quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

24. EPISÓDIO CULMINANTE

     Mais uma vez o vento soprou forte e fez a nossa frágil embarcação mudar de rumo novamente. Oxalá o pastor da nossa Igreja nos houvesse chamado, a mim e a minha esposa, para uma conversa em particular e nos passasse uma reprimenda com a contundência que coubesse de fato ao caso. Mas não foi o que ele fez.
     Era uma noite daquelas muito especiais, de "santa ceia", no início de julho de 1981. A sala do diaconato, que ocupava todo o segundo piso, sobre a construção onde, no piso inferior, se estabelecia a nossa moradia, aos fundos do salão da Igreja, já estava repleta de obreiros, diáconos e cooperadores, aguardando a chegada do pastor titular, que costumava, por ocasião desse evento mensal, passar ele próprio algumas instruções, dar alguns avisos e fazer uma rápida preleção, antes de assumirmos nossos postos de trabalho relacionados com o culto da noite, que tinha sempre um cunho mais espiritual, mais reflexivo, mais, digamos, elevado, do que os demais.
     Adentrando o recinto, já com alguns minutos de atraso e a muda mas ansiosa interrogação coletiva do porquê deste, o líder foi logo se referindo a um acontecimento recente, sem citar os nomes dos envolvidos, classificando a atitude dos mesmos como inadequada, indecente, imoral e inaceitável para um ambiente sagrado como aquele, passível de severa punição. Em dado momento do seu inflamado discurso, feitas algumas alusões mais específicas, mas ainda sem a devida clareza sobre a ocorrência em si mesma e os seus protagonistas, nós, minha esposa e eu, ela em meio a um grupo de senhoras, eu em meio a um grupo de companheiros, ao lado dos quais iríamos trabalhar naquela noite, começamos a desconfiar e logo mais a não ter nenhuma dúvida de que era a nosso respeito que se falava, diante dos quase 80 membros daquele diaconato. Eu sequer suspeitava e a Neida não conseguia entender dos motivos daquela reprimenda tão veemente e pública sobre nós. Lembro-me de uma frase, que me marcou profundamente: "Assim como eu coloquei essa gente aqui, eu os mando embora sem direito a nada".
      Só mais tarde ficamos sabendo que o pastor se referira a um deslize inocentemente cometido por minha esposa, numa certa manhã daquela semana, enquanto eu me encontrava na feira e ela fazia a sua parte nas tarefas de limpeza daquela sede. E sabem qual foi esse deslize? O de inadvertidamente colocar a tocar na vitrola, em volume mais ou menos alto, um disco (LP) do Roberto Carlos, no qual, certamente, entre outras músicas românticas, consideradas por alguns cristãos como mundanas, havia uma com uma letra um pouco mais "picante". Se não estou enganado em minhas lembranças, essa música era a que leva o título "O Gosto de Tudo", da dupla Roberto e Erasmo. Ora, isto escandalizou sobremaneira a outra irmã que fazia a limpeza da parte interna da igreja. O atraso do pastor para começar a reunião fora justamente devido à comunicação feita por essa irmã ao pastor, que a fez assinar suas declarações (ele inclusive exibiu o papel), que gerou aquela contundente e pública advertência ao casal.
     Ao término daquela reunião, seguimos, cabisbaixo, para os nossos respectivos postos de atuação. Enquanto o pastor pregava com a costumeira intrepidez que o caracterizava como um mestre da palavra, eu de um lado, a Neida de outro, chorávamos silenciosamente, profundamente sentidos. Disse-me ela que se aproximara de uma e depois de outra irmã em serviço e perguntara-lhes algo sobre o que afinal acontecera, pois nem ela sabia do que se tratava aquela advertência tão grave contra nós. Uma e outra responderam: -"Nem eu sei e nem quero saber; não me meta nesta confusão, irmã..."
     Ao final do culto, quando nos aproximamos um do outro, olhos úmidos e atônitos, indagando-nos mutuamente do motivo daquilo tudo, eis que o pastor chega até nós e nos abraça, paternal, dizendo-nos: -"Não fiquem pensando bobagem; não foi nada com vocês; fiquem tranquilos, amanhã a gente conversa".
      Creio que só foi na manhã seguinte que soubemos da razão exata por que fôramos tão chicoteados, embora não houvessem sido mencionados os nossos nomes. Alguns irmãos e irmãs foram ver-nos, pela manhã, trazendo-nos as informações precisas e a sua palavra de conforto e apoio a nós, que sempre fôramos muito atenciosos para com todos.
      Tentei ainda entender, mas a minha esposa, sempre muito decidida, disse-me que ali não ficaria mais, em hipótese alguma. Foi a um telefone público e ligou para sua mãe, que sempre era quem nos salvava das situações mais complicadas, mais especificamente no quesito financeiro. Contou-lhe, omitindo os verdadeiros fatos daquela noite, que o pastor nos havia anunciado a disposição de vender aquela sede, tão logo a construção da nova igreja permitisse ser transferida para lá a realização dos cultos, e que nós deveríamos providenciar outro lugar para morarmos, porém não tínhamos mais contato com o nosso antigo fiador, nem com quem o conseguiu para nós. Sem pedir maiores explicações, eis mais ou menos o que a minha sogra falou: -"Vendam o carro pra pagar a mudança e venham embora pra Pelotas. Tenho certeza que o Seu Mário consegue um emprego pro Evoti. Venham logo, que eu tô com muita saudade dos meus netos, e vocês não têm mais nada que fazer aí, tão longe."
      E foi assim que imediatamente saí a negociar o carro em revendas próximas e tratar de conseguir um caminhão para a mudança, que acabou custando quase o valor apurado na sua venda, salvando ainda as nossas passagens de ônibus para a viagem.
     E mais um capítulo da nossa história ali se encerrava, para dar lugar a outro e outros mais, cujas lembranças serão por mim resgatadas e relatadas na sequência deste trabalho. ///

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