construção onde, no piso inferior, se estabelecia a nossa moradia, aos fundos do salão da Igreja, já estava repleta de obreiros, diáconos e cooperadores, aguardando a chegada do pastor titular, que costumava, por ocasião desse evento mensal, passar ele próprio algumas instruções, dar alguns avisos e fazer uma rápida preleção, antes de assumirmos nossos postos de trabalho relacionados com o culto da noite, que tinha sempre um cunho mais espiritual, mais reflexivo, mais, digamos, elevado, do que os demais.
     Adentrando o recinto, já com alguns minutos de atraso e a muda mas ansiosa interrogação coletiva do porquê deste, o líder foi logo se referindo a um acontecimento recente, sem citar os nomes dos envolvidos, classificando a atitude dos mesmos como inadequada, indecente, imoral e inaceitável para um ambiente sagrado como aquele, passível de severa punição. Em dado momento do seu inflamado discurso, feitas algumas alusões mais específicas, mas ainda sem a devida clareza sobre a ocorrência em si mesma e os seus protagonistas, nós, minha esposa e eu, ela em meio a um grupo de senhoras, eu em meio a um grupo de companheiros, ao lado dos quais iríamos trabalhar naquela noite, começamos a desconfiar e logo mais a não ter nenhuma dúvida de que era a nosso respeito que se falava, diante dos quase 80 membros daquele diaconato. Eu sequer suspeitava e a Neida não conseguia entender dos motivos daquela reprimenda tão veemente e pública sobre nós. Lembro-me de uma frase, que me marcou profundamente: "Assim como eu coloquei essa gente aqui, eu os mando embora sem direito a nada".
      Só mais tarde ficamos sabendo que o pastor se referira a um deslize inocentemente cometido por minha esposa, numa certa manhã daquela semana, enquanto eu me encontrava na feira e ela fazia a sua parte nas tarefas de limpeza daquela sede. E sabem qual foi esse deslize? O de inadvertidamente colocar a tocar na vitrola, em volume mais ou menos alto, um disco (LP) do Roberto Carlos, no qual, certamente, entre outras músicas românticas, consideradas por alguns cristãos como mundanas, havia uma com uma letra um pouco mais "picante". Se não estou enganado em minhas lembranças, essa música era a que leva o título "O Gosto de Tudo", da dupla Roberto e Erasmo. Ora, isto escandalizou sobremaneira a outra irmã que fazia a limpeza da parte interna da igreja. O atraso do pastor para começar a reunião fora justamente devido à comunicação feita por essa irmã ao pastor, que a fez assinar suas declarações (ele inclusive exibiu o papel), que gerou aquela contundente e pública advertência ao casal.
     Ao término daquela reunião, seguimos, cabisbaixo, para os nossos respectivos postos de atuação. Enquanto o pastor pregava com a costumeira intrepidez que o caracterizava como um mestre da palavra, eu de um lado, a Neida de outro, chorávamos silenciosamente, profundamente sentidos. Disse-me ela que se aproximara de uma e depois de outra irmã em serviço e perguntara-lhes algo sobre o que afinal acontecera, pois nem ela sabia do que se tratava aquela advertência tão grave contra nós. Uma e outra responderam: -"Nem eu sei e nem quero saber; não me meta nesta confusão, irmã..."
     Ao final do culto, quando nos aproximamos um do outro, olhos úmidos e atônitos, indagando-nos mutuamente do motivo daquilo tudo, eis que o pastor chega até nós e nos abraça, paternal, dizendo-nos: -"Não fiquem pensando bobagem; não foi nada com vocês; fiquem tranquilos, amanhã a gente conversa".
      Creio que só foi na manhã seguinte que soubemos da razão exata por que fôramos tão chicoteados, embora não houvessem sido mencionados os nossos nomes. Alguns irmãos e irmãs foram ver-nos, pela manhã, trazendo-nos as informações precisas e a sua palavra de conforto e apoio a nós, que sempre fôramos muito atenciosos para com todos.
      Tentei ainda entender, mas a minha esposa, sempre muito decidida, disse-me que ali não ficaria mais, em hipótese alguma. Foi a um telefone público e ligou para sua mãe, que sempre era quem nos salvava das situações mais complicadas, mais especificamente no quesito financeiro. Contou-lhe, omitindo os verdadeiros fatos daquela noite, que o pastor nos havia anunciado a disposição de vender aquela sede, tão logo a construção da nova igreja permitisse ser transferida para lá a realização dos cultos, e que nós deveríamos providenciar outro lugar para morarmos, porém não tínhamos mais contato com o nosso antigo fiador, nem com quem o conseguiu para nós. Sem pedir maiores explicações, eis mais ou menos o que a minha sogra falou: -"Vendam o carro pra pagar a mudança e venham embora pra Pelotas. Tenho certeza que o Seu Mário consegue um emprego pro Evoti. Venham logo, que eu tô com muita saudade dos meus netos, e vocês não têm mais nada que fazer aí, tão longe."
      E foi assim que imediatamente saí a negociar o carro em revendas próximas e tratar de conseguir um caminhão para a mudança, que acabou custando quase o valor apurado na sua venda, salvando ainda as nossas passagens de ônibus para a viagem.
     E mais um capítulo da nossa história ali se encerrava, para dar lugar a outro e outros mais, cujas lembranças serão por mim resgatadas e relatadas na sequência deste trabalho. ///

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

23. ÚLTIMOS SETE MESES EM SAMPA

     Logo que chegamos na Vila Ema, fui em busca de um novo emprego. Como não havia nenhuma transportadora para esses lados da cidade e a Vila Maria, onde a maioria delas estavam instaladas, ficava bem distante, aventurei-me em outro ramo. Consegui vaga de vendedor em uma loja atacadista de utilidades domésticas e brinquedos, manufaturados em plástico e alumínio. Não me senti muito confortável no ambiente da loja, cujos corredores eram estreitos e, sem a devida prática no negócio, logo percebi que teria grande dificuldade de adaptação.
     Enquanto ali estive, notei que os artigos vendidos tinham, muitas vezes, o destino das feiras-livres, onde eram oferecidos ao consumidor final por pequenos comerciantes autônomos, que se instalavam nas periferias, ou seja, nas esquinas de algumas transversais à rua principal de cada feira. Faziam-no de forma clandestina, mas fixa. Para quem não sabe, as feiras-livres em São Paulo se estendem por cerca, ou mais, de dez quadras, com bancas que oferecem os mais diversos tipos de mercadorias, inclusive roupas, calçados e utensílios para os mais diversos fins. Aqueles pequenos comerciantes, que atuavam à margem da legalidade, isto é, sem o devido alvará de licença emitido pelo poder público para venderem o "seu peixe", eram chamados de marreteiros, tendo de se cuidar das eventuais  blitzes promovidas pela fiscalização municipal, para o que contavam com o apoio de atentos olheiros, que percorriam toda a feira anunciando a chegada da "rapa", quando da eventual visita dessa fiscalização.
     Depois de observar e colher algumas informações acerca dessa atividade, decidi investir um pequeno capital, fruto de minha última rescisão de contrato trabalhista, em utensílios domésticos de plástico, e lá fui eu, com o nosso fusquinha lotado, sem o banco do carona, marretear nas feiras da região mais próximas de nossa nova moradia. Foi muito divertido, porém pouco lucrativo, pois eu receava pôr uma margem muito alta e o meu lucro bruto, sem levar em conta as despesas de locomoção, não ultrapassavam aos 30/40%.
     Nessa época, a minha irmã Eloá esteve passando uns dias em Sampa (apelido carinhoso dado à mega capital paulista), indo comigo todos os dias para a feira. Com sua maquininha Kodac, tirou algumas fotos que temos guardadas como doces lembranças daquele momento, tão difícil, sim, mas tão gratificante também.
     Na Igreja, éramos cooperadores atuantes em todos os cultos e reuniões de estudos. Antes de quaisquer outros companheiros de atividades espirituais, éramos aqueles que dávamos as boas vindas aos primeiros irmãos que chegavam àquela "Casa de Deus". Minha esposa, contrariando as ordens dadas pelo pastor, atraía algumas irmãs e irmãos que vinham de longe, geralmente a pé, sob o sol causticante ou frio e chuva, principalmente para os cultos vespertinos, a fim de que ingressassem sorrateiramente na cozinha da nossa pequena e simples morada, oferecendo-lhes um copo de suco refrescante ou um gostoso cafezinho, às vezes acompanhados de um pedaço de bolo ou torta salgada, feitos por ela mesma com muito carinho e um grande sentimento de fraternidade. Era comum recebermos visitas prazerosas de alguns irmãos fora de hora, o que também nos era recomendado evitar, sob o pretexto de "não misturarmos as coisas". Mas de nada adiantavam tais ordens e recomendações, porque sempre fomos afeitos a dispensar aos mais simples, especialmente àqueles que não possuíam as condições de conforto para chegarem até o local, as nossas melhores atenções.
     Tudo ia muito bem, apesar das dificuldades financeiras que mais uma vez batiam à nossa porta, pois estava me descapitalizando muito depressa. Teve uma ocasião, em que estive com uma gripe muito forte, impossibilitado de praticar a atividade econômica por alguns dias, em que, sabedores de nossa situação, alguns irmãos promoveram uma campanha surda, somente entre os membros do diaconato, brindando-nos com uma abençoada cesta básica de alimentos.
     Mas um fato inusitado veio a mudar completamente o rumo da nossa história, uma vez mais. Vocês vão saber agora, já no próximo capítulo dessas minhas anotações autobiográficas, como e porquê saímos da IEQB de Vila Ema e de SAMPA, rumo ao Pampa Gaúcho, mais precisamente à nossa querida Princesa do Sul - Pelotas, que nos recebeu de braços abertos e onde escrevemos novos e belos capítulos da nossa história. ///

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

22. NOSSA MUDANÇA PARA A VILA EMA

     Ultimamente andava me sentindo bastante cansado, à beira de um esgotamento físico e psicológico, devido ao excesso de trabalho, sem ainda haver gozado férias, em mais de um ano e meio, quase dois, na tumultuada função que exercia na Empresa. Além do mais, estava muito descontente, pois já fazia algum tempo que vinha pleiteando junto ao gerente um reajuste de salário, por conta da minha reconhecida dedicação e prestatividade. Embora ele não negasse o meu mérito, parecia-me não estar devidamente empenhado em defender a minha demanda junto aos diretores, pedindo-me sempre que tivesse paciência e aguardasse. Mas o tempo passava e nada de aumento, o que me deixava mais na certeza de estar sendo "enrolado".
     Certo dia, já muito contrariado e realmente me sentindo estafado (hoje diríamos "estressado"), decidi ir até a clínica médica conveniada, para consultar um médico e solicitar-lhe um atestado, que seria para aquela quinta-feira, sexta e sábado. Incluiria na parada para o necessário descanso o domingo, e voltaria ao trabalho na segunda-feira. Diante do que lhe expus, o médico disse-me que o que eu precisava era de umas férias de trinta dias e se possível longe de São Paulo. Aleguei que isto seria impossível, que nem mesmo de quinze dias seria viável, pois não havia substituto para o que eu fazia. Não que eu fosse insubstituível, mas porque ninguém no escritório jamais havia metido a mão no meu serviço, em qualquer mínima ausência minha. Tudo ficava à minha espera. Inclusive eu já sabia até o que me aguardava depois daquela pausa de três dias de acúmulo de material sobre a minha mesa. Mas precisava dar uma descansada na cabeça. A muito custo ele me deu o atestado, dizendo que não iria resolver o meu problema, que ele estava disposto a recomendar à Empresa conceder-me as férias a que já tinha direito legal havia muito tempo.
     Sem nada comunicar ao gerente, retornei ao trabalho na segunda-feira apresentando o atestado, atitude esta que o desagradou, pois eu devia ao menos ter-lhe avisado por telefone. Àquela época, não tínhamos telefone em casa e eu decidira nem mesmo ligar de um orelhão, pois queria mais era causar um certo pânico, esperando fosse notada finalmente a minha importância naquele contexto funcional.
     Como previra, o serviço havia-se acumulado, de tal forma, que a minha mesa virara a maior bagunça. Pior é que, enquanto eu tentava tirar um pouco do atraso, aparecia cada vez mais serviço novo, pois a época era de "vacas gordas", uma vez que o fluxo de mudanças havia aumentado expressivamente.
     Foi então que um dos diretores percebeu a situação e passou a questionar-me a respeito. Acabei travando um diálogo mais acalorado e menos amistoso com ele. Resultado disto foi que ele se retirou visivelmente contrariado e logo o gerente veio falar comigo, muito aborrecido, dizendo que eu tinha feito a maior besteira, pois seria demitido, segundo decisão daquele diretor.
      No dia seguinte, dei de cara com um rapaz a quem eu deveria ensinar o serviço. Ele, de cara, achou muito complicado o meu sistema de controle. Então eu disse-lhe o seguinte: "Olha, amigo, até aqui eu fiz deste modo, mas daqui para a frente tu vais fazer do jeito que achares melhor; a minha preocupação com estes dados acaba aqui. Vou cumprir o meu aviso prévio e deu pra mim. Não quero mais nem sonhar com esses problemas todos". E passei a sair, como manda a lei, às 4 horas da tarde, o que me parecia algo muito estranho, depois de praticamente dois anos saindo às 9 / 10 horas da noite.
     Para piorar a situação, durante esse período, fui chamado ao escritório do advogado que administrava o imóvel onde residíamos, sendo-me proposto um aumento no valor do aluguel da ordem de aproximadamente 60%, o que se me configurava inviável, ainda mais num momento de novas expectativas com relação ao meu futuro salarial. O administrador, que era irmão do recentemente falecido proprietário de todos os imóveis da vila, alegou que este havia deixado defasarem-se os valores das locações de todas as suas propriedades, e que agora ele estava convocando todos os inquilinos para uma atualização desses valores, segundo a cotação de mercado. Caso eu não concordasse, teria um mês de prazo para desocupar o imóvel. Vejam só em que situação nos encontrávamos naquele momento.
     A Neida e eu já éramos cooperadores oficiais, ela uniformizada e eu de terno, gravata e tudo mais, na Igreja de Vila Ema. Em vista dessas ocorrências, solicitei uma audiência em particular com o nosso pastor e coloquei-o a par da nossa situação.
     Nessa mesma ocasião, já estava começando a ser construído o novo templo, à distância de alguns quarteirões da sede antiga, a qual já se tornara pequena para abrigar o público crescente de então. Estava também sendo construído um chalé de meia-água que seria usado como nova casa da zeladoria, pois era necessário ter alguém cuidando o material que lá ficava depositado, a fim de evitar que o roubassem na calada da noite. A feliz coincidência favoreceu-nos de modo extraordinário, pois, diante disto, o pastor decidiu remanejar para aquele local o irmão Clemente, que era diácono e o zelador da sede ainda em uso, convidando-nos a ocupar as peças que lhe serviam de moradia nessa sede. Eram pequenas, mas ele abriria mão de mais uma sala onde se lecionava o evangelho para um grupinho de crianças na escola dominical, e onde também estavam sendo guardados alguns sacos de cimento naquela ocasião, para o nosso uso provisório. Foi onde, aliás, armamos o nosso quarto de dormir (todos juntos, o casal e os três filhos pequenos). Nas outras duas peças instalamos a cozinha e a sala de almoço e jantar.
     Melhor solução seria impossível. Não pagaríamos mais aluguel, não precisaríamos mais nos locomovermos de tão longe para estar no convívio com a comunidade onde já fizéramos tantas amizades, onde encontráramos ensejo de praticar a fraternidade e a que sonhávamos dedicar-nos mais e mais, por ser-nos isto tão prazeroso. O nosso compromisso seria o de zelar por aquele espaço, que no futuro seria transformado em salão de festas. Enquanto os cultos continuassem sendo ali realizados, a Neida se encarregaria da limpeza dos corredores (parte externa) e dos banheiros; a irmã "senhora Clemente" continuaria fazendo a limpeza do salão da igreja (parte interna), incluindo o palco e duas saletas contíguas, que eram usadas para atendimentos personalizados e pequenas reuniões sob as vistas do pastor titular.
     Ao procurar os motoristas proprietários de caminhões, que terceirizavam serviços para a Granero, a fim de ver quanto me cobrariam pela mudança, surpreendi-me com a disposição e até a disputa entre dois deles para fazerem-na de graça, pois era muito grande a estima que nutriam pela minha pessoa, dado o tratamento que lhes dispensara durante todo aquele tempo em que trabalhara na Empresa. "Você paga apenas uma cervejinha para os ajudantes e estamos conversados", disseram-me ambos. Valeu à pena tratar a todos da melhor maneira que pude, sempre. É bem como um amigo espírita asseverou, alguns anos mais tarde: "Como é bom ser bom". E é bem como disse um outro amigo, mais algum tempo depois: "Quem é bom para os outros, acaba sendo ainda melhor para si mesmo". ///

sábado, 18 de janeiro de 2014

21. ENQUANTO ISSO...

     Durante o período em que trabalhei na Granero, algumas coisas bem interessantes aconteceram, que marcaram nossa passagem por São Paulo. Houve um tempo, mais ou menos longo, em que eu entrava às 7:30 horas da manhã e saía da empresa mais de 10 horas da noite. O horário de almoço era restrito a uma hora apenas, que mal dava para chegar em casa, sentar-me à mesa por uns 20 minutinhos e retornar ao trabalho. À noite, quando chegava cansado do dia estafante, encontrava a Bia, com a idade entre 6 e 7 anos, e o André, entre 4 e 5, num regime natural de revesamento, como se tivessem combinado que cada um deles ficaria de plantão, dia sim e dia não, esperando o pai chegar para vê-lo. A Sílvia ainda era bebê, por isso não participava do esquema.
     Tínhamos uma vizinha, dona Ida, que sofria de alcoolismo. Ela tinha 3 filhos, uma mocinha com necessidades especiais, um rapaz, adolescente, e uma menininha da idade do André. Certa feita ela desapareceu de casa, causando grande preocupação e certo alvoroço. Era o marido e toda a vizinhança se mobilizando de um jeito ou de outro na tentativa de achá-la, talvez jogada em alguma sarjeta do bairro. Mas só depois de alguns dias o esposo soube que ela estava na casa de uma irmã, no distante bairro de Vila Ema, na zona sul da capital paulista. Mais alguns dias depois, ela retornou ao lar, bastante mudada e muito feliz, dizendo-se liberta do vício que a infelicitava. Essa irmã a havia levado a uma Igreja, onde ela fora curada do alcoolismo, "libertada do demônio pela unção divina", segundo suas próprias palavras. Toda entusiasmada, convidou-nos para irmos com ela conhecer essa Igreja. Bem, até então, nós, que éramos espíritas, não frequentávamos nenhum Centro, até porque no bairro onde morávamos, Vila Maria, não havia um sequer. Perguntamos-lhe qual era o nome dessa Igreja e ela disse que só sabia que estava escrito numa placa, na fachada da mesma, "CRUZADA NACIONAL DE EVANGELIZAÇÃO". 
     Naturalmente, por querermos dar-lhe o nosso apoio moral, incentivá-la a permanecer naquele caminho que lhe havia feito tanto bem, aceitamos o convite e a acompanhamos ao culto de domingo à noite.
     Ao chegarmos pela primeira vez ao local, fomos muito bem recepcionados pelos agentes cooperadores que se postavam à entrada e em pontos estratégicos no interior do estabelecimento religioso, dando-nos as boas vindas e indicando-nos os assentos vagos, inclusive mostrando-se solícitos para um atendimento especial em relação às crianças.
     Logo ficamos sabendo tratar-se, em realidade, da Igreja do Evangelho Quadrangular do Brasil (IEQB). Por coincidência, o meu irmão Pedro era pastor dessa mesma denominação em Viamão/Porto Alegre. Havia um coral e um grupo de jovens, postados um de cada lado do palco onde havia um púlpito para as pregações. Um e outro entoavam belos hinos de louvor, antes do início do culto propriamente dito. Depois, um pastor auxiliar ou obreiro puxava um repertório de "corinhos", dos quais todo o público participava; alguns alegres, com bate-palmas; outros mais calmos, espirituais, que faziam a gente arrepiar-se, emocionar-se, todos muito lindos.
     Voltamos com a D. Ida mais uma vez; depois ela tornou a ir para a casa da irmã, passando a frequentar a Escola Dominical, que se realizava à tarde. Mas já que estávamos gostando e éramos sempre bem recebidos, continuamos. Logo mais soubemos que a nossa vizinha havia deixado de frequentar, mas ainda assim nós permanecemos.
     Em fins de 1979, tirei a carteira de habilitação. Já em meado de 1980 com as moedas dos geladinhos tínhamos conseguido juntar uma boa quantia na caderneta de poupança. Com esse dinheiro, mais uma ajuda extra da minha sogra, compramos o nosso primeiro carro, um fusquinha 1300 ano 1967. Aí já podíamos ir aos cultos dos sábados à noite, também. Dei até um testemunho de bênção a esse respeito.
      Em agosto desse mesmo ano, recebi a notícia do falecimento de minha mãe. O joão ligou para a Empresa avisando-me, sendo que o sepultamento seria realizado às 17 horas daquele mesmo dia. Com o auxílio do gerente, efetuei a compra da passagem e embarquei num voo das 15 horas, chegando em Porto Alegre pouco depois das 16. Tomei um táxi e fui direto para o Cemitério São Miguel e Almas, onde estava sendo feito o velório. Cheguei em cima da hora para acompanhar as últimas homenagens proferidas por um padre, depois pelo meu irmão pastor e, por anuência de todos, também eu proferi um pequeno discurso. Na Igreja eu já havia participado de algumas reuniões do Grupo Missionário de Homens, que franqueavam a palavra para treinarmos fazer pregações, com vistas a futuramente nos tornarmos obreiros da palavra.
       Fiquei mais dois dias em Porto Alegre, junto de minhas irmãs Iná e Eloá, que ficaram bastante abaladas com o passamento de nossa mãezinha. Ao retornar para São Paulo, consegui uma carona em um caminhão da própria Empresa. O motorista chamava-se Salatiel e era um grande camarada. Deu-me a direção do veículo em um trecho plano da rodovia. Pude tirar uma casquinha, embora não tivesse prática nenhuma com veículo grande. Até então havia dirigido somente fusca e kombi. Foi uma experiência bastante arriscada.
      Voltando a fita, quando fomos para a Igreja, tanto eu quanto a Neida fumávamos. Assim que firmamos o compromisso de frequentá-la assiduamente, chegamos à conclusão que deveríamos nos libertar daquele vício à toa e tão pernicioso. Devo dizer que as crianças adoraram a nossa iniciativa. E já participávamos de outros encontros, já que com o carro a nossa locomoção se tornara bem mais fácil.
      Devo dizer que a minha sogra não gostava nada disto, pois achava que havíamos ficado muito fanáticos e que aquela igreja explorava a fé das pessoas, pois cobrava dízimos e pedia ofertas em todos os cultos. Nós nos adaptamos muito bem à comunidade, fazendo muitas amizades. Só não concordávamos quando o pastor ou algum obreiro falava mal do Espiritismo, que bem conhecíamos, tachando-o de obra dos demônios, religião do Diabo e coisas semelhantes e sempre negativas. Mas nós nos calávamos, respeitando a crença alheia e as opiniões de quem não conhecia o verdadeiro caráter da Doutrina Espírita. Às vezes eu dizia para algum irmão mais chegado que não era bem assim, que era muito diferente do que eles imaginavam; mas não passava disso, para não criar polêmica.
     E, assim, o tempo foi passando, sem mais acontecimentos dignos de nota, até quase o final do ano de 1980. ///
    

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

20. NA EMPRESA DE MUDANÇAS

     Depois de rapidíssimas passagens por duas outras transportadoras, Creciumense e Aurora, , fui buscar uma colocação na Empresa "Mudanças Granero", por indicação de uma cliente da Neida, mãe dos dois jovens diretores da mesma. O escritório da garagem, onde eu iria trabalhar, ficava a cerca de um quilômetro da casa onde morávamos, no Alto da Vila Maria.
      Numa época em que ainda não havia computadores de uso abrangente como os que hoje fazem parte do dia-a-dia de todas as empresas e pessoas, o gerente, sr. Élio, pediu-me para organizar um livro de controle, com a finalidade de identificar mais facilmente os destinos de alguns caminhões e/ou motoristas em viagem; ou para definir outros aspectos, como datas de coleta e entrega, e com quem estariam determinadas mudanças, em trânsito por todo o país, uma vez que a Empresa paulista atendia a todas as praças de norte a sul, muitas vezes utilizando-se de carretas que podiam levar até cinco mudanças em regime de aproveitamento, conforme as suas metragens cúbicas.
     Inicialmente, ele mesmo criou uma planilha com 6 ou 7 itens a serem registrados nesse livro de controle. À medida, porém, que as buscas por informações me eram solicitadas, fui aprimorando o sistema, por minha conta, criando símbolos e traçando novas colunas, a fim de registrar todos os dados possíveis, envolvendo cada serviço, cada veículo e cada condutor, desde o início até a entrega da carga e chegada de retorno do caminhão ao pátio. Desse modo, podia responder a qualquer questionamento que me fosse feito.
     Exemplos:
     1) Com quem está a mudança de tal cliente?
     2) Que data saiu essa mudança, em que caminhão, ou com que motorista?
     3) Qual o motorista que viajou com o caminhão de placa tal?
     4) Tal motorista viajou com qual caminhão e para onde?
     5) Que dia saiu e/ou chegou tal mudança, tal motorista, ou tal caminhão; quais os seus destinos, etc.?
     6) Quem fez a apanha ou entrega de tal mudança?
      Acontecia, muitas vezes, de um determinado motorista, que estava escalado para uma viagem, adoecer, estando já carregado o seu caminhão, tendo que outro motorista ser convocado para assumir o seu lugar; uma vez restabelecida a saúde e retornando ao trabalho, aquele motorista pegava o caminhão do colega que o substituíra na viagem e ficava fazendo os serviços locais que competia àquela viatura. Nesses casos, a pergunta poderia ser: Quem viajou com o caminhão do Fulano? Ou: O Fulano está trabalhando com qual caminhão (ou: de quem)?
      E, assim, não havia nada que me fosse perguntado que eu não pudesse responder em questão de um ou dois minutos apenas, tempo necessário para a consulta às minhas anotações.
    Além disso, fazia parte das minhas tarefas receber no balcão os cheques e dinheiro referentes ao pagamento das mudanças, trazidos pelos motoristas. Vale lembrar que na época não havia cartões de crédito. O dinheiro ia direto para o caixa do escritório local, enquanto os cheques tinham de ser relacionados e enviados o mais breve possível para o escritório central (matriz). Também era eu quem despachava os motoristas e ajudantes, fornecendo-lhes vales-refeição ou adiantamento de diárias de viagem. Acertava também as diárias dos chapas (ajudantes ou motoristas proprietários de veículos que terceirizavam seus serviços para a Empresa, sem vínculo empregatício).
     O meu relacionamento com todos esses funcionários, assim como com os colegas do escritório e o gerente da garagem, inclusive com os da portaria, do almoxarifado e da oficina de consertos, instalados no mesmo local, era o melhor possível. 
       Ingressei na Granero em 15 de janeiro de 1979 e saí em 11 de dezembro de 1980.
      Enquanto isso... ///
     

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

19. NOVAS EXPERIÊNCIAS

       No Expresso Zacharias, trabalhei de janeiro de 1977 a setembro de 1978. Inicialmente, das 17 às 23 horas; mas, na verdade, saía geralmente por volta da meia-noite, 1 hora da madrugada. Minha função era a de operador do C.P.D. (Centro de Processamento de Dados). Depois, passei a trabalhar, na mesma função, das 10 às 19 horas, porém saindo normalmente entre 20 e 21 horas.
      De vez em quando terminávamos de manifestar os caminhões lá pelas 22 horas, pois tínhamos que aguardar a chegada dos veículos carregados que vinham do Rio de Janeiro, para batermos os conhecimentos de carga dos mesmos, com mais de duzentas notas cada um. Além deles, tinha também o veículo de coletas da própria filial de São Paulo, que vinha carregado também com um número de notas fiscais superior a cem. 
       O Géferson e eu éramos os dois únicos funcionários do CPD, mas havia uma equipe de apoio, que separava as vias dos conhecimentos, grampeava-as às notas, destinava-as ao armazém para o carregamento ou remanejo das viaturas que seguiriam viagem, ao seguro, ao arquivo, entre outras providências complementares.
       Certa ocasião, numa discussão boba com o colega de sala, ele pegou da gaveta de sua escrivaninha uma arma e a apontou para mim, quase a encostando em minha testa. Despejou-me vários insultos e ameaças, enquanto eu, mentalmente, pedia socorro aos Céus, provavelmente pálido de medo. Depois de várias ofensas a minha pessoa, guardou a arma e voltou à sua atividade, em silêncio, como se nada houvesse acontecido. Suspirei, aliviado, mas com um sentimento de insegurança e estupefação, que remoía mentalmente. Isto ocorreu no período da manhã. Quando fui almoçar, contei para a Neida e disse-lhe que não tinha condições de voltar ao trabalho, pelo menos naquela tarde, pois estava abalado emocionalmente.
       Um pouco mais tarde, fui até o telefone público que havia em frente à padaria, a uns dois quarteirões de casa, e liguei para o gerente da Empresa, pedindo-lhe uma audiência em particular, expondo-lhe por alto o que havia ocorrido naquela manhã. Ficou combinada uma entrevista para o dia seguinte, bem cedo, para tratarmos do assunto.
       Após a exposição detalhada do acontecimento, ele deu-me a seguinte instrução: eu deveria sair de sua sala pela porta da gerência e adentrar ao ambiente de trabalho pela porta funcional, como se estivesse chegando de casa, agindo normalmente, para não despertar nenhuma suspeita junto ao companheiro. À tarde seríamos ambos chamados ao setor de R.H. e seríamos ambos demitidos, sem justa causa. Mas eu não deveria preocupar-me, pois na segunda-feira seguinte (isto foi numa quarta-feira) seria readmitido. Para todos os efeitos, a Empresa teria achado por bem readmitir-me, pois os novos funcionários contratados não estariam dando conta do serviço. E assim foi.
       Uns três ou quatro dias depois, ao sair do supermercado, que se situava na avenida principal do bairro, encontrei o ex-colega, que mostrou-se preocupado comigo, diante da situação, dizendo-me que já estava empregado em uma outra empresa e que poderia apresentar-me lá, se eu quisesse. Foi então que lhe contei da minha readmissão, que fora chamado na segunda-feira. Ele, então, mostrou-se muito feliz por mim. Disse que havia pensado muito em mim, na minha situação, que eu tinha dois filhos pequenos para criar e que minha esposa estava esperando outro bebê, enquanto ele não tinha família para se preocupar. Reiterou que estava muito contente com o fato de me haverem chamado de volta e ainda brincou: - "É, eles pensaram que seria mole substituir dois caras com experiência, que nem eu e você, por dois caras novos que não sabem como é que funciona aquele negócio lá... Ainda bem que eles voltaram atrás, e ainda bem que chamaram você, porque eu não iria voltar mesmo. Já tô noutra e quero mais é botar eles na justiça, a menos que façam um acordo comigo".
       De fato, haviam contratado dois rapazes, ambos mineiros, sendo que eu ficaria, a partir de então, como responsável pelo setor, que incluía os funcionários de apoio.
       Em 03 de janeiro de 1978, nascia a nossa filha Sílvia Regina. Já aí a nossa situação financeira estava bem mais equilibrada, pois além da promoção que eu recebera após aquele episódio, a Neida, mesmo durante toda a gestação, trabalhava em casa como manicure e pedicure, faturando um bom dinheiro. Além disso, ela fazia geladinhos para vender, o que nos rendia um ganho extra, que economizávamos em uma conta poupança. 
       A gravidez ocorrera de inesperado. A Neida andava se sentindo meio enfraquecida. Suspeitava-se que estivesse com certo grau de anemia, pois sentia cansaço e falta de força. Marcada a consulta médica pelo convênio com o sindicato dos empregados em empresas de transportes, ao qual eu me associara, eis que o inesquecível Dr. Salomão debochou do nosso diagnóstico leigo: -"Anemia? O que a senhora tem é um bebê nessa barriga, isto sim". 
       A notícia nos pegou de surpresa, mas, podem crer, foi uma grata surpresa. Um vizinho nosso, motorista de táxi, foi quem nos levou até o hospital maternidade para o grande evento. A Bia e o André ficaram aos cuidados da avó, que havia chegado no dia anterior. Quando a Sílvia estava completando o seu primeiro mês de vida, viajamos para Pelotas e convidamos o querido e saudoso tio Duca, irmão da D.Deloá, para padrinho de batismo, juntamente com sua e nossa grande amiga, Luíza. Foi a primeira vez que viajamos de avião. Pouco tempo depois, em junho do mesmo ano, o tio Duca veio a falecer, o que nos deixou muito consternados, inclusive diante da impossibilidade de retornarmos a Pelotas para o seu sepultamento. Recebi o telefonema na empresa, com a triste notícia, e não pude impedir que a emoção me levasse às lágrimas, pois ele era um cara muito especial, que desde o início se mostrara muito meu amigo.
       A nossa rotina prosseguia, sem novas ocorrências dignas de registro, até que algumas mudanças nos regulamentos da Empresa vieram alterá-la significativamente.
       A primeira foi com o corte da condução (uma kombi de propriedade da Empresa) que levava os funcionários em casa sempre que o expediente ultrapassava a marca das 20 horas, o que era frequente, quase que diariamente. Depois foi suspensa também a janta por conta da Empresa, aos sábados, após às 19 horas.
     Essas duas medidas encontraram uma compreensível resistência por parte da pequena equipe supervisionada por mim. Saí em sua defesa junto à gerência, mas de nada valeram os meus argumentos. Eu morava perto, mas havia um rapaz que residia em Guarulhos e os outros dois (os mineirinhos) em Santo André, na região metropolitana paulista. Cada um deles gastava no mínimo duas horas de viagem para chegar até suas respectivas residências. Com isto, o clima ficou muito ruim e o serviço passou a ser boicotado após aquele horário, comprometendo muitas vezes os carregamentos e as saídas dos caminhões para os seus destinos de viagem.
       Após um outro episódio, em que esquecemos de alimentar os equipamentos de emissão com o formulário contínuo, rigorosamente numerado, neles utilizado, e que ficava armazenado em uma sala da qual somente o gerente e o assessor de diretoria tinham as chaves de acesso, interrompendo assim o trabalho por falta do material indispensável, fui demitido, mediante a seguinte justificativa: -"Você é pago para defender os interesses da Empresa e não os dos seus subordinados. O que aconteceu ontem à noite foi uma falta grave da sua parte. Uma irresponsabilidade sua, mais do que dos seus funcionários. Nós achamos que você não está correspondendo mais às nossas expectativas, por isto o estamos demitindo".
       Diante disto, respondi apenas: -"O senhor é quem sabe". Passei no R.H. para o devido acerto de contas e fui para casa. ///