segunda-feira, 19 de maio de 2014

31. SUPERANDO NOVAS DIFICULDADES

       Foi ainda no decorrer do ano de 1985 que a minha sogra descobriu haver contraído um câncer mamário, tendo que se submeter a uma cirurgia e tratamento específico. Isto a abalou emocionalmente de maneira bem severa, mas conseguiu superar-se, tocando em frente. Não bastasse isso, também era paciente de um tratamento para problemas cardíacos, tendo agora de redobrar-se em cuidados especiais. O seu Mário, seu companheiro já de alguns anos, morava com ela na casa da General Osório, embora mantivesse ainda um apartamento alugado na rua General Telles, quase esquina com a Marechal Deodoro.
       Foi então que a dona Deloá fez-nos a seguinte proposta: ela e o seu Mário passariam a morar no apartamento da Telles e nós mudaríamos para o da Osório (que na verdade era um apartamento também, pois tratava-se do espaço ocupado pelo segundo piso de um sobrado, com entrada totalmente independente. Na parte de baixo morava outra família. Cada qual proprietária do seu espaço no imóvel). A proposta visava a ficarmos mais perto deles, facilitando assim o nosso assessoramento, já que ambos careciam de uma atenção mais contínua. A casa da Alfredo Satte Alam, na Cohab Tablada, foi então alugada e nós passamos a residir na Rua Gen. Osório, 354-A, ali bem pertinho da Beneficência Portuguesa. As crianças foram transferidas para o Colégio Estadual Pedro Osório, na mesma rua, esquina com a Dr. Cassiano.
       No final daquele ano resolvemos fazer um veraneio e saímos à procura de uma casa para alugarmos pelo mês de janeiro, no Balneário Barro Duro. Só conseguimos para o mês de fevereiro, o que acabou sendo ótimo, pois o primeiro mês do ano foi muito chuvoso, enquanto o outro foi de tempo bom, ensolarado e quente, muito mais propício.
       O ano de 1986 transcorreu sem nenhuma novidade a registrar. Já éramos trabalhadores do Centro União. Continuávamos indo para a feira do artesanato da avenida, nas proximidades e decorrer do inverno. Eu prosseguia tranquilamente na atividade de barbeiro no Salão Pará. 
       Já no ano de 1987, um susto: após uma tarde inteira com uma inexplicável diarreia, cujo produto era de uma coloração intensamente escura, persistindo durante a noite, eis que, ao levantar-me pela manhã, no horário em que as crianças se arrumavam para ir à escola, tive uma espécie de vertigem, um apagamento, quando me encontrava sentado ao vaso sanitário. Ao recobrar os sentidos, percebi que havia, escorrido pelo pijama e ao chão, um vômito igualmente muito escuro, um tanto atípico. Chamei a Neida, pois ainda me sentia meio tonto. Depois de um rápido banho, vesti-me e ela acompanhou-me até o Hospital Escola da UFPEL, que funcionava nas dependências da Beneficência Portuguesa, exatamente ali na esquina da Osório com a Gomes Carneiro, a menos de trinta metros da nossa residência.
       Medida a minha pressão arterial, fui imediatamente conduzido à UTI de gastro. Sem demora fui submetido a uma transfusão de sangue. Na sequência foi-me aplicado um exame de endoscopia e o tradicional soro alimentar. Somente na tarde do dia seguinte fiquei sabendo que havia ingressado naquela unidade de tratamento quase à beira da morte. Minha pressão havia atingido o baixo nível de 7.5 por 6.l, o que, segundo a enfermeira, representa uma proximidade perigosa entre os fluxos alto e baixo da circulação sanguínea. Se uma chegasse a se "encostar" um pouco mais na outra, seria fatal. E a esta hora eu não estaria aqui para contar toda esta história. Todo aquele "caldo" escuro que eu evacuara nada mais era do que o sangue derivado de duas úlceras abertas, uma delas recidiva, isto é, que antes já havia cicatrizado mas voltara a abrir-se.
       Segundo as enfermeiras de plantão, tratavam-se de úlceras de origem nervosa, o que eu questionei, pois sempre fui um cara muito tranquilo, calmo, às vezes até demais. Porém elas me explicaram que eu podia ser tudo isto quanto às reações às adversidades, mas era muito ansioso quanto às perspectivas de acontecimentos, até mesmo com relação aos mais triviais. Pensando bem, depois dessas explicações, pude constatar que realmente isso acontecia. Muitas e muitas vezes me vi ansioso diante da expectativa frustrada de atingir uma meta diária ou semanal de clientes, vendo o tempo escoar-se sem a esperada e tão desejada resposta, especialmente no que se referia às necessidades financeiras, que eram sempre prementes.
       Lembro-me que, pelo sistema usado no salão para o encaminhamento dos clientes "forasteiros" aos diversos profissionais, contemplando a todos indistintamente, tínhamos a "ficha da vez", mais ou menos como é praticado num ponto de táxi. O que chegou primeiro e à medida em que cada um chegava; depois ao passo em que cada um, após um atendimento, se desocupava novamente, e assim por diante, a sua ficha era colocada na caixinha da recepção. Ora, quem estava na vez torcia muito para que entrasse um cliente sem preferência por nenhum profissional (o forasteiro), a fim de que fosse atendê-lo, antes da chegada de um cliente seu, que certamente o aguardaria para ser atendido posteriormente. Ruim, portanto, era quando eu estava na vez e, muitas vezes depois de um certo tempo parado, naquela expectativa ansiosa, chegava um cliente meu e em seguida um forasteiro, que era passado ao seguinte da vez. Por que não acontecera o inverso? Eu teria atendido dois clientes em vez de um só. Isto me deixava encabulado. Minha sogra chegou a dizer um dia: "Puxa, mas que azarão, hein!". Pense no cara se sentindo o azarado em pessoa a ouvir um "incentivo" desses. Confesso que andei tendo até uma certa inveja do meu companheiro e amigo Chico, que havia começado na profissão e no salão um pouco depois de mim. Ele, ao contrário, sempre que estava na vez era contemplado com um cliente novo e depois, quase que em seguida, chegava sempre um cliente antigo dele, tal como era do gosto de todos nós que acontecesse. E eu ficava me remoendo intimamente, sentindo-me ferido ou perseguido pela má sorte.
       Esses acontecimentos jamais interferiram na minha amizade com o Chico, mas que eu sentia uma certa mágoa, uma ponta de inveja, ou um complexo de inferioridade, lá isto eu sentia mesmo. E sabem como isso terminou? Foi quando eu comecei a comprar numa banca próxima a revista mensal "Psicologia do Comportamento". Os artigos eram muito bons, bastante espiritualizados e esclarecedores. Dois deles foram decisivos para mim: "Querer é sofrer!" e "A inveja o que é?". A partir desses dois artigos, comecei a mudar a minha atitude mental e não tardou muito para que eu pudesse perceber uma reação natural muito positiva. Foi incrível como começou a dar certo para mim também, sem prejuízo de ninguém mais, aquele esquema da chegada de clientes novos antes dos já conquistados, quando na vez eu estava. Aquela velha ansiedade foi-se diluindo e passei a ser muito mais tranquilo, realmente. A minha clientela começou a aumentar bem mais rapidamente. Passei até a ter mais confiança no meu próprio desempenho profissional. ///

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