quinta-feira, 17 de outubro de 2013

18. RECÉM-CHEGADOS EM SÃO PAULO

     Ao chegarmos no apartamento onde residiam os amigos Vitorino e Zeni, no centro de São Paulo, ele, que voltaria em seguida para a firma onde trabalhava, pois lá não era feriado no dia dois de fevereiro, disse-me: "Agora você desce e vai até a esquina (a uns 10 metros da entrada do prédio); ali tem uma banca de jornal; você pede o Estadão (jornal O Estado de São Paulo), que vem com um encarte de classificados; aí você procura emprego. Qualquer dúvida quanto a endereços, pergunta pra Zeni, que ela te dá umas dicas".
     Tomamos um choque, pois não era bem isto o que esperávamos em termos de receptividade. Eu não tinha a mínima noção de direcionamento naquela imensa cidade. Após uma pesquisa um tanto complicada, fui a uma loja de móveis e eletrodomésticos tentar uma vaga de vendedor, mas ao receber a resposta ao meu pedido de emprego, fui informado que estava com o nome cadastrado no SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito), e por isso não poderia ser admitido, a não ser que regularizasse a situação. Ora, não tinha recursos para tal providência, a não ser que começasse a trabalhar.
     Uma semana depois o amigo Vitorino chegou em casa e entregou-me um cartão do Sr. Ottmar Schultz, diretor-proprietário do Expresso Cruzador, transportadora com matriz em Venâncio Aires-RS. e filial em São Paulo, numa rua bem próxima do local onde estávamos.
     No dia seguinte, cedo, fui até essa empresa, conversei com o sr. Schultz e fui imediatamente admitido como funcionário do escritório. Em seguida a Empresa estaria se mudando para a Vila Maria, bairro localizado à margem da rodovia Presidente Dutra, que liga a capital paulista ao Rio de Janeiro.
     Após um breve período de sufoco, em que fomos morar em um pequeno cômodo de um sobrado de propriedade do Sr. Schultz, onde já residia um colega do escritório e sua jovem esposa, que não gostava de crianças (e tínhamos duas pequenas), conseguimos uma casa para alugar no Alto da Vila Maria, a cerca de doze quarteirões da nova sede da Empresa. Ficava na rua Cecília Meireles, nº. 26.
     Dividíamos uma parede com a residência contígua, do mesmo proprietário e cuja inquilina antiga era a simpática Dona Maria, que nos mostrara a casa anteriormente. Aos fundos havia uma pequena área de serviço. Ao lado direito havia um corredor, em terreno com ligeiro declive, o qual dava acesso a uma vila composta de cinco casas, situadas aos fundos da nossa, todas do mesmo senhorio, de nome Armando, uma pessoa boníssima, que cobrava os aluguéis no local, à semelhança do personagem "Seu Barriga" do programa "Chaves" do SBT.
     Diante do valor do aluguel, conversei mais uma vez com o sr. Schultz e ele me garantiu um aumento salarial já para o mês seguinte. Foi ele também quem conseguiu-nos um fiador para a locação desse imóvel.
     Compramos a prazo um fogão, um armário de cozinha e uma mesinha com quatro cadeiras, tudo bem simples, tendo por nosso avalista o Celso, filho do sr. Ottmar e diretor-adjunto da Empresa.
     Logo mais, ao se inteirarem da nossa real situação, pois não tínhamos outros mobiliários na casa e ninguém viu nenhuma mudança sendo descarregada, o que despertou a curiosidade dos vizinhos mais próximos, a dona Maria conseguiu-nos um colchão de casal e o seu Chico, vizinho dos fundos, doou-nos um sofá semi-novo; um pouco mais tarde, uma vizinha de frente, de origem japonesa, que se tornara cliente da Neida, pois ela atendia como manicure e pedicure, deu-nos uma cama e um guarda-roupa, daqueles móveis bem antigos, mas em perfeito estado de uso, que era de sua mãe, que estava se mudando para um apartamento menor. Fui com um colega da Empresa em um Mercedinho D-608 buscá-los em um bairro distante.
     Foi desta maneira que, recém-chegados em São Paulo, enfrentamos os primeiros desafios dessa nova etapa da vida, que haveria de nos trazer ainda muitas experiências.
     Com dez meses apenas de Expresso Cruzador, mas já de muito tempo sentindo uma certa hostilidade por parte do gerente, o Sr. Timba, fui convidado por um ex-colega, o Jeferson, para ir trabalhar com ele noutra empresa, o Expresso Zacharias, que tinha a sua sede em São Bento do Sul-SC., e a filial paulista na mesma rua, a cerca de meia quadra do Cruzador. Nessa nova Empresa vivenciei alguns fatos interessantes, que contarei no próximo texto. 
     Ah! meus amigos, como é bom recordar, mesmo dos momentos de maior sufoco, pois em tudo deixamos a marca de nossa passagem e todas as coisas e pessoas contribuíram de algum modo para o que somos no presente, uma vez que é de nossas experiências, agradáveis e desagradáveis, em meio a erros e acertos, que crescemos e desenvolvemos nossa personalidade e nosso caráter. ///
     

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

17. MUDANÇA PARA SÃO PAULO

     Vi alguns colegas saírem da loja para trabalhar em fábricas moveleiras ou em representações, com venda ao comércio varejista de móveis. Parecia que todos eles estavam se dando bem. O trabalho, na verdade, era só o de visitar as redes lojistas para recolher os pedidos. E o segredo do sucesso era apenas saber agradar aos vendedores para que eles direcionassem o interesse dos clientes para as linhas de produtos daquele determinado fabricante ou representante. Bá, era tudo o que eu queria.
     Teve um colega que foi trabalhar na Sharp, empresa japonesa que se lançara, naquela década de 70, no mercado brasileiro, com uma nova modalidade de vendas: a oferta de televisores coloridos e aparelhos de som de última geração diretamente ao consumidor final. A Empresa indicava os clientes a serem visitados. Por insistência do ex-colega e amigo, fui até o escritório dessa Empresa fazer a ficha de solicitação de emprego e um teste. Isto foi numa sexta-feira, e pediram-me para estar lá na segunda-feira às 8 h 30 min., para saber o resultado. Nesse dia, aprontei-me sem pressa e me dirigi ao local, lá chegando às 9 h e 15 minutos. O rapaz pegou a minha ficha e falou-me que havia sido aprovado. "No entanto  -  disse ele  -  era para você estar aqui às 8 horas e 30 minutos e você está bastante atrasado. Sabe como é... esta é uma empresa japonesa e uma das exigências aqui é a pontualidade. Por isto, não será possível admiti-lo, pelo menos desta vez. Fica para outra oportunidade".
     Que baita lição, heim?
     Mas eu estava decidido a sair do J.H.Santos e partir para a venda externa, que a meu ver me daria um ganho muito maior. Conversei com o senhor "M" a respeito disto e ele ficou de ver o que poderia fazer para me ajudar.
     Dias depois veio ele com um cartão de visita do diretor de uma Empresa de representação de uma famosa marca de móveis para escritório. Fui conferir e minha admissão foi imediata. Solicitei a minha demissão da loja e aventurei-me na nova modalidade de trabalho. Porém, na ânsia pela mudança, não me informei direito de pormenores, e só ao iniciar o treinamento, acompanhando um colega que já trabalhava no ramo havia uns dois anos, foi que descobri que se tratava de venda direta ao consumidor, isto é, diretamente para escritórios empresariais, e com região fechada, sendo que a minha era tipicamente formada por empresas de transportes, cujos escritórios, na maioria dos casos, compunha-se de duas ou três escrivaninhas e respectivas cadeiras, cujos gerentes não faziam muita questão de renovar. Além do que, a minha própria insegurança laborava contra mim. E foi assim que, com um mês de péssima experiência, percebi, ou melhor, confirmei que havia tomado o bonde errado e resolvi saltar antes que fosse tarde demais.
     Ainda na pura ansiedade, aventurei-me como vendedor agora de um Cursinho de Inglês, cuja clientela era indicada por uma pesquisa realizada anteriormente por outra equipe.
     O André já estava com quase um ano e a Bia com quase três, quando, mais uma vez sem grandes perspectivas, aproveitamos um final de semana prolongado para irmos a Pelotas visitar a minha sogra. No terceiro dia, creio, houve uma discussão, em que, deitada no sofá da sala às escuras e chorando, minha sogra acusava a filha de lhe haver causado um grande desgosto. Dizia ela que sabia que não iria viver por muito tempo e responsabilizava a Neida pelo que quer que lhe acontecesse.
     Diante disto, minha esposa chamou-me e às crianças e determinou que iríamos embora imediatamente, no primeiro ônibus que saísse para Porto Alegre.
     Na sequência dos acontecimentos, propôs-me uma mudança radical, ou seja, a possibilidade de irmos para São Paulo. 
     Tínhamos um casal de amigos morando naquela cidade e com quem costumávamos corresponder-nos.
     Escrevemos então uma carta para o Vitorino e a Zeni, contando da nossa decisão e solicitando-lhes ajuda. Responderam ambos que poderíamos contar com eles, aconselhando-nos a vender o máximo de móveis e eletrodomésticos possível, pois uma mudança custaria muito caro, além de não possuírem um local apropriado para guardá-los até que conseguíssemos alugar uma casa para morar.
     Eu estava indo sem emprego garantido, confiante apenas na força que receberia do amigo Vitorino, que, segundo ele mesmo, era muito bem relacionado com o empresariado do ramo de transportes, no qual ele trabalhava.
     Assim foi que no dia dois de fevereiro de 1976, com o André completando o seu primeiro ano de vida, desembarcamos na antiga rodoviária paulista, no centro da mega capital, já nessa época denominada "selva de pedra". ///

domingo, 6 de outubro de 2013

16. SITUAÇÃO DIFÍCIL NA SEGUNDA GRAVIDEZ

     Transcorria o ano de 1974 e a situação financeira era das mais graves, quando apresentou-se, de surpresa, a segunda gravidez. Diante das perspectivas sombrias, pois mal dávamos conta da alimentação apropriada para a pequena Bia, com um ano e pouco de vida, e dado o pouco tempo ainda de gestação, pois a descoberta por meio dos sintomas peculiares foi bastante adiantada, com no máximo três semanas, alguém até chegou a aconselhar-nos a interrompê-la, pois era visível o fato de que a situação só tendia a piorar. A Neida chegou a chorar diante desse aconselhamento, pois não teria esta coragem.
     Algum tempo depois, num daqueles momentos de maior aperto, quando tínhamos apenas um café preto e um pedaço de pão, sentindo o cheirinho de comida vindo de outro apartamento, bateu uma certa duvida, que a fez pensar: "será que a gente agiu certo, em continuar? Será que aquela pessoa não estava certa, quando nos deu aquele conselho?" sobreveio-lhe então um sonho, em que estava em uma praça com uma crianças brincando e passando por ela. Havia também um portão grande, como de uma escola. Desse portão saiu um menininho e veio correndo até onde ela estava, entregando-lhe um bilhetinho, no qual estava escrito: "Por favor, fique comigo; eu vou ser seu filho. Eu lhe amo muito".
     Ao acordar desse sonho, emocionada, eis que a minha companheira obteve e transmitiu-me a certeza de que seria mãe daquele menino, que lhe entregara o bilhetinho sorrindo, com um dentinho quebrado à mostra. E como sempre acreditamos na vida, não só após a morte, como também antes desta vida que temos no mundo, vimos esse sonho como um sinal  claro e evidente de que iríamos receber aquele espírito que estava designado para o nosso convívio, confiantes de que Deus nos haveria de suprir as necessidades para criá-lo juntamente com a filhinha que já fazia parte da nossa felicidade conjugal.
     No J.H.Santos, eu passava por um período de baixa produtividade, embora dos dez vendedores da loja eu me mantivesse sempre entre o 4º. e o 6º. lugares em vendas semanais, o que era até louvável para um cara como eu, tímido por natureza.
     Certa vez, quando estávamos em uma reunião de final de expediente com o gerente Rubem, o vigia recebeu, já na porta de saída dos funcionários, pois que a loja já estava fechada, um casal acompanhado de um outro cidadão, que depois vim a saber ser tratar-se de um intérprete do casal que era argentino, querendo pesquisar preços de móveis. Foi um tal de "eu não vou", "nem eu", "eu já encerrei minhas vendas por hoje", que levou o Rubem a indicar-me como "voluntário" para atender aquelas pessoas. Mais por consideração a ele do que por vontade própria, embora tivesse vendido pouco naquele dia, fui atendê-las, esperando que talvez me rendesse uma venda a mais, apesar do horário avançado. Depois de algumas indagações sobre preços e produtos, fiquei sabendo que se tratava de um executivo de uma grande empresa de Buenos Aires, o qual estava se transferindo para a sucursal de Porto Alegre e desejava mobiliar todo o apartamento comprando o máximo que pudesse em uma única loja. Depois de mais de uma hora de atendimento, essas pessoas foram embora com a promessa de me procurarem no dia seguinte caso voltassem para efetuar a compra. Queriam apenas um tempo para analisar a pesquisa feita naquela e noutras lojas, mas já adiantando que haviam gostado muito do que viram e do meu atendimento. E não é que voltaram mesmo? Vendi-lhes o montante de CR$ 45.000,00 e ainda dei de bandeja para uma colega do bazar um faturamento de quase CR$ 5.000,00. Isto já com todos os descontos possíveis para o pagamento à vista.
     A minha média semanal girava entre CR$ 55.000,00 a CR$ 60.000,00. Aquela foi considerada a maior venda individual de toda a história e de todas as lojas da rede J.H.Santos.
     Não obstante esse presentão que me fora dado pelo destino, ou pela circunstância, fechei a semana com um total acanhado de CR$ 59.000,00 em faturamentos. Parecia até que era eu quem não queria vender mais nada e superar a minha média normal. A breve euforia daquele momento especial de destaque foi abafada pela decepção do resultado final daquela semana igual a todas as demais, que antes deveria ter-me conduzido a um brilhante 1º. lugar. E olhe que o primeiro lugar daquela semana não ultrapassou a casa dos 70 mil, ficando o segundo com menos de 65 mil. Com a minha média normal somada àquela venda única eu deveria ter ido a no mínimo uns 90 mil cruzeiros. E vale lembrar que nessa época não havia cartão de crédito, nem venda por Internet. Era tudo ali na loja, no carnet ou à vista mesmo.
     Um colega meu, o Saldanha, a quem dei uma força, intercedendo junto ao gerente para que o promovesse a vendedor, pois era vigia da loja, e deu muito certo na nova função, chegou a dizer-me, em certa ocasião, que parecia até que eu fugia dos clientes, pois quando algum cliente se aproximava da porta, onde às vezes ficávamos jogando conversa fora, sem mais nem menos eu migrava lá para o fundo da loja. Algo me cegava e eu não notava a aproximação do cliente que acabava sendo atendido por ele ou por outro vendedor. Segundo ele, eu deveria estar com "algum encosto espiritual", que não queria que eu progredisse. Na época não estávamos nem tomando passes, muito menos frequentando algum Centro Espírita, o que provavelmente nos fazia mais vulneráveis a influências espirituais negativas. 
     E foi nesse clima que transcorreu toda a gestação do nosso filho André, cujo nascimento se deu em 02 de fevereiro de 1975, no Hospital Maternidade Divina Providência, no bairro Glória, junto à famosa Gruta.
     Nas escolha do seu nome também tivemos uma pequena dúvida e a Neida sonhou novamente (isto antes do seu nascimento, é claro): que íamos juntos por um corredor como de um hospital e de repente deparamo-nos com alguns quadros fixados em uma parede. Num deles estava a foto de um menino, que chamou a atenção da Neida e ela mostrou-me, dizendo: "olha aqui, este é o menino do meu sonho". Sim, era um sonho em que ela recordava de outro sonho. Isto é normal acontecer com muita gente e com certa frequência até. E sob aquele quadro estava gravado um nome: André Luiz. A minha dúvida era quanto a dar ao meu filho um nome já tão conhecido, o mesmo de um dos grandes escritores espirituais da psicografia de Chico Xavier. Eu considerava isto a mesma coisa que dar a um filho um nome como de Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Paulo Sérgio, etc. (cantores da época). Mas, no final da conta, ele foi registrado como André Luís (com "s" no final, porque o cartório assim o determinou).
     E a história prossegue no próximo capítulo. Até já... ///