sexta-feira, 23 de agosto de 2013

15. A VOLTA PARA PORTO ALEGRE

     Viajei para a capital num final de semana e fui conversar com o sr. "M". Expus-lhe a nossa situação e a intenção de voltarmos. Conversamos e ele prontificou-se a ajudar-me. Na segunda-feira, conforme combinado, fomos juntos até a loja J. H. Santos e ele apresentou-me ao gerente, seu amigo Rímolo, que recomendou-me que fosse até o setor de R.H., ali perto, para preencher uma ficha solicitando uma vaga de vendedor, que ele me colocaria imediatamente no setor de móveis e estofados, por ele gerenciado.
     Feito isto, regressei para Pelotas, cheio de boas expectativas. Na terça, iria pedir minha demissão Da empresa, quando encontrei minha chefe, a caminho. Adiantei-lhe sobre a minha intenção e ela disse que desde o dia anterior, no qual eu faltara ao serviço, eu já estava demitido. Isto foi bastante oportuno, a meu ver, e até fiquei-lhe grato pela informação.
     Recém chegados em Porto Alegre, ficamos por alguns dias hospedados no apartamento do casal "M" e "G", na avenida Getúlio Vargas, bairro Menino Deus, enquanto providenciávamos uma nova locação.
     Alugamos um apartamento num prédio de seis andares da avenida Desembargador André da Rocha, na região central. Era pequeno, de apenas um cômodo, cozinha e banheiro. Dividimos esse cômodo com o guarda-roupas, fazendo uma salinha e o quarto de dormir. Estava mais do que bom para nós três, agora que tínhamos a pequena Bia por companheira de nossas vidas.
     Em outro apartamento do mesmo prédio morava um colega de loja, da linha branca, o Jorge, cuja esposa Leda se deu muito bem com a Neida. Eles tinham um garotinho, mais ou menos da mesma idade da Bia, que estava agora com dois meses e alguns dias de vida.
     Na loja, as chances de ganho eram muito boas, mas a velha timidez era a inimiga formidável que me impedia de obter melhores resultados nas vendas. O Rímolo falava muito bem a meu respeito para o sr. "M",  mas também falava-lhe do quanto era difícil ouvir a minha voz, pois eu falava muito baixinho com os clientes e  por isto ele não podia avaliar melhor o meu desempenho, embora eu fechasse algumas vendas a contento. Mas era preciso que soltasse mais o som da garganta. Disse, certa vez, que me admirava pela educação e a solidariedade com os colegas, que eu sempre demonstrava, prometendo que me treinaria para uma futura sub-gerência.
     Essa perspectiva me animara e eu procurava melhorar o meu desempenho. Porém, pouco tempo se passara quando ele, Rímolo, foi transferido para uma loja do interior do estado. Infelizmente não poderia mais contar com aquela possibilidade.
     Depois disto, o novo gerente me chamou em particular e me perguntou se eu não gostaria de ir para a loja do Centro Comercial da Praça Piratini (lembram? aquela praça em frente ao Colégio Julio de Castilhos). Lá eu iria trabalhar com eletro, som-imagem e linha branca, além de móveis e estofados, o que me daria a oportunidade de faturar um pouco mais. E só havia uma concorrente perto, no mesmo pavimento daquele prédio comercial.
     Mas não era só isso. Por incrível que pareça, havíamos-nos mudado para o antigo apartamento da Alberto Torres, onde a Neida morara com a mãe. É que, quando ela voltou para Pelotas, transferiu o contrato para um barbeiro também pelotense, o sr. "T". Este, por sua vez, também de regresso, nessa ocasião, para a sua cidade natal, chamou-nos e perguntou se queríamos o apartamento que ele estaria entregando, e nós o quisemos, é claro, pois era maior e o preço não mudava muito em relação ao outro. Portanto, era vantagem mudar para a loja do Centro Comercial, pois ficava bem mais perto e eu podia ir e voltar a pé.
     As minhas comissões até que eram boas, mas me era descontado em folha o valor de um terço do salário mínimo a título de pensão alimentícia para o meu filho Alexandre. Nada mais justo; porém, do que me sobrava tinha que tirar o aluguel, água, luz e demais despesas da casa. A Neida chegou a voltar a trabalhar com o sr. Carlos e o Dr. Ary, mas era complicado, pois pagávamos uma jovem para ficar com a Bia e às vezes dava algum problema, que gerava uma falta dela ou minha ao trabalho. Outras vezes ela levava a menina para o escritório, o que era de todo inconveniente. Foi um período muito difícil, com alimentação precária, pois tínhamos que priorizar a nossa filha, em detrimento de nós mesmos.
     Não devo esquecer aqui de registrar que o sr. "M" e a tia "G" foram os padrinhos da Bia, batizando-a em um templo do segmento anglicano, que não exigia que fôssemos seus frequentadores.
     De vez em quando eram eles, assim como também a minha sogra, que nos presenteavam com um rancho (compra de supermercado), o que nos proporcionava um certo alívio, pelo menos momentâneo.
     Se a nossa situação estava um tanto ruim, ainda poderia piorar um pouco mais, como irei mostrar na próxima sequência. ///
   

14. MUDANÇA PARA PELOTAS

     A Neida já havia saído da Companhia Monarca e estava trabalhando no escritório compartilhado pelo sr. Carlos (corretor de seguros) e o Dr. Ary (advogado).
     Muito preocupada com a mãe, ao mesmo tempo que sentia falta do apoio materno na tão delicada situação, que era a sua primeira gravidez, começou a alimentar o desejo de nós irmos de muda para Pelotas. A casa da dona "D" não era grande, mas daria perfeitamente para acomodar-nos e ficaríamos livres do aluguel. Além do mais ela, Neida, poderia cuidar da mãe, que morava sozinha e passava às vezes por momentos de grande tristeza, o que era ruim e perigoso para a sua saúde e integridade emocional.
     Certamente, emprego não me faltaria, pois a minha sogra era manicure muito conceituada na cidade. Fazia somente unhas masculinas e tinha clientes empresários e políticos, entre outros, bastante influentes.
     O assunto ficou mais ou menos resolvido, dependendo somente do meu pedido de demissão ser aceito. Ao solicitá-lo, surpreendi-me com uma proposta de aumento de salário, autorizada pela matriz. Trocamos ideias a respeito e mantive o pedido, que me rendeu uma nova proposta, agora um tanto mais substancial, chegando à casa dos 50% sobre o que eu percebia mensalmente, havia mais de seis meses sem nenhuma alteração e tendo à vista apenas o próximo aumento pelo dissídio. A oferta era tentadora, mas arranjamos, daqui e dali, boas desculpas para não aceitá-la. Cheguei a fazer uma contra-proposta, honestamente, inviável, só para meu desencargo de consciência. A última proposta foi mantida, pois já era boa demais. Sabe quando a gente fecha os olhos e tapa os ouvidos, para não ver nem ouvir mais nada, e diz não a uma grande chance de melhorar financeiramente?
     Foi isto o que fiz, pensando unicamente no bem da minha companheira, que vivia um momento tão delicado e tão sofrido.
     Enquanto a mudança para Pelotas era feita, eu cumpria o aviso prévio e tomávamos as devidas providências para nos instalarmos na nova morada.
     Por recomendação de um vereador, apresentei-me e fui admitido no então Expresso Fonseca Júnior, atual Embaixador. Fui colocado no Departamento Pessoal (Recursos Humanos), como auxiliar, ganhando pouco acima de um salário mínimo vigente, o que representava uma terça parte do que estaria ganhando na Monarca, se houvesse aceitado a última proposta.
     Não tardou para que as coisas começassem a acontecer de modo diferente do que pensáramos. O relacionamento entre mãe e filha não ia lá muito bem. Minha sogra continuava inconformada com a situação da filha, que não era casada legalmente, o que lhe era motivo de incômodo e vergonha, perante a sociedade pelotense, configurada na sua clientela e amizades pessoais, ambas bastante seletas.
     Foi neste clima que a nossa Bia (Beatriz Helena) nasceu, na maternidade do Hospital Beneficência Portuguesa, aos 28 dias do mês de abril de 1973.
     Foram transcorridos cinco meses de intranquilidade, insatisfação e arrependimento, até a tomada de uma nova decisão: a de tentarmos uma volta para Porto Alegre. ///

13. PRIMEIROS ENFRENTAMENTOS, SABORES E DISSABORES

     Iniciávamos naquele final de agosto um namoro que duraria praticamente um ano, pois decidimos que iríamos morar juntos a partir do dia 02 de setembro de 1972. Abrimos uma caderneta de poupança em conjunto para nela depositarmos nossas economias com vistas às compras de móveis e utensílios, pois pretendíamos alugar um apartamento pequeno, de começo, como realmente o fizemos.
     Enquanto fazíamos nossos planos, traçando nossas primeiras metas para a união definitiva, enfrentávamos já alguns problemas de ordem familiar, que se interporiam como barreiras a serem transpostas com coragem e decisão, principalmente pela Neida, que era a parte mais frágil e, não obstante, a mais exigida.
     Ela se mudara para Porto Alegre, vinda de Pelotas, havia pouco mais de um ano, residindo com a mãe, manicure, sra. "D", e o primo e quase irmão, "A". Eles se criaram juntos e tinham mesmo uma amizade de irmãos. Estavam morando em um apartamento térreo do prédio de nº 104 da rua Alberto Torres, no bairro Cidade Baixa, próximo ao centro da Capital.
     A mãe, que já me conhecia como colega de sua filha, casado, não aprovou o nosso relacionamento (namoro). O primo, ao me ver, um dia, no apartamento, já como namorado da quase irmã, discutiu acaloradamente, mostrando-se totalmente contrário à nossa situação. Ela o enfrentou e acabaram rompendo a amizade e o companheirismo que nutriam mutuamente desde crianças. Vale dizer aqui que a aversão de "A" pela Neida permanece até aos dias de hoje, por incrível que pareça. Como se diz: "a barra pesou" e ele passou a ignorá-la, mal suportando a minha presença.
     "A" era filho da tia "G", anterior ao casamento dela com o sr. "M", com quem já tinha mais três filhos: "L", "I" e "M-Jr".
     Com eles fiz boa amizade. Levei a Neida para conhecer os meus familiares, pai, mãe e irmãos, e todos lhe deram as boas vindas. Levei-a também até a Vó Cota e ouvimos do guia comunicante, na presença de minha mãezinha: "-Humm! Estes dois, agora que se reencontraram, não se largam mais".
     O tempo foi passando, fomos preparando o nosso enxoval, nada de luxo, alugamos o apartamento na avenida Ipiranga, nº 1300, entre a rua Gen. Lima e Silva e a av. Azenha.
     No primeiro sábado de setembro, dia dois, nos encontramos e fomos até a casa dos meus pais, onde eu ainda morava até aquele dia, na rua Barão do Amazonas; e lá foi realizada, na presença dos meus familiares, uma singela cerimônia, em que a Vó Cota nos deu, em nome dos Guias Espirituais que a acompanhavam, a bênção da união sagrada, pois nos comprometíamos a cuidar um do outro pelos anos afora, completando no próximo mês, agora, 41 anos de muita dedicação, carinho, cuidados, tropeços, lutas e muito, muito amor.
     Naquele dia, ao despedir-se da mãe e entregar-lhe as chaves do seu apartamento, esta lhe disse apenas, em tom grave: "- Tu é quem escolheste assim. Não precisas mais me procurar".
     Foi muito dolorido, para a minha amada, que realizava um sonho seu a um preço tão alto imposto pela pessoa por quem ela tinha o maior apreço, e que lhe devia o maior apoio e consideração, já que não lhe havia dado um pai e nunca fora cobrada por isto.
     Em vista disso, o nosso "enfim sós" não foi dos mais alegres, embora nos sentíssemos felizes por estarmos finalmente juntos.
     A primeira gravidez já se fazia sentir pelos seus reflexos físicos, embora não transparecesse ainda, a não ser pelos vômitos frequentes.
      Logo, porém, as coisas iriam tomar um novo rumo, pois a sra. "D" decidira retornar para Pelotas, onde tinha um imóvel de sua propriedade, que deixara alugado, havendo já solicitado ao inquilino a sua desocupação, no que fora atendida prontamente.
     Imaginem só a situação da filha única, "casada" sem o aval da mãe e agora grávida, enfrentando mais esse revés, conhecendo a mãe que tinha, frequentemente depressiva, embora ainda não se usasse este termo.
     Na próxima publicação, vocês saberão o que aconteceu conosco em seguida, por conta disto. ///

domingo, 18 de agosto de 2013

12. SENTIMENTOS, ATITUDES, DECISÕES E MUDANÇAS

     Aquele ano de 1971 reservava-me grandes surpresas, decisões extremas e mudanças radicais, antes inimagináveis.
     Havia sempre no quadro funcional da Companhia de Seguros Monarca - sucursal de Porto Alegre - duas jovens funcionárias, obrigatoriamente solteiras, por determinação da Matriz.
     Em fevereiro, com a saída de uma funcionária, a Zilah, jovem espírita e muito minha amiga, era admitida uma moça pelotense chamada Neida, também conhecedora do Espiritismo. Não muito tempo depois, era a vez da colega Dorinha sair, para a entrada de outra pelotense, de nome Dalva. As duas já eram amigas e inclusive estudavam juntas, à noite, tentando concluir o segundo grau. Eram bastante extrovertidas, alegres, excelentes colegas.
     Afora o gerente, senhor Antônio Alexandre, cearense criado no Rio de Janeiro, com nítido sotaque carioca, eu era o único casado da turma do escritório.
     Todos conversávamos, brincávamos, trabalhávamos em conjunto e solidariamente, mantendo um ambiente harmonioso e de muito respeito, sob a supervisão geral do companheiro, solteirão e simpático, descendente de alemães, vindo da região de Montenegro, Egon Panke, que em verdade vigiava a conduta de todos.
     No início do mês de julho entrei em férias, com a recomendação dos meus superiores de que deveria ir pelo menos uma vez por semana, se possível mais, conferir, acompanhar, supervisionar os trabalhos da pequena equipe pela qual eu era responsável.
     às vezes a esposa me acompanhava, outras vezes não. E foi numa dessas idas sozinho, para ser mais preciso, na última delas, no início de minha última semana de férias, que a colega Neida, sabendo que eu era, assim como ela mesma, fã do cantor Roberto Carlos, perguntou-me se já havia escutado seu último lançamento, através do disco (LP) "As 14 Mais", editado anualmente com diversos intérpretes da Jovem Guarda. Respondi-lhe que não. Ela, então, mostrou-me a letra da música, que já estava fazendo um tremendo sucesso, com o título "Amada Amante", de autoria da dupla Roberto e Erasmo. Achei o tema e os versos bastante fortes; diria um tanto picantes, pelo menos para a época.
     Quando eu já estava de saída, ela perguntou-me se eu queria uma cópia da letra, pois ela tinha mais de uma, e eu, para não ser indelicado, aceitei, com a intenção de jogá-la fora, assim que ganhasse a rua, a fim de evitar qualquer problema em casa, por má interpretação. Não obstante, esqueci-me completamente do papel que havia posto no bolso do paletó. Chegando em casa troquei de roupa e fui para os fundos do pátio, onde estava cavando uma fossa para a nova localização da "casinha", que até esse tempo ainda era "lá fora", como a gente dizia ao referir-se ao que hoje chamamos "WC", "toilete", ou, simplesmente, banheiro.
     Bem, dá para qualquer leitor adivinhar o que aconteceu na sequência. Encontrado o papelucho no bolso do casaco, sem nenhuma prévia explicação sobre o de que se tratava, só poderia ser entendido como uma declaração de amor de uma de minhas colegas, mais provavelmente daquela que não possuía em seu dedo nenhuma aliança de compromisso, a saber, a senhorita Neida, pois a Dalva era noiva.
     O clima familiar, que já não era dos mais agradáveis, ficou mais tenso, permanecendo instável até o final das minhas férias, que acabariam no próximo domingo.
     Algo muito grave estava por acontecer, ou já estava acontecendo em meu íntimo. Do nada, sem nenhum aviso e sem nenhum motivo aparente, a não ser uma possível influência de algumas insinuações, até então totalmente infundadas, que já me acostumara a ouvir de minha companheira, sem lhes dar maior importância, percebi que estava sentindo saudades daquele rosto meigo, daquele sorriso aberto, daquela alegria vigorosa, antes vistos tão naturalmente. Comecei a notar que a figura da colega de trabalho agora não me saía da mente, mesmo que tentasse afastá-la dos meus pensamentos.
     Na segunda-feira retornei ao escritório, decidido a não fraquejar ante o conflito íntimo gerado pela descoberta daquele novo sentimento que via brotando espontaneamente em minha alma.
     Adentrei a sala com um semblante intencionalmente sério, taciturno, procurando evitar qualquer aproximação e até mesmo um olhar, que não fossem absolutamente necessários por força de alguma tarefa ligada ao seu setor.
     Soube depois, pela Dalva, que aquela semana também fora atípica para ela, Neida, em relação aos sentimentos que também lhe assaltaram nos últimos dias de minha ausência naquele ambiente.
     Em uma das oportunidades em que a nossa aproximação física se fez necessária, ela perguntou-me, baixinho, se eu havia sentido saudades. Respondi-lhe, em tom grave e seco, que não. Notei o desconforto emocional que lhe causou minha resposta e, lamentando o fato, afastei-me imediatamente. O coração pulsava descompassado e aflito.
     Não sei por quanto tempo, se por algumas horas, por um dia, um dia e meio ou dois, mantivemos entre nós um silêncio tétrico e angustiante, mal dirigindo a palavra um ao outro quando estritamente necessário se fazia, ainda por causa de algum documento ou informação.
     Em meio a tal situação, já completamente insustentável, ela tomou a atitude de escrever-me um bilhete, contando-me o que realmente estava sentindo, dizendo-me saber tratar-se de algo impossível, dada a minha condição de homem casado e pai de um garotinho de apenas cinco meses de idade, que não poderia jamais ser prejudicado. Ao concluir o bilhete, disse que nada esperava de mim, senão a minha compreensão e que só não podia mais suportar aquele clima de indiferença forçada, cujo motivo tentava adivinhar sem encontrá-lo, pois achava que nada havia feito para magoar-me ao ponto de a tratar daquela forma.
     Quando acabei de ler suas palavras, com o coração quase a sair pela boca, estupefato, sentindo ainda mais forte aquele amor puro e sem mácula que me visitava o peito, sem o meu consentimento, olhei para a Dalva, que parecia aguardar ansiosamente a minha reação, e disse: "-É, minha amiga! Acho que estou num mato sem cachorro"...
     Ela caiu na risada.
     Querem saber? Não lembro muito exato como e quando dei a resposta à autora do bilhete revelador.
     O que sei é que em casa, definitivamente, "a maionese já estava desandando" e não demorou quase nada para que a separação se fizesse inevitável e acontecesse de fato.
     Infelizmente, tive que abrir mão de meu filho, tão pequenino ainda, deixando-o sob a guarda materna, consoante as prescrições da Lei e do bom senso.
     Vem-me à lembrança o quadro de sofrimento imposto igualmente à minha saudosa mãezinha por conta da separação do neto querido, que ela havia ajudado a cuidar até então, e a quem muito se apegara.
     Decisões tomadas, mudanças à vista. Era uma nova vida que começava para mim. E aqui estou, quarenta e dois anos depois, contando esta história, que não acaba por aqui; antes, está apenas começando. ///

11. JUNTANDO OS PEDAÇOS

     Voltando um pouco a fita do filme da minha vida, do qual também fazem parte meus irmãos, lembro-me de quando o Pedro construiu uma casa na parte de cima do terreno, que dava frente para a rua Guilherme Alves. A casa era de madeira e foi erguida à base do mutirão. Nessa época eu era adolescente, mas não lembro com que idade estava.
     Prontifiquei-me também a ajudar na obra. Em dado momento, quando pregava uma ripa ou tábua, a uma certa altura da parede, minha mãe surgiu e pareceu-me ficar um tanto aflita com a minha exposição ao perigo de cair daquela altura. Batendo o martelo, errei umas duas ou três vezes a cabeça do prego, e, percebendo isto, minha mãe falou: - "Desce daí, guri; tu não dás pra este tipo de serviço; o teu negócio é estudar pra ser um doutor, médico, advogado ou coisa parecida". Aquilo foi como uma martelada na minha cabeça. Fiquei desconsertado, mas insisti, errando mais algumas batidas de martelo, até fincar o prego na madeira. Desci em seguida e não mais me meti nesse tipo de atividade, dando sempre alguma desculpa e guardando comigo a observação negativa do comentário materno.
     Achei conveniente registrar este fato, não porque ainda esteja magoado com minha saudosa mãezinha, de jeito nenhum, porque um pai e uma mãe nunca haverão de querer causar qualquer dano, inclusive psicológico, ao seu filho ou filha, embora, sem o querer, às vezes o façam. Mas é que, ao recordar esse episódio, que me marcou e me tolheu a iniciativa de execução de tarefas que envolvam madeiras, tijolos, argamassa, enfim, construção ou reforma de um imóvel ou qualquer de suas partes integrantes, lembro-me que também preciso me penitenciar de uma palavra dita à minha filha Sílvia, que lhe causou igualmente profundo sentimento, que há não muito tempo atrás ela expôs, em uma mensagem que deixou escrita nas páginas de um caderno, numa de suas vindas a Curitiba, para que lêssemos depois de sua partida de regresso a Pelotas.
      Em uma reunião familiar, quando ela tinha lá seus 7, 8 anos, não tenho a lembrança exata, lemos uma historinha que falava de um jacarezinho egoísta, que não dividia a água do seu lago com os outros animais. Num outro momento, por uma dessas atitudes normais de criança, quando há uma disputa por algo, um brinquedo ou um lugar à mesa, também não recordo o que era, querendo apenas educá-la, chamei-a de "jacarezinho egoísta". Esse rótulo, sem que eu jamais o suspeitasse, ficou gravado em sua mente infantil e a incomodou até a idade adulta, machucando esta alma tão querida, de que tenho muito orgulho e muita gratidão de ser pai. Filha amada, muito longe estás de ser um "jacarezinho egoísta". Ao contrário, devemos-te muito pelo teu altruísmo e por tudo o que já fizeste e ainda fazes por todos nós, teus pais e irmãos.
     Isto é para a gente ver quantas vezes a harmonia e a naturalidade da vida se quebram em nossas mãos, sendo necessários muito tempo e esforço para irmos juntando os pedaços e recompondo a caminhada.
     Voltando um pouco mais ao passado, já o meu irmão João, ao contrário de mim, deu-se sempre muito bem com todos os tipos de ferramentas de carpintaria, de pedreiro, etc. Tanto, que, com a ajuda de alguns amigos e de um profissional da área, meteu a mão e construiu, no meio do mesmo terreno, um chalé. Casou-se e foi morar na sua casa própria, fazendo, de tempos em tempos, a devida manutenção e até algumas melhorias.
     Se bem me recordo, pela ocasião do meu casamento o Pedrinho já havia desconstruído a casa da Guilherme Alves e levado o material todo para Viamão, onde comprara um lote, reconstruindo-a naquele local. Lá terminou de criar seus lindos filhos, meus quatro sobrinhos queridos: Eliéser, Eliete (já vovó), Elísio e Elisete. Todos eles possuem hoje suas próprias famílias, muito abençoadas.
     Eu, ganhando então um pouco mais do que o salário mínimo, como já mencionei antes, fui morar com a jovem esposa em um cômodo apenas da casa paterna.
     Em março de 1971 nasceu meu primeiro filho, o Alexandre.
     No meu serviço tudo ia bem; eu até já estava ocupando o posto de chefe do Deptº.de Emissão, após a saída do Luiz, que foi, a convite do antigo colega Adalberto, trabalhar também na seguradora do Banco Real.
     No lar, entretanto, a desarmonia conjugal era uma constante. Imaturidade de uma parte, inabilidade de outra, e os conflitos se sucediam, desgastando a cada dia o relacionamento. ///

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

10. SUSTO NO PRIMEIRO EMPREGO

     Iniciei o ano tirando um  curso rápido de datilografia, que, para fazer justiça, devo dizer que foi patrocinado pela namorada, que trabalhava como doméstica em uma casa de família na avenida Bento Gonçalves, próximo à Companhia Geral de Indústrias.
     Soube, por intermédio do mano João, que o nosso primo Alceu era gerente em uma companhia de seguros e fui procurá-lo. Fui muito bem recebido por ele, que disse não haver nenhuma vaga naquela empresa no momento, mas entregou-me uma carta de apresentação para que eu fosse a uma outra seguradora, onde havia uma vaga para contratação imediata.
     Atendido pelo chefe geral do escritório, senhor Egon Panke, fui conduzido a uma sala, onde preenchi uma ficha de pedido de emprego. Outro funcionário, o Adalberto, chefe do departamento de emissão de apólices, veio em seguida e solicitou que eu fizesse um teste de datilografia, adiantando-me que não seria exigida rapidez, mas o mínimo possível de erros de ortografia, marginação, etc. Com muita calma e atenção, caprichei no teste e fui aprovado.
     Admitido em 03 de março de 1969 na Companhia de Seguros Monarca, ex-Pearl Assurance Company Limited (Companhia inglesa, com capital recentemente nacionalizado), faria preferencialmente os serviços externos, treinando, quando não houvesse demanda, as funções internas, datilografando documentos como memorandos, endossos e anexos com as condições gerais das apólices de seguro contra incêndio.
     Mal chegara ao segundo mês de trabalho e vejam só o que me aconteceu: Fui ao banco descontar os cheques de alguns funcionários, referentes ao adiantamento quinzenal de salário, incluindo o meu próprio adiantamento, conforme já o fizera anteriormente e de acordo com as recomendações recebidas. Teria apenas que dar uma passada em uma casa de carimbos para pegar um carimbo que havia sido mandado confeccionar. Feito isto, retornando para o escritório, fui abordado por um cidadão, aparentemente muito simples, dizendo-se chegado do interior, ostentando em seu poder um bilhete da loteria federal supostamente premiado e falando-me que não sabia como fazer para recebê-lo. Temendo por ele, já que parecia tão inocente em meio ao movimento de todo tipo de pessoas da cidade grande, tentei ajudá-lo de alguma forma, mesmo não sabendo ainda o que deveria fazer. Dizia-lhe que tomasse cuidado, que não mostrasse aquele bilhete para qualquer um, quando outro cidadão, aparentando boa formação profissional e muito educado, como se tivesse ouvido parte do diálogo, aproximou-se e prontificou-se a ajudá-lo, pedindo que eu fosse junto com ambos até a agência central da Caixa, para que não pairasse dúvidas sobre a sua boa intenção e desinteresse. Fui envolvido de tal maneira, que, mesmo alegando que tinha que voltar de pressa à empresa, que ficava a meia quadra da esquina onde estávamos, acabei concordando. O segundo homem, então, me disse que eu também corria risco de ser assaltado, com aquele volume de dinheiro aparecendo no bolso da calça, e deu-me uma pequena pasta fechada com zíper, para colocar nela as cédulas. Meio inseguro e confuso, coloquei o dinheiro na pastinha e segurei-a firme, preocupado. Ele, numa ação rápida e inesperada, tomou-a de minhas mãos e colocou-a dentro de uma pasta grande, modelo executivo. Protestei, visivelmente receoso, ao que, fingindo entender a minha preocupação, devolveu-ma dizendo: - "Então o amigo vai até a sua empresa levar esse dinheiro, que nós lhe esperamos aqui, para irmos juntos até a Caixa". O horário permitiria isto, pois já era quase onze e meia, término do expediente matinal. Muito perturbado, dei alguns passos e resolvi conferir o conteúdo da pasta. Surpreso, verifiquei que o zíper estava amarrado com um cadarço de sapato, o qual desatei depressa e nervosamente. Olhei para trás e já não havia nem sombra dos dois homens com quem acabara de falar. Abri-a e constatei que havia apenas um bolo de notas antigas de um cruzeiro, já fora de circulação, sem valor nenhum.
     Cheguei ao escritório, pálido, branco como um boneco de cera. Fui direto à sala do gerente, senhor Antônio Alexandre. Contei-lhe o ocorrido e ele, sem qualquer reação emocional, instruiu-me para que fosse a uma delegacia de polícia registrar a ocorrência, concedendo-me o prazo até o dia seguinte para que reembolsasse os meus colegas.
     Saí dali desesperado. Fui até a DP central acompanhado de minha mãe e da Vó Cota, na primeira hora da tarde. As duas foram minhas avalistas, evitando que eu ficasse detido, por conta da desconfiança dos policiais de que eu era quem estivesse tentando dar o golpe em meus colegas de trabalho.
     Meu pai, por sua vez, mobilizou-se, indo até a agência bancária onde recebia seus proventos. Ele sempre retirava os valores redondos dos contra-cheques, deixando os quebrados para formar o que ele chamava de um fundo de emergência. Foi isto exatamente o que me salvou naquela situação emergencial, permitindo-me reembolsar os colegas. Um fato interessante foi que não restou na conta mais nada de saldo, depois de sacado o valor estritamente necessário.
     Diante de tais providências, continuei no emprego e, poucos meses depois, com a saída do Adalberto, o Luiz assumiu o lugar de chefe do departamento, passando-me para os serviços exclusivamente internos, e admitindo outro rapaz para as funções externas.
     Em dezembro daquele mesmo ano casei-me e passei a morar em um cômodo reservado na casa de meus pais. O mano João, muito habilidoso, abriu uma porta lateral, para que esse cômodo ficasse com entrada independente.
     E a vida foi seguindo em frente, oferecendo-me novas experiências, que contarei na sequência. ///

domingo, 4 de agosto de 2013

09. DOIS CAMINHOS E UMA ESCOLHA

     Já era um pouco tarde da noite, creio que uma dez horas ou mais; voltávamos do parquinho de diversões instalado no pátio contíguo à Igreja São Jorge, na Bento esquina Aparício, eu e o meu inseparável amigo Wilton (Leia-se Vilton, ok?). Ao passarmos por duas meninas que vinham na direção oposta, brinquei: -"O que é que duas garotas fazem na rua uma hora dessas?". Uma delas respondeu algo que não entendemos e o Wilton perguntou: -"O que foi que você disse?". Houve uma nova resposta, mas agora elas já iam a uma distância um pouco maior e não conseguimos registrar suas palavras novamente. Então o Wilton me falou: -"Vamos atrás delas, Ivo?" (Ele sempre me chamava de Ivo). -"Ué! Vamos", falei.
     Apressamos os passos para alcançá-las. Quando já estávamos nos aproximando das duas, elas trocaram de lado entre si, como num jogo de sorte (ou de azar).
     Abordei então a que ficara do lado que eu estava e o meu amigo a outra. Elas pararam. A minha pergunta foi a mesma de antes: -"O que é que duas meninas estão fazendo na rua a uma hora dessas?". E ela me respondeu: -"Nós estamos vindo de um encontro de jovens da Primeira Igreja Batista do bairro..."; não lembro a que bairro ela se referiu. O certo é que eu gostei de saber que estava tratando com duas gurias direitas, já que vinham de um evento religioso. Ela disse ainda que morava logo na próxima rua (uma travessa entre a rua em que estávamos uma de suas paralelas).
     Lembro-me vagamente de que a outra garota era da outra igreja, ou seja de outro bairro, e havia vindo passar aquela noite na casa da amiga. Não deu nada entre ela e o Wilton.
     Chegamos à esquina da travessa onde morava a senhorita Eva Beatriz, com quem eu conversava, e, depois de alguns minutos dialogando, combinamos de nos encontrarmos no dia seguinte, à noitinha, de preferência na outra esquina, que era mais perto de sua casa.
     Fui sozinho ao encontro e já fui logo falando em namoro. Fiz questão de dizer que se tratava de coisa séria, que até gostaria já de falar com seus pais. Ela me falou do pai, que era meio nervoso, meio ríspido com os futuros genros, pois já conhecia bem "a fera", uma vez que tinha duas irmãs casadas. Nisto, depois de uma meia hora de conversa, veio ao nosso encontro a senhora mãe dela, desconfiada. Perguntou à filha o que significava aquilo e a resposta foi de que eu estava querendo pedi-la em namoro. A senhora, com ares de certa severidade, quis saber quais eram as minhas intenções. Satisfeita com a minha resposta, falou-me também do marido; disse que era brabo e que ela teria que "fazer o nosso lado", com certa cautela. Conversamos mais um pouco e combinamos que eu as acompanharia ao culto de domingo na Igreja Batista, que ficava a poucas quadras dali.
     Assim começamos o namoro, eu com 19 anos e ela com 17. Eu me sentia o tal. Para quem era tão tímido, saíra-me bem demais.
     Acredito em Destino, mas não em Fatalidade. Como costuma dizer a Neida, minha esposa há 41 anos: "A vida sempre nos aponta dois caminhos e nós temos que escolher um dos dois".
     Para o leitor que não sabe ainda o desfecho desta história, este é um nó que vou desatar talvez já no próximo texto, ou no outro seguinte; ainda não sei, pois ainda não os escrevi.
     Prosseguindo: Eram fins de 1968. Eu havia concluído o primeiro ano do científico e passara por média em quase todas as matérias. Tivera de fazer apenas dois exames finais, precisando de meio ponto em uma e um ponto e meio noutra. Não obstante, o fato novo era que eu havia iniciado aquele namoro pra valer, o que me levou a tomar uma decisão: interromper o ciclo estudantil. Agora eu teria de arrumar um emprego, trabalhar para sustentar o futuro lar. Além do mais, não havia nenhuma perspectiva de eu chegar a uma faculdade, por falta de recursos financeiros, e, pensava assim, eu não iria aguentar o tranco que a maioria dos meus colegas do noturno enfrentava, tendo por objetivo apenas a conclusão do científico, do qual ainda faltavam dois anos. Não imaginei que um dia o agora chamado "2º. grau completo" teria um peso tão grande. Na época, quem tinha o ginásio completo já estava feito, em termos de mercado de emprego.
     Dois anos... Vocês se deram conta? Aqueles dois anos que joguei fora lá no início do ginasial eram os dois anos que me faltavam para terminar o científico. Se eu não os houvera desperdiçado, estaria naquele momento com o científico concluído, e a história que estaria contando seria bem outra.
     Era, portanto, uma escolha do passado repercutindo no presente e que iria repercutir ainda mais no futuro, uma vez somada com a nova escolha que acabara de fazer. Depois, certamente, viriam, como de fato vieram, outras tantas escolhas, que foram mudando os meus rumos. E assim acontece com todas as pessoas neste mundo. Esta é uma lição que só agora estou racionalizando. Muitas vezes culpei ao Destino, pelas opções que me ofereceu, quando deveria era ter-me culpado pelas escolhas que fiz. "Há sempre dois caminhos e uma escolha". E essa escolha, ou melhor, essas escolhas é que realmente irão compor a nossa história. ///

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

08. UM JOVEM EM RITMO DE AVENTURA

     O mano Pedrinho (Jesus Pedro), o único que serviu ao Exército Brasileiro, mas que, por insistência da mãe, desistiu de seguir a carreira militar, trabalhava agora na empresa Irmandade do Arcanjo São Miguel e Almas, administradora do primeiro e maior cemitério com galerias, chegando a até 5 andares e com elevador, de Porto Alegre. Nessa empresa trabalhavam, já antes do meu irmão, um tio de minha mãe (funcionário desde a fundação do cemitério), Israel Torres; meu avô emprestado e padrinho de batismo, padrasto de minha mãe, Vitório Semensato; meus tios Oswaldo, Valter e Cláudio (irmãos da mãe); o tio Alceu, marido da tia Lídia (também irmã da mãe), e dois primos, se a memória não me falha.
     Havia um serviço particular que alguns clientes contratavam junto aos funcionários e que podia ser feito por eles em suas horas de folga, ou terceirizado. Era a limpeza e conservação dos jazigos familiares, incluindo o polimento das letras e números em bronze ou metal cromado. Por esse tempo o mano Pedro propunha-me a execução desse serviço, remunerando-me conforme os valores cobrados aos clientes, para o que eu reservava duas manhãs ou tardes por semana. Era o meu primeiro dinheirinho no bolso, geralmente usado para a compra de discos, o que mais me empolgava nessa época.
     Um fato digno de anotação: Um certo dia, indo para o cemitério, havendo embarcado em um micro-ônibus da linha Caldre e Fião, ocorreu que, depois de uma três paradas, em uma descida não muito acentuada, porém longa, o veículo perdeu o freio. Eu estava em pé junto ao primeiro banco, próximo à porta, que havia sido aberta quando se aproximara de um ponto de embarque. Ao perceber as manobras do motorista para conter o veículo, que já desenvolvia uma certa velocidade, um senhor, que estava bem ao meu lado, fez menção de saltar para fora, descendo o primeiro degrau, desesperado. Eu o segurei firme pelo braço, não permitindo que fizesse aquela loucura, pois  com certeza se machucaria. O motorista percebeu isto e acionou o fechamento da porta, pedindo calma aos passageiros. O pior é que lá no final da rua, só havia uma outra rua transversal, a rua Professor Oscar Pereira. O coletivo deveria dobrar à direita, mas na velocidade em que estava, se fizesse a curva fechada, tombaria. Além disso, se estivesse passando algum veículo naquele momento a colisão seria inevitável. O que fiz eu? Orei. Pedi proteção para todos nós, passageiros e para aquele motorista, que tudo estava fazendo para minimizar uma possível fatalidade. Quase abalroou uma carroça que havia ingressado na rua por onde descíamos. Ao chegar o momento de dobrar para a rua Oscar Pereira, ele abriu bem para a esquerda e, graças a Deus, não havia nenhum veículo em trânsito, em nenhuma direção, quando então, na contra-mão e já em um aclive que havia nessa via, ele conseguiu estancar o coletivo, segurando-o no freio de mão. Saímos todos ilesos. Foi um susto e tanto, mas eu mantive a calma o tempo inteiro, orando e confiando na Providência Divina. E eu era apenas um adolescente, só para lembrar.
     Depois, meu irmão foi promovido para outro setor, indo trabalhar no escritório central da empresa, no centro da cidade. Ali ele também me arrumou um "bico", que consistia em tramitar com a papelada exigida para transladações de corpos ou ossadas para outras cidades do estado e até para outros estados do país, pelos órgãos competentes, efetuando pagamentos de taxas em cartórios, encaminhando pedidos de deferimento, etc. Esta nova atividade também foi muito gratificante, pois me rendeu boas experiências e certa desenvoltura.
     Durante o período em que "trabalhei" no cemitério, o que mais adorava, enquanto executava a tarefa, era ficar ouvindo a música clássica que sonorizava o ambiente através de algumas dezenas de pequenas caixas de som espalhadas por todos os corredores e andares daquelas galerias. Eram melodias suaves da coleção "Música à Luz da Oração", da Orquestra de Câmera RGE, sob a regência do Maestro Simonetti, da qual tenho em meu poder os volumes 1, 2 e 5, em vinil. De vez em quando os escuto. Tenho algumas dessas músicas e outras do gênero em CD-MP3, que ouço no carro, principalmente enquanto me desloco para os trabalhos espirituais no Centro Espírita, pois considero esse tipo de música, assim como os hinos evangélicos instrumentais, dos quais também possuo um CD e 2 LPs, como uma forma de criar um ambiente propício à elevação do espírito.
     Enquanto isso, voltando ao passado, a Jovem Guarda corria solta, com a aparição de novos cantores, cantoras, conjuntos vocais e instrumentais, ao lado da nova Bossa Nova e dos grandes sucessos românticos italianos, franceses e os, sem dúvida indispensáveis, "hits" americanos ou de outras nacionalidades, mas no idioma mais difuso do planeta, donde se originavam inúmeras versões.
     Eu até já estava gostando, mas sem supervalorizar ninguém daquelas tribos, nem mesmo os ídolos máximos da juventude de então, Roberto Carlos e Beatles, que ponteavam todas as paradas de sucesso de todas as emissoras de rádio.
     Um dia o amigo Wilton chegou, eufórico, convidando-me para assistirmos a um show do Roberto Carlos e outros cantores, que iria acontecer dali a uns dois dias no Ginásio de Esportes da Brigada Militar. O ingresso era apenas um brinquedo de qualquer valor, que seria arrecadado e destinado à campanha do natal das crianças pobres.
     Meio de nariz torcido, aceitei o convite. Fomos logo a uma loja de "1,99"... Epa!... He, he, he... Isto nem existia naquela época. Compramos os brinquedos e lá estávamos nós, no dia do show, enfrentando uma fila que já fazia a segunda volta em torno do pavilhão. Eu continuava torcendo o nariz, achando que não valeria muito à pena, mas aguentando o sol quente na cabeça para não perder o amigo, que até então já me fizera pegar certo gosto pela música dos Beatles, que antes para mim era indiferente.
     Depois de algumas longas horas de espera, começou o espetáculo com a apresentação da cantora Vanusa e do cantor Eduardo Araújo. Não me lembro bem, mas parece que teve mais algum, antes da entrada do tão esperado rei da Jovem Guarda. Eu estava apenas curioso. Afinal, ver um artista da televisão e de tanto sucesso ao vivo, não era nada comum.
     De repente, um grupo de jovens instrumentistas ocupou o palco, e, depois de alguns preparativos e ajustes nos instrumentos, entoou seus primeiros acordes (era o já famoso RC-7), com uma vibração tão envolvente, que, em meio à gritaria geral, correu-me pelo rosto, próximo às orelhas, no sentido do pescoço para os cabelos, uns arrepios incontroláveis. Uma indizível emoção me assaltara, inexplicavelmente.
     Os acordes eram nada menos do que a introdução, um pouco mais demorada, como a fazer suspense, da música "Eu sou terrível", faixa 1 do lado 1 do novo LP: "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura", lançado juntamente com o filme de mesmo título naquele ano de 1967.
     Peguei vocês, com o título deste texto, hein? Garanto que ainda não haviam entendido a ligação desse título com a minha personalidade, é ou não é? Mas, ah! meus amigos: "Quando" ele entrou naquele palco, entrou também na minha vida. "E por isso estou aqui". Desde aquele momento tornei-me fã incondicional desse cara. É mesmo! Se tem um cara que é fã incondicional do Roberto Carlos, de ontem e de hoje, "esse cara sou eu". Tenho quase a coleção de vinil completa, umas 20 fitas cassete gravadas com seleções feitas por mim mesmo, alguns CDs originais, 4 CDs-MP3 e um pendrive com mais de 300 músicas.
     Tá bom, ou querem mais? ///

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

07. UMA NOVA ETAPA: A ADOLESCÊNCIA

     Na nova etapa estudantil, tudo mudou. Aprendi a gostar de português, que era uma das minhas dificuldades anteriores. A professora chamava-se Mariazinha. Pequenina no porte físico, mas muito inteligente e hábil para ensinar e empolgar os alunos em relação à complicada, porém riquíssima matéria, que tem tudo a ver com o meu gosto atual por escrever. Ah! se não tivesse feito aquelas bobagens, quem sabe eu pudesse ser hoje um jornalista, quem sabe fosse um filósofo, um psicólogo, um escritor famoso? Mas, deixa pra lá.
     Lembro-me também do professor Marques, de matemática, com quem só não aprendia quem não quisesse mesmo. Ele era um gênio, talentoso no fazer a gente raciocinar diante dos números e das operações mais intrincadas. Acompanhou-me, assim como a "profe" Mariazinha, da primeira à quarta séries do ginásio.
     Nas demais disciplinas era só uma questão de esforço pessoal e de tempo, que para mim havia de sobra, graças aos meus pais queridos, que tudo faziam para que eu não precisasse trabalhar enquanto me dedicasse aos estudos. A maioria dos meus colegas era formada por jovens que haviam retornado aos estudos depois de uma parada estratégica, e adultos, pais e mães de família, que trabalhavam e sacrificavam o próprio descanso, o conforto do lar e o convívio com os filhos, indo, heroicamente, direto do serviço para a sala de aula. Eu os admirava e me dava muitos melhor conversando com pessoas assim, mais maduras e sofridas, do que com a gurizada da minha idade. Colhia muitas experiências.
     Depois de algum tempo, substitui o bonde pelo ônibus, do qual apeava a uma distância bem menor de casa. Chegava em casa quase meia-noite e encontrava sempre a minha mãezinha debruçada no muro, à minha espera, muitas vezes no sereno. Eu lhe dizia da não necessidade disso, mas ela alegava que não conseguia ficar dentro de casa, pois tinha o coração apertado, aflito e ficava orando em silêncio para que nada de mal me acontecesse. Só ficava aliviada ao ver-me aproximando. E isto foi assim durante todos aqueles anos. Só para deixar bem claro, naquela época não existia telefone celular; o telefone convencional era só para famílias abastadas, e nem sequer havia o tal de "orelhão" nas esquinas da cidade. Comunicação, só pessoalmente, mesmo.
     Durante essa fase, o meu irmão João já estava trabalhando em um restaurante, no 12º. andar de um prédio comercial no centro da cidade; e o mano Valter, que não quisera seguir além do 3º. ano primário, também, trabalhava num depósito de bananas, de propriedade de um vizinho nosso, à rua Guilherme Alves. O Valter começou, aos onze anos, como ajudante de distribuição e na classificação do produto. Aos dezoito, liberado do serviço militar, tirou carteira de motorista e passou a vendedor-distribuidor. Mais tarde, tornou-se empresário do ramo e continua nessa atividade até hoje, por sinal muito bem sucedido.
     Na faixa entre os meus quinze e dezenove anos, também dispensado do serviço militar, por excesso de contingente, a música exerceu um papel muito importante na minha vida. Gostava de ouvir música antiga, desde valsa, tango, bolero, samba, samba-canção, marcha-rancho, marchas e dobrados militares, até tudo o que havia de música romântica. Já tínhamos um aparelho de som (eletrola/vitrola), no qual eu fazia minhas seleções musicais variadas, como se estivesse numa rádio. Sonhava ser radialista, apresentador de programa. Não dava muita bola para o movimento da Jovem Guarda, pois achava aquilo tudo meio maluco, letrinhas sem graça, ritmos indefinidos, vozes pequenas. Preferia a Velha Guarda, mesmo.
     O mano João havia aprendido com um colega seu, a quem chamava de "Mano", a tocar violão. Descobrimos que um primo nosso, o Alceu, filho da tia Mercedes, irmã do nosso pai, agora residente em Gravataí, também tocava violão e fazia uma dupla com um seu irmão de criação, apresentando-se em festas e eventos, tocando e cantando boleros mexicanos, em espanhol. Por influência dessa dupla, o João e eu passamos a colecionar letras de boleros e a cantá-las, também em espanhol. Interpretávamos os maiores sucessos do Trio Los Panchos, Trio Cristal, Los Viñales, entre outros. Eu fazia a segunda voz e até compramos um par de maracas, com que eu ritmava, enquanto o João dedilhava as cordas do instrumento simples, mas majestoso, que ele mesmo havia comprado.
     Depois, começaram a aparecer alguns amigos que também mandavam bem na viola. Um deles gostava somente de sambas e outro era fissurado nos sambas-canções do Nelson Gonçalves. Eu me empolguei e comecei a cantar também alguns sambas mais conhecidos e adorei interpretar o Nelsão, dividindo o espaço com esses amigos, que me incentivavam e até elogiavam a minha voz e afinação.
     De repente, não sei exatamente quando, apareceu um novo amigo, também trazido pelo João, e que também tocava violão, o Wilton. Era um neguinho da vila metido a play boy, no bom sentido. Tinha lá uns amigos ricos, guitarristas, tocadores de rock. O Wilton era  um beatlemaníaco de primeira. Ele só gostava de tocar e cantar músicas da ocasião, ou seja, da jovem guarda, mais precisamente dos grupos atuantes, como Renato e Seus Blue Caps, Golden Boys, Os Vips,  Fevers e outros, além, é claro, dos Rolling Stones e The Beatles. E já passei a fazer dupla com ele, nos "saraus" do fundo do quintal, fazendo igualmente a segunda voz. Mandávamos, por exemplo, do repertório de Renato e Seus Blue Caps: "Eu sei", "Até o fim",
"Gosto de você", "A primeira lágrima" e "A irmã do meu melhor amigo". Sucesso absoluto. Nossas fãs, as minhas manas Eloá e Iná, também a amiga e vizinha Najara, elogiavam o nosso vocal e apreciavam os nossos shows gratuitos, em que soltávamos a voz, sem nenhuma reserva.
     Foi muito lindo esse tempo. Que saudades! Se pudesse apertar um botão e voltar ao passado, quanta coisa boa teria para rever e, se possível fosse, reviver.
     Mas tem mais coisas para relembrar dessa mesma época. Aguardem o próximo capítulo da minha história, do que eu lembro da vida. ///