sábado, 10 de maio de 2014

26. OUTRO EMPREGO EM SEGUIDA

       O chefe do setor de Transportes ficou visivelmente chateado com a minha dispensa, pois nos entendíamos muito bem, desde os tempos em que ele era carreteiro (motorista de uma das carretas da própria Firma). Disse-me que tinha uma grande amizade com um dos donos de uma empresa transportadora e soubera que ele estava precisando de um funcionário exatamente com as minhas características. Deu-me o endereço e prometeu dar boas referências a meu respeito. Assim, dentro de poucos dias eu já estava trabalhando na empresa Comercial Agrícola e Transportes Zanete, cujo nome dá a impressão de tratar-se de uma firma comercial também, mas operava somente no ramo de transportes. Como era um pouquinho mais distante, embora ainda na mesma região, passei a utilizar uma bicicleta para ir ao trabalho. E uma vez quase fui atropelado por um carro que vinha de frente, na avenida Fernando Osório, pois eu transitava na faixa da contra-mão. Outra vez, eu e outro ciclista colidimos, na calçada da avenida Salgado Filho, porque ficamos ambos indecisos ao cruzarmos um pelo outro e acabamos escolhendo o mesmo lado. Apenas uma leve entortada no guidão, pois batemos já quase parados.
       Nessa Empresa trabalhei por quase dois anos e meio. Não consigo lembrar em que período exato do ano de 1983 fui a São Paulo, junto com um colega, a fim de ajudá-lo a organizar as coisas por lá, uma vez que ele ficaria em definitivo tomando conta do pequeno escritório que a firma mantinha como ponto de apoio, apenas para fazer acertos de conta com os motoristas, na sua maioria caminhoneiros terceirizados, que tinham a capital paulista ou a carioca como destinos.
       Esse funcionário faria os pagamentos dos saldos de frete e receberia os cheques dos destinatários, depositando-os e enviando-me depois os respectivos comprovantes, via malote, para que eu os lançasse no Movimento de Caixa e os remetesse imediatamente ao contador oficial da Empresa, Sr. Cláudio Franz, que tinha seu escritório de contabilidade no centro da cidade.
       Em dezembro daquele ano, num jantar comemorativo dado pela Empresa aos funcionários, tomei conhecimento de que houvera sido levantada uma suspeita de que eu estivesse envolvido em um golpe financeiro juntamente com o colega que ficara em São Paulo. É que foi descoberto um esquema em que o rapaz fazia alguns saques bancários em espécie, os quais não apareciam no meu movimento de caixa, motivo pelo qual suspeitava-se da minha conivência com o mesmo. Porém, antes mesmo que eu desconfiasse da existência desse fato, pois ele simplesmente deixava de enviar-me as folhas de extrato bancário em que constavam as suas retiradas "extras", e como a movimentação era intensa e os documentos chegavam-me sempre com muitos dias de atraso, o diretor da Empresa e outro funcionário de sua extrema confiança investigaram e encontraram o "furo", inocentando-me e afastando de minha pessoa as tais suspeitas, por completo.
       Em janeiro ou fevereiro de 1984, o senhor Zanete, que então já era o único proprietário da Empresa, já que o seu sócio lhe havia vendido a sua parte, fechou negócio com uma transportadora também pelotense que trazia cargas fracionadas ("bagulho") de São Paulo para Pelotas e Região. Ele comprou todos os direitos sobre a clientela, assumindo também, inicialmente, os funcionários paulistas da empresa adquirida.
       Por essa ocasião, passou a assediar-me com o convite para que eu fosse assumir o comando burocrático da nova filial, que se constituía de um escritório e um armazém, havendo também, no mesmo prédio, uma parte que servia apropriadamente como moradia. A oferta era para que eu fosse com a família e teria essa residência disponível sem pagar aluguel, e ainda com a vantagem de trabalhar sem sair de casa.
       Recusei o convite e expliquei-lhe que estávamos bem instalados em nossa casa na Cohab Tablada, pela qual também não pagávamos aluguel e ainda mantínhamos uma lojinha de miudezas e artigos para presente. O nome carinhoso dessa lojinha era "Patinho Azul". Por essa época, minha esposa também fazia tricô à máquina, dedicando-se a confeccionar peças para enxoval de bebês, de onde se originou o nome da loja, que era pequenina, mas que ajudava de alguma forma no nosso orçamento familiar e ainda servia como ponto de referência para negociar os seus trabalhos feitos artesanalmente e praticamente personalizados.
       Mas o senhor Zanete continuava insistindo para que eu pensasse bem e aceitasse a sua proposta, alegando que estava precisando de alguém de confiança naquela filial, enquanto ali na matriz estava sobrando funcionário, dizendo ainda que isso evitaria ter que me mandar embora, pois o meu salário era um dos melhores da turma na ocasião.
       Mesmo correndo esse risco, voltar para São Paulo naquele momento seria a última hipótese a ser levantada em família, dado inclusive o nosso ótimo relacionamento com a mãe, sogra e avó, Deloá, que estava sempre presente, ajudando-nos de uma forma ou de outra, principalmente demonstrando-se sempre muito apegada aos três netos que ela realmente amava. ///
    

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