terça-feira, 30 de julho de 2013

06. BOBEIRAS DE UM ADOLESCENTE

     Com onze anos concluí o curso primário (fundamental), passei no "exame de admissão" ao ginásio (ensino médio) e fui matriculado no afamadíssimo Colégio Estadual Júlio de Castilhos, popularmente conhecido por Julinho. Com isso, passei a viajar de bonde para lá e para cá, ou seja, naquele veículo elétrico importado que rodava sobre trilhos e tinha, na época, quatro portas, todas abertas. Cansei de me dependurar numa das portas de trás, segurando-me no pega-mão e, depois de uma corridinha, saltando com os pés no estribo. Uma manobra perigosa, mas muito legal para o meu senso de guri. Tomava a condução na avenida Bento Gonçalves, quase esquina com a rua Barão do Amazonas e descia na avenida da Azenha, quase no seu encontro com a João Pessoa, em frente à praça Piratini, onde fica, ainda, o referido estabelecimento educacional. Uma vez, na volta do colégio, uma parada antes daquela em que eu desembarcaria, o bonde arrancou, eu corri e pulei, como sempre fazia, mas errei o pé e fiquei pendurado, agarrado ao pega-mão, até que não aguentei a ação da gravidade e me larguei, rolando para o meio dos trilhos. Como estava na parte traseira do veículo, sofri apenas algumas escoriações leves. Mas o susto foi grande e aprendi a lição.
     No primeiro dia de aula, o meu pai acompanhou-me até o colégio. Enquanto buscava saber em que turma ficaria, um menino veio ao meu encontro e acabamos nos identificando como colegas da mesma classe. Em meio ao nosso bate-papo, ele apontou na direção do meu pai e perguntou-me: -"É teu avô?" Constrangido, respondi-lhe: -"Não, é meu pai". Ele fez um ar de surpresa e eu ruborizei, envergonhado. Eu completaria, em abril, apenas doze anos de idade; meu pai já tinha sessenta anos e ostentava os cabelos brancos sobre a meia calvície. Bem poderia mesmo ser meu avô, na aparência. Por isto, sem confessar-lhe o verdadeiro motivo, pedi que não me levasse mais até a porta do colégio. Insisti que não precisava, pois já aprendera o caminho e não teria nenhum embaraço para chegar até ali. Após muitas recomendações, ele e minha mãe consentiram que eu fosse só.
      Engraçado: hoje estou com 64 anos e tenho um filho com 16 (o Carlos Eduardo, que completará 17 agora em agosto/2013). Portanto, quando eu estava com 60, ele estava exatamente com 12 anos. E já ouvi pessoas perguntando a ele se eu seria seu avô, como também muita gente já me perguntou, indicando-o: -"É seu neto?", a que respondo, agora com muita naturalidade: -"Não, é meu filho".
     Passado o primeiro semestre e encontradas as primeiras dificuldades no novo sistema de distribuição de matérias, olhem só a besteira que eu fiz: incentivado por um colega, comecei a gazear (matar, cabular) as aulas, especialmente de algumas matérias com que não tinha muita afinidade. Tínhamos mais ou menos as mesmas dificuldades, por isto um servia de companhia ao outro, burlando a vigilância e evadindo-nos do prédio, ou, muitas vezes, nem chegando a entrar, rumando para o Parque Farroupilha, onde fazíamos hora, para voltarmos para as nossas casas, como se houvéssemos estado na sala de aula o tempo todo.
     Tínhamos uma caderneta de presenças, onde eram carimbadas as palavras "COMPARECEU", ou "FALTOU", com tinta azul. Pois vejam só: o meu colega descobriu que escrevendo em letras maiúsculas, com uma caneta azul, a palavra "COMPARECEU", numa borracha branca, comprimindo-a sobre a linha correspondente ao dia da semana, na caderneta, ficava exatamente como se houvesse sido carimbada. Ninguém percebia a fraude. Assim o fizemos muitas vezes e o resultado foi que reprovamos e tivemos de repetir o ano. Juntos novamente, não tardou para que começássemos a aprontar tudo de novo.
     Em casa, inventava mil razões para não estar bem em certas matérias. Meus pais não conseguiam entender o porquê do meu duplo fracasso, já que novamente reprovei na mesma série.
     O mano João, dois anos mais velho que eu, tendo reprovado no curso primário, chegara ao ginásio quase junto comigo. Só que, por ter mais idade, foi direto para as aulas noturnas, no Ginásio Estadual Ignácio Montanha, a umas duas quadras do Julinho. Desistiu, depois de completar a 2ª série.
     Solicitei aos meus pais, já que não poderia mais frequentar o turno matinal, a minha transferência para o mesmo colégio do meu irmão, à noite, no que fui prontamente atendido.
     Aí, sim, voltei a ser aquele estudante aplicado, esforçado, interessado, como antes sempre havia sido. Agora, passava por média em quase todas as matérias, completando todas as séries ginasiais e chegando até ao final do primeiro ano do curso científico (2º grau, ou superior).
     Essa história, entretanto, custou-me muito caro e estou pagando, com juros e correções, pelos dois anos perdidos, até hoje. Desaconselho qualquer jovem que esteja fazendo algo parecido, ainda que seja simplesmente negligenciar os estudos, pois, lá na frente, no seu futuro, ele sentirá os efeitos negativos dessa negligência. Na sequência dessas minhas recordações, o leitor irá compreender a extensão do dano que a mim mesmo causei.
     Para quem me conhece, fica talvez a surpresa de que nem sempre fui um bom menino. Confesso, no entanto, para decepção geral, que também cometi erros clamorosos já na fase adulta, especialmente no que se refere às atividades profissionais, como irei narrar oportunamente. ///


segunda-feira, 29 de julho de 2013

05. UMA DESCOBERTA PARA A VIDA INTEIRA

     Aos domingos eu me arrumava e ia sozinho para a Igreja, mais com o intuito de rezar do que assistir a missa. Também ia garimpar mais um santinho para a minha coleção, é claro.
     Bem pertinho dali morava uma amiga de meus pais, madrinha do meu irmão Pedro, a quem chamávamos de tia Cota. Mais tarde foi promovida a vó Cota. Era viúva, tinha 3 filhos, sendo um homem e duas mulheres, e havia desenvolvido a mediunidade no Centro Espírita Dias da Cruz, situado na avenida Azenha. Aplicava passes em sua própria residência, somente. Fazia-o incorporada, atendendo apenas a um número limitado de pessoas conhecidas ou indicadas por estas, gratuitamente. Seguidamente nós íamos tomar passe e receber orientações dos bons Espíritos que se manifestavam por seu intermédio.
     Meu pai (João Batista Leal) era o único do nosso grupo familiar que entendia de Espiritismo. Era o doutrinador oficial, quando havia manifestações de espíritos sofredores ou obsessores. Já minha mãe (Olinda dos Santos Leal), mais católica fervorosa do que espírita, sabia do Espiritismo apenas o básico. Nós, crianças, embora confiássemos nos bons conselhos que recebíamos dos "guias da Vó Cota", não dávamos muita importância a tudo isso, achando tudo muito natural, mas sem nenhuma análise crítica ou teórica do que víamos e ouvíamos. Na verdade, o único dos seis irmãos que, em dado momento, passou a buscar conhecimento e a racionalizar sobre conceitos religiosos, era eu mesmo.
     Lembro-me que o mano Pedro casou-se, por essa ocasião, com a minha querida cunhada Eugênia, natural de Quaraí (RS), membro da Igreja Metodista. Uma vez fui com eles à igreja e gostei muito dos hinos que lá eram entoados. Também gostei da pregação do pastor, simples e bem audível.
     Corria o ano de 1959 (eu nascera em 1949), quando recebi o opúsculo contendo o Evangelho Segundo São Lucas, que, meio desconfiado ainda, comecei logo a ler. Fiquei muitíssimo impressionado com a belíssima história, recheada de maravilhosos ensinamentos e grandes feitos, de Jesus, o mestre já aceito por mim como Salvador dos homens, que viera a Terra para resgatar nossos pecados. Dessa leitura resultou que conversei com meu pai e lhe pedi, para o natal que se aproximava, uma Bíblia de presente, no lugar de qualquer brinquedo.
     Fui atendido e, tão logo chegou em minhas mãos a Bíblia novinha em folha, passei a ler o primeiro livro, "Gênesis", de Moisés, com muita atenção. Não tardou, porém, o surgimento de algumas dúvidas, ante a constatação de certas incoerências, entre as quais, destacava-se o casamento de Caim, depois de este haver assassinado seu único irmão, Abel. Ora, pensava eu, como teria ele casado, se não havia outra família sobre a face da Terra, além dele mesmo e seus pais, Adão e Eva?
     Consultei meu pai a respeito dessas dúvidas e confusões e ele me falou sobre o sentido simbólico da história contada por Moisés ao seu povo, tanto no que se referia aos primeiros habitantes da Terra, quanto às origens do planeta, do Universos e da vida. Teceu ele várias considerações, em meio às minhas insistentes indagações, até chegar às explicações dadas pela Doutrina Espírita, que a tudo esclarecia, dada a sua natureza científica e filosófica.
     Enquanto me elucidava, recorreu a alguns trechos do livro A GÊNESE, OS MILAGRES E AS PREDIÇÕES SEGUNDO O ESPIRITISMO, da obra codificadora de Allan Kardec, o qual tinha guardado, entre outros, em uma velha estante em seu quarto de dormir. Meu pai acabara, assim, de apresentar-me uma nova e cativante religião, que abarcava os conceitos católicos e expandia a visão para novos e claríssimos horizontes da espiritualidade que eu já buscava intimamente, embora sem a consciência exata disto.
     Depois de ler mais um pouco o "Gênesis" bíblico, já não sopitando a curiosidade e a expectativa de novos conhecimentos, tratei logo de iniciar a leitura da referida obra kardequiana, que a cada página mais me assombrava positivamente, como se eu me recordasse de coisas já sabidas, que provavelmente estavam adormecidas em meu subconsciente.
     Solicitei ao meu pai, então, que me levasse a um centro espírita, ao que ele acedeu prontamente. Fomos em um que não recordo o nome nem a localização. Em seguida fomos ao Centro Espírita Allan Kardec, situado na rua General Andrade Neves (nº. 60), no centro de Porto Alegre. A partir de então, troquei as missas dominicais pela Evangelização nessa casa espírita, que é a mais antiga do estado dos gaúchos. Passei a adquirir o jornalzinho "Luz de Damasco" e segui lendo outros livros espíritas, que me iluminavam a mente cada vez mais. 
     Tive, mais tarde, outras experiências religiosas, que irei narrar ao longo destes textos, oportunamente. ///
   

domingo, 28 de julho de 2013

04.O MENINO QUE QUERIA SER PADRE

     Eu, que iniciara minha formação escolar aos 7 anos, como era costume nesse tempo, estava agora, aos 10 anos, no 4º. ano do curso primário (hoje fundamental), passando de ano a ano por méritos próprios, de acordo com as normas educacionais vigentes.
     Fazia parte da grade escolar a educação religiosa, diga-se de passagem: católica, ministrada por padres, que vinham até a escola pública em seu traje típico, marrom, falando com aquele sotaque latino, bondoso.
     Aos alunos que correspondiam bem aos seus ensinamentos, demonstrando-o nas provinhas orais feitas de improviso, davam como prêmio um santinho (de papel), cada qual mais lindo. Também costumavam incentivar os alunos a participarem das missas em uma das igrejas mais próximas, que eram a de Santo Antônio e a de São Jorge, equidistantes em relação ao Grupo Escolar Afonso Guerreiro Lima, instalado havia apenas um ano em terreno existente em frente à minha residência, pela rua Guilherme Alves, onde meus irmãos e eu havíamos sido matriculados desde a sua construção.
     Assim, passei a frequentar a Igreja Santo Antônio do Partenon, onde eu havia sido batizado, distante cerca de um quilômetro do local. Pouco entendia das pregações, por causa do eco que se gerava no interior daquele tipo de edificação, confundindo minha audição, que nunca foi das melhores. No entanto, dedicava-me a rezar pela minha família, por todos os meus parentes e vizinhos, além de pedir, com fé, algumas bênçãos para mim mesmo.
     A melhor parte, porém, ficava por conta da hora das ofertas, porquanto, ao alçá-las, ganhava sempre um santinho, que ia somar-se aos que ganhava na escola e que já faziam parte de uma coleção.
     Por essa época, eu alimentava secretamente o sonho de me tornar padre, ansiando ajudar as pessoas com minhas orações. O sacerdócio católico parecia-me uma missão divina muito linda, muito gratificante.
     Ah! Mas havia um problema, que me fazia às vezes vacilar. É que, ao mesmo tempo, eu sonhava com um lar, no qual eu teria ao meu lado uma doce companheira, uma esposa amorosa e amada, e muitos filhos.
    O dilema era grande: ser padre ou chefe de família, já que, pela lei da Igreja, padre não pode casar?
      Aos dez anos de idade os meninos já olhavam para as meninas. Embora super tímido, não tinha como não eleger, entre as coleguinhas de aula, ou entre as menininhas da vizinhança, uma que seria meu par ideal, quando crescêssemos, naturalmente.
     Um certo dia, ao dar a oferta na igreja, para minha decepção, em vez de mais um santinho para a minha coleção, recebi um opúsculo, com letras miúdas e sem sequer uma estampa de santo na capa ou em alguma de suas muitas páginas. Tratava-se de O Evangelho Segundo São Lucas.
     Ao começar a lê-lo, no entanto, a curiosidade foi tomando conta de mim, uma vez que ali era narrada, com detalhes, a história de Jesus, o Salvador, a quem eu gostaria de servir de alguma forma, daí a insistente ideia de vir a ser padre, quando me tornasse adulto.
     Em casa, quando lia trechos do Evangelho em voz alta, meus irmãos comentavam, devido a pronúncia dos verbos na terceira pessoa do plural e dos "ES", muito bem articulados com aquele sotaque latino dos professores de religião: -"Este guri parece mesmo um padre", ou: -"O Evoti tem todo o jeito de que vai ser padre quando crescer". E isto em vez de me chatear, magoar ou ofender, ao contrário, enchia a minha bola e alimentava a minha certeza de que tinha a vocação sacerdotal.
     Apenas para que não fique uma imagem tão sóbria ou soturna dessa fase da minha infância, devo acrescentar, nestas memórias, a lembrança de que também confeccionava e soltava pandorgas (pipas, arraias), jogava bolitas (bolinhas de gude), andava de patinete e de carrinho-de-lomba, que eram feitos com madeira bruta e com rodas de rolimã (rolamento), junto com os meus irmãos, primos e amigos daquela faixa etária.
     Eu posso até ter sido muito enjoado e um pouco avançado em relação aos pensamentos e atitudes próprios da idade, mas tive infância, sim, podem apostar. ///
   

sexta-feira, 26 de julho de 2013

03. BRINCANDO SOZINHO

     Em torno dos meus oito, nove anos de idade, um tanto retraído, preferia ficar a sós comigo mesmo, brincando sozinho por horas a fio. Tinha certa predileção por ônibus e micro-ônibus a qualquer outro tipo de veículo. Então, tinha dois tipos de brincadeira que costumava fazer, esquivando-me de qualquer companhia. Uma delas era pegar um velho carrinho de bebê, já sem lona, só a carcaça de ferro, deitá-lo em um cantinho do pátio, fazendo de uma das quatro rodas o volante do veículo que eu dirigia, sentado numa cadeira. Com um pedaço de pau fincado no chão fazia a palanca do câmbio, com que imaginava as trocas de marcha. Três pedras estrategicamente colocadas sob os meus pés compunham os pedais do acelerador, do freio e da embreagem. Com um movimento dos lábios e a emissão de um som característico, imitava o ruído do motor e mentalmente percorria o trajeto da antiga linha "Santo Antônio", hoje substituída pela "Caldre e Fião", que servia o nosso bairro. Ia do ponto final, que era na rua Caldre e Fião, esquina com a Barão do Amazonas, até a avenida da Azenha, trecho que eu conhecia bem, parando em cada ponto de embarque e desembarque, imaginando tudo detalhadamente.
     A outra brincadeira também tinha a ver com transporte de passageiros. Com efeito, talhava alguns pedacinhos de ripa de madeira, confeccionando uns "onibusinhos", com janelinhas desenhadas à caneta e as cores da empresa concessionária da época pintadas a lápis de cor. Os toquinhos não possuíam rodas, mas para mim era como se as tivessem. Nos fundos do pátio, próximo à cerca e ao portão de acesso pela rua Guilherme Alves, com uma tabuinha eu desenhava no solo uma cidade imaginária, com várias ruas paralelas, transversais, curvas, etc. Depois de pronta, determinava um itinerário e então conduzia as pequenas viaturas para lá e para cá, com direito a um ponto de partida e um ponto final, passando por várias paradas.
     Ainda dessa mesma fase da minha vida, lembro-me de colecionar carteiras de cigarros. Das marcas existentes, retenho na lembrança as seguintes: Continental, Hollyood, Mistura Fina, Urca, Marrocos, Pullmann, Belmont, Saratoga, LS, Minister...
      Os gibis que eu mais gostava de ler eram estes: Bolinha, Luluzinha, Brasinha, Gasparzinho, Tom & Jerry, O Pato Donald, Tio Patinhas, Mickey, Zorro, Jene Autry e Roy Rogers.
     Jogar bola com a molecada da minha faixa etária não fazia parte do meu "cardápio" de brincadeiras, pois sabia que iriam tirar sarro do meu "pé torto", e eu não suportava críticas e zombarias.
     Às vezes, dependendo dos participantes, animava-me a brincar de mocinho e bandido, assim como de esconde-esconde.
     Desse modo cheguei aos meus dez anos de vida, de onde extraio as lembranças mais gratas e indeléveis da infância agora longínqua.
     Até hoje, quando como um doce de abóbora, emerge em minha memória o dia do meu primeiro decenário, em que minha mãe fez um, muito gostoso, para comemorar a data, quando vieram abraçar-me a tia Vadina, a tia Lourdes e a tia Lídia, também irmã de minha mãe. Além delas, uma prima por parte do pai, a Geni, que era enfermeira da Cruz Vermelha, chegou de surpresa e me deu um lindo balão (bexiga) amarelo com listras e pintas vermelhas e azuis.
     Foi um dia muito alegre aquele, em que fui o centro das atenções dessas pessoas queridas, hoje saudosas.
     Não muito tempo depois, não consigo precisar quanto, a prima Geni veio a falecer, tão jovem ainda, por complicações de uma gravidez da qual ninguém tivera notícia até o dia do triste acontecimento, que chocou a todos nós, adultos e crianças.
     O velório foi realizado na nossa casa, já que ela morava sozinha e os demais parentes do lado paterno moravam em Santa Maria e região, a cerca de 300 quilômetros da Capital, o que, para a época, representava uma distância considerável, o que os impediu de comparecerem ao féretro. 
     Foi a primeira vez que vi uma pessoa morta bem de perto. Por sinal, uma pessoa muito querida, embora os poucos contatos que tivemos, porquanto de vez em quando ela vinha ver os tios e era sempre muito amável para conosco, seu primos. Lembro-me de haver sonhado com ela, na mesma noite do velório, aparecendo-me viva e sorridente, como a se despedir de todos ali presentes, sem dor e sem mágoas, na partida para a outra vida.
     Sabe a frase: "saudades eternas"? Há casos em que é absolutamente verdadeira, e este é um deles. ///

02. OS MEUS PRÓXIMOS CINCO ANOS

     Depois de nossa chegada em Porto Alegre, até os meus dez anos de idade, embora fosse considerado motivo de orgulho para os meus pais, pois diziam que eu era muito inteligente e, de fato, gostava de estudar e de ler, devo ter sido um menino muito chato, quase insuportável. Começa que eu era demasiado tímido e bastante sensível. Na verdade, eu era mesmo muito susceptível. A qualquer pequena contrariedade já fazia um beiço de índio botocudo e desatava a chorar. Meus irmãos, primos e amiguinhos da vizinhança mexiam comigo só para me ver descontrolado. Chamavam-me, então, de manteiga derretida, o que fustigava ainda mais a minha baixa estima, fazendo-me desmanchar em lágrimas e soluços, indo dar queixa deles para a minha mãe, que sempre me acudia e me acalmava com palavras carinhosas e incentivadoras.
     Na escola, responder à chamada era um dos piores momentos. Mas as professoras sempre elogiavam o meu comportamento exemplar e a minha facilidade de aprendizado. Num bom trocadilho, em língua portuguesa eu tirava tudo de letra, enquanto em matemática eu só tirava 10.
     Minha tia Oswaldina, a tia Vadina, esposa do tio Inácio, que era barbeiro, quando fazia alguma festa em sua casa, pertinho da nossa, onde havia um enorme alpendre e bastante fartura, reunindo a família inteira de minha mãe, tios, primos e avós, pelo menos uma vez por mês, era a única pessoa que entendia as minhas manhas. Era ela, portanto, quem me servia à mesa, depois de verificar, com muita paciência e atenção, o de que eu realmente gostava e como preferia. Ela costumava dizer, em alto e bom tom: - "Deixa que eu sirvo o 'Votizinho'. Eu é que sei como é que ele gosta das coisas." E servia-me o prato de comida, o refrigerante ou suco, o café e o pão com a mistura escolhida, tudo de acordo com o meu paladar e as minhas manias de guri chato e cheio de vontades. Nem parecia que eu era filho de uma família pobre, que tomava café preto com pão seco torrado na chapa do fogão à lenha, ou mexido com farinha de mandioca e açúcar.
     Lembro-me de que os nossos uniformes escolares eram confeccionados pela mãe, com muito carinho e capricho, mas aproveitando sempre os sacos brancos de farinha de trigo que ela comprava no armazém. Usávamos alpargatas e tamancos de madeira, e as nossas cobertas de cama eram feitas com retalhos de velhos capotes militares que o pai deixava de usar.
     Por muito tempo, os banhos eram de bacia, num quartinho reservado para isto, e continuávamos usando a famosa "casinha" no quintal, que de vez em quando tinha que ser mudada de lugar, porque o buraco que servia de fossa enchia e outro era aberto para receber a latrina.
     A mana Iná já havia nascido e crescia cercada de carinho e cuidados de todos os irmãos. Uma vez, brincávamos de esconder e, em meio à brincadeira, ela sumiu. Todos saímos à sua procura, por toda parte e nada. Já havia um clima de desespero geral, quando o Valter foi checar um dos quartos da casa e a encontrou dormindo embaixo de uma das camas, onde ela se havia escondido.
     Sem geladeira e sem televisão, mas com os pais maravilhosos que tínhamos, nada parecia faltar-nos do essencial para vivermos e sermos felizes.
     Apenas os natais e as páscoas eram sempre uma incógnita para nós, crianças. É que ganhávamos brinquedos bem simples, enquanto nossos primos e amiguinhos ganhavam carrinhos de pedalar e bicicletas, entre outros presentes de valor, ou cestas recheadas de coelhos de chocolate maciço e ovos grandes, enquanto nossos ninhosinhos eram preenchidos com ovinhos pequenos, bombons e balas.
     Mas, com tudo isto, que tempos bons eram aqueles!  Que saudades! ///

quinta-feira, 25 de julho de 2013

01. LEMBRANÇAS DA PRIMEIRA INFÂNCIA

     Da minha infância primeira guardo na mente poucas e vagas lembranças. Como que envolta em branda névoa, lembro-me de uma casa de madeira, onde morávamos, na pequena cidade de General Câmara, situada à margem do Rio Taquari, na vizinhança das cidades de Taquari e São Jerônimo, no estado do Rio Grande do Sul, há poucos quilômetros da capital gaúcha. Foi nesta cidadezinha que nasceram meus irmãos Valter e Eloá, respectivamente dois e três anos mais novos que eu.
     Recordo que a rua não tinha pavimentação e que havia uma esquina perto de nossa casa. Eu devia ter cerca de 5 anos, talvez incompletos, não sei bem. O mano mais velho, Pedrinho, então com aproximadamente 15 anos, empurrava um carrinho de bebê, já fora de uso, velozmente, com meu irmão João (7 a.) e eu a bordo. Era muito divertido.
     Como o terreno tinha um ligeiro declive, havia uma escada de madeira, com cinco ou seis degraus, que dava da porta da cozinha para o pátio, na parte dos fundos da moradia. Alguns metros separavam essa escada da "casinha", chamada de privada ou latrina, mas que nós chamávamos de "patente".
     Mais ao fundo do terreno havia uma cerca de arame, limitando a propriedade locada, havendo em seguida um pequeno barranco e, depois deste, os trilhos do trem que por ali trafegava diariamente. De vez em quando íamos com o pai e a mãe passear nos trilhos e colher ervas de chás, como cidreira, carqueja, funcho, maçanilha, macela e outras.
     O fato pitoresco que marcou minha história nessa ocasião foi uma queda que sofri, rolando do primeiro ao último degrau da escada da cozinha. Fiquei sabendo depois que na época eu tinha o hábito de me finar quando chorava. Para quem não sabe o que é isto, é quando, durante o choro sentido, a criança vai liberando o ar dos pulmões (expirando), tendo, na sequência, certa dificuldade de fazê-lo retornar ao organismo. Resultado disto é que eu começava a ficar roxo, a amolecer o corpo, chegando muito próximo do desfalecimento. Quem estivesse por perto tentava imediatamente socorrer-me soprando em meu rosto e sacudindo-me, até voltar-me o fôlego. Era deveras assustador.
     Ao ver-me rolar escada abaixo, minha querida e saudosa tia Lourdes, irmã de minha mãe, que estava passando uma temporada conosco, saiu às pressas da privada, interrompendo a delicada operação fisiológica, temendo por minha integridade física, tão frágil costumava ser ante o menor incidente. Não obstante sua grande preocupação a meu respeito, muito brava ela ficou ao constatar que o seu sacrifício fora desnecessário, pois, em vez de chorando e me finando, encontrou-me dando risada do acontecimento.
     Quero crer, pelo pouco que ainda retenho na memória, que eu deveria ainda estar com meus cinco anos de idade, quando meu pai, brigadiano, foi transferido de volta para Porto Alegre, minha cidade natal, praticamente ainda desconhecida para mim.
     Após entendimentos mantidos com a família de minha mãe, acomodamo-nos provisoriamente em um puxado que havia nos fundos, entre as casas do tio Valter (mais conhecido por tio Quininho) e da tia Oswaldina (chamada de tia Vadina), no terreno sito à rua Guilherme Alves, com a outra frente para a rua Barão do Amazonas (número 2450), no bairro Partenon, próximo à Vila Maria da Conceição.
     A viagem foi no pequeno navio (ou barcaça) a vapor, de nome Porto Alegre, do qual sinto ainda uma saudade inexplicável.
     Não tardou para que meu pai descobrisse e comprasse uma propriedade, distante apenas duas outras de onde estávamos instalados. Era um terreno de 11 X 40 metros, com uma casa velha de madeira, sob o número 2482 da rua Barão do Amazonas. No meio desse terreno há, até hoje, um desnível, formando um barranco de quase dois metros, sendo que no nível inferior do mesmo é que estava a  referida construção, que, com muito labor, foi bastante melhorada, ganhando, inclusive uma meia água coberta com telhas de zinco. Quando chovia, o barulho era intenso, porém muito gratificante para todos nós. Anos depois, com a morte de meu pai, minha mãe reformou completamente a casa, onde hoje reside minha irmã mais nova, Iná, que nela nasceu.
     À época, a rua não era pavimentada, ganhando, alguns anos depois, um calçamento com pedras irregulares, sendo, mais recentemente, asfaltada.
     Ali vivi os melhores dias da minha infância, adolescência e juventude, ao lado dos meus queridos e saudosos pais e meus irmãos. ///