Ao chegarmos no apartamento onde residiam os amigos Vitorino e Zeni, no centro de São Paulo, ele, que voltaria em seguida para a firma onde trabalhava, pois lá não era feriado no dia dois de fevereiro, disse-me: "Agora você desce e vai até a esquina (a uns 10 metros da entrada do prédio); ali tem uma banca de jornal; você pede o Estadão (jornal O Estado de São Paulo), que vem com um encarte de classificados; aí você procura emprego. Qualquer dúvida quanto a endereços, pergunta pra Zeni, que ela te dá umas dicas".
Tomamos um choque, pois não era bem isto o que esperávamos em termos de receptividade. Eu não tinha a mínima noção de direcionamento naquela imensa cidade. Após uma pesquisa um tanto complicada, fui a uma loja de móveis e eletrodomésticos tentar uma vaga de vendedor, mas ao receber a resposta ao meu pedido de emprego, fui informado que estava com o nome cadastrado no SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito), e por isso não poderia ser admitido, a não ser que regularizasse a situação. Ora, não tinha recursos para tal providência, a não ser que começasse a trabalhar.
Uma semana depois o amigo Vitorino chegou em casa e entregou-me um cartão do Sr. Ottmar Schultz, diretor-proprietário do Expresso Cruzador, transportadora com matriz em Venâncio Aires-RS. e filial em São Paulo, numa rua bem próxima do local onde estávamos.
No dia seguinte, cedo, fui até essa empresa, conversei com o sr. Schultz e fui imediatamente admitido como funcionário do escritório. Em seguida a Empresa estaria se mudando para a Vila Maria, bairro localizado à margem da rodovia Presidente Dutra, que liga a capital paulista ao Rio de Janeiro.
Após um breve período de sufoco, em que fomos morar em um pequeno cômodo de um sobrado de propriedade do Sr. Schultz, onde já residia um colega do escritório e sua jovem esposa, que não gostava de crianças (e tínhamos duas pequenas), conseguimos uma casa para alugar no Alto da Vila Maria, a cerca de doze quarteirões da nova sede da Empresa. Ficava na rua Cecília Meireles, nº. 26.
Dividíamos uma parede com a residência contígua, do mesmo proprietário e cuja inquilina antiga era a simpática Dona Maria, que nos mostrara a casa anteriormente. Aos fundos havia uma pequena área de serviço. Ao lado direito havia um corredor, em terreno com ligeiro declive, o qual dava acesso a uma vila composta de cinco casas, situadas aos fundos da nossa, todas do mesmo senhorio, de nome Armando, uma pessoa boníssima, que cobrava os aluguéis no local, à semelhança do personagem "Seu Barriga" do programa "Chaves" do SBT.
Diante do valor do aluguel, conversei mais uma vez com o sr. Schultz e ele me garantiu um aumento salarial já para o mês seguinte. Foi ele também quem conseguiu-nos um fiador para a locação desse imóvel.
Compramos a prazo um fogão, um armário de cozinha e uma mesinha com quatro cadeiras, tudo bem simples, tendo por nosso avalista o Celso, filho do sr. Ottmar e diretor-adjunto da Empresa.
Logo mais, ao se inteirarem da nossa real situação, pois não tínhamos outros mobiliários na casa e ninguém viu nenhuma mudança sendo descarregada, o que despertou a curiosidade dos vizinhos mais próximos, a dona Maria conseguiu-nos um colchão de casal e o seu Chico, vizinho dos fundos, doou-nos um sofá semi-novo; um pouco mais tarde, uma vizinha de frente, de origem japonesa, que se tornara cliente da Neida, pois ela atendia como manicure e pedicure, deu-nos uma cama e um guarda-roupa, daqueles móveis bem antigos, mas em perfeito estado de uso, que era de sua mãe, que estava se mudando para um apartamento menor. Fui com um colega da Empresa em um Mercedinho D-608 buscá-los em um bairro distante.
Foi desta maneira que, recém-chegados em São Paulo, enfrentamos os primeiros desafios dessa nova etapa da vida, que haveria de nos trazer ainda muitas experiências.
Com dez meses apenas de Expresso Cruzador, mas já de muito tempo sentindo uma certa hostilidade por parte do gerente, o Sr. Timba, fui convidado por um ex-colega, o Jeferson, para ir trabalhar com ele noutra empresa, o Expresso Zacharias, que tinha a sua sede em São Bento do Sul-SC., e a filial paulista na mesma rua, a cerca de meia quadra do Cruzador. Nessa nova Empresa vivenciei alguns fatos interessantes, que contarei no próximo texto.
Ah! meus amigos, como é bom recordar, mesmo dos momentos de maior sufoco, pois em tudo deixamos a marca de nossa passagem e todas as coisas e pessoas contribuíram de algum modo para o que somos no presente, uma vez que é de nossas experiências, agradáveis e desagradáveis, em meio a erros e acertos, que crescemos e desenvolvemos nossa personalidade e nosso caráter. ///