sexta-feira, 16 de maio de 2014

29. OS DESAFIOS DA NOVA PROFISSÃO

       Após um rápido desenho da profissão de barbeiro, mostrando-me as vantagens e os desafios que eu encontraria ao exercê-la, o Orlando informou-me que o curso seria em sua própria residência, na Cohab Tablada, umas sete ou oito quadras distante da minha casa. Era para que eu conseguisse alguns modelos, entre homens e guris, meus vizinhos e amigos, podendo incluir o meu filho André, combinando com eles que seria atendido um por dia, após as 20:30 horas. Eu aprenderia a cortar cabelos masculinos de todos os tipos possíveis na prática. No início ele faria os acabamentos, até que eu tivesse um maior domínio para fazê-los eu mesmo. Ao cabo de um mês e dez dias, mais ou menos, já sem opções de modelos, ele me colocou à prova. Eu deveria cortar o cabelo do seu filho Diérre, que era um menino de mais ou menos uns 12 anos. Devo dizer que durante essa prova fiquei molhadíssimo de suor, dada a responsabilidade tamanha de não fazer nenhuma bobagem que afinal pudesse estragar o cabelo do menino, ou que demonstrasse a minha inaptidão, pois que se tratava de um cabelo que ele estava acostumado a cortar, e eu, sei lá, poderia fazer totalmente diferente. Foi um sufoco. Mas, ao término da terrível prova, o mestre me disse que havia me saído muito bem, dando-me por pronto para trabalhar e adquirir, no dia-a-dia de um salão, a prática e o desenvolvimento necessários para firmar-me na profissão que iria me garantir um futuro bem melhor, em termos de rendimentos e de realização pessoal.
        Enquanto aguardava que ele mesmo conseguisse uma oportunidade para mim em outro salão, pois no Pará não havia nenhuma cadeira vaga e convinha mesmo que eu praticasse em um salão menor, menos tumultuado, aproveitei para passar um final de semana na estância do tio Joares, irmão da Deloá, que se situava um pouco adiante do Povo Novo e antes de Domingos Petroline, já no município de Rio Grande.
      Não estou bem certo se antes ou depois desses dias que lá passei fui ao Asilo de Mendigos, cortar os cabelos dos idosos, e ao Exército da Salvação (por indicação do amigo Zé, lá do Pará), cortar os cabelos da gurizada. 
       Finalmente, no início do mês de julho comecei a trabalhar no salão do senhor Carlinhos, na rua Quinze de Novembro, próximo ao Diário Popular. Nesse salão havia quatro cadeiras, uma que ele mesmo ocupava e duas com os companheiros Paulo e Darcy. Passei então a ocupar a quarta cadeira, sendo para mim encaminhados os clientes que não tinham preferência por nenhum dos três. O problema é que a rotatividade de clientes forasteiros (aqueles que vinham pela primeira vez ao estabelecimento) era bem pequena. Tinha dias de atender um só, dois, no máximo três, às vezes nenhum. Chegava a passar uma semana inteira atendendo menos de doze clientes, o que dava uma média inferior a dois clientes por dia. Tinha momentos em que me via quase a ponto de desistir de tudo e voltar a procurar serviço em escritórios de transportadoras. Sentia-me muito mal cada vez que chegava em casa e dizia: - "hoje atendi só um", ou, "hoje não atendi ninguém". Chegava a vibrar, quando podia dizer: - "hoje atendi três clientes!".  
       Exatamente no último sábado de agosto, quando já completava dois meses angustiosos naquele salão, só assistindo os colegas trabalharem e, ainda por cima, com métodos bem diferentes daquele que havia aprendido com o Orlando, eis que ele me liga e me convida para tomar um cafezinho no Aquário. Estava parado, avisei o sr. Carlinhos e saí imediatamente. Lá chegando encontrei-o sorrindo à minha espera junto ao balcão.  Fez o pedido de dois pingados (cafezinho com leite) e falou-me: - "Eu já conversei com o Carlinhos e segunda-feira podes vir direto aqui para o Salão Pará. Um rapaz que havia ocupado uma cadeira um pouco antes de eu te ensinar a profissão me pediu para sair, pois não estava se adaptando ao nosso sistema de trabalho. A cadeira que ele está desocupando hoje será tua a partir de segunda-feira. Depois a gente conversa melhor sobre as normas do salão. Mas podes ficar tranquilo que eu sei que tu vais te dar muito bem com a gente e com todo o pessoal aqui, pelo teu perfil tranquilo e pelo teu caráter, que eu já conheço muito bem".
    Saí dali emocionado, vibrando positivamente, agradecendo aos Céus por aquela maravilhosa oportunidade e fazendo os melhores votos para encarar todos os desafios futuros. 
       Para se ter uma ideia, naquele sábado (e sábado é sempre o dia de maior movimento em qualquer salão) atendi 4 clientes, todos no período da tarde. Na primeira segunda-feira no Salão Pará (e segunda, ao contrário, é sempre um dia de pouco movimento, tanto que muitos salões nem abrem nesse dia) atendi 5 clientes.
      Todos os colegas me ajudaram muito a me sentir à vontade e a tirar algumas dúvidas que às vezes me sobressaltavam em alguns cortes que ainda não praticara suficientemente para fazê-los com convicção e desembaraço. O próprio Orlando me dava muitas dicas que não me havia dado durante o curso, até por não termos tido nenhum modelo apropriado para que aquelas informações me fossem acrescentadas.
       Mais contente ainda fiquei quando começaram a retornar alguns clientes, cerca de 30 a 45 dias depois do primeiro atendimento, ou uma semana depois, quando se tratava de barba, o que me causava maior confiança em mim mesmo, acabando aos poucos com aquela insegurança própria de qualquer principiante.
       Um detalhe digno de nota é o de que o Orlando, numa prova de confiança na minha pessoa, entregou-me uma cópia das chaves do salão para que eu o pudesse abrir quando chegasse mais cedo e fechar quando precisasse ficar até mais tarde para atender algum cliente que me solicitasse horário após as 19 horas, horário em que o salão costumava encerrar o expediente. A esse gesto procurei corresponder com a maior correção possível, uma vez que havia aprendido a lição, extraída daquele episódio já narrado da última empresa em que trabalhara.
       Se querem ter uma ideia de como a lição foi mesmo proveitosa, hoje coleciono canetas, como todos sabem; e posso chegar em qualquer local onde tenha uma caneta "dando sopa" que jamais me apossarei da mesma, a não ser que a peça a quem ela pertença de direito e essa pessoa a doe conscientemente para a minha coleção. Isto é só um exemplo. Durante os oito anos que fiquei no Salão Pará, nenhum incidente ocorreu que envolvesse qualquer dúvida à minha honestidade e à dignidade deste cidadão.
       Mais adiante contarei sobre a minha saída daquele estabelecimento. ///
       

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