sexta-feira, 30 de maio de 2014

33. FILHOS DE NOSSAS ALMAS

       Falar de como e porquê os nossos filhos Ana Paula e Carlos Eduardo chegaram até nós, pelas vias do destino e do coração, principalmente no que se refira às razões das pessoas que os entregaram aos nossos cuidados paternais e maternais, confiantes de que os amaríamos tanto quanto amamos aos que nós mesmos havíamos gerado, seria invadir histórias que não nos pertencem, e, portanto, não me acho no direito de aqui mencionar quaisquer das circunstâncias que envolveram os eventos específicos do nascimento biológico de uma como do outro. Os motivos e as condições particulares referentes às atitudes tomadas pelas duas pessoas mais diretamente envolvidas nesse processo ficam, assim, devidamente preservados. Importante registrar somente o que representou para nós, para o nosso grupo familiar, a chegada de cada um dos dois bebês muito amados e a inclusão de mais duas datas comemorativas anuais cercadas de muita alegria para todos e de grande satisfação geral.
       A Sílvia estava com 10 anos, o André com 13 e a Bia com 15, quando a Aninha chegou, em 02 de julho de 1988, criando aquele clima de euforia em todos da casa. Como já mencionei anteriormente, morávamos na rua Dr. Cassiano e a vó Deloá ainda estava entre nós. Pena ela ter podido curtir tão pouco a netinha por quem se apaixonou à primeira vista e que adorava acolher e embalar em seus braços.
       Quando já nos encontrávamos na casa da Marcílio Dias, onde tocávamos a vida em frente, víamos a pequena Ana Paula crescer e desenvolver uma personalidade forte, voluntariosa. Nesse aspecto, aliás, era muito parecida com a Sílvia, mais do que com os outros dois irmãos, Bia e André.
       Quando ela estava com 8 anos, em 07 de agosto de 1996, eis que um novo "marujinho" embarca na nossa nau familiar, ganhando o nome de Carlos Eduardo e o apelido carinhoso Dudu, sendo chamado também, em família, de Dúdi. 
       Pequenino ainda, mostrava-se dono de um sorriso que chamava a atenção, por vir sempre acompanhado de um brilho intenso nos olhinhos, conquistando com muita facilidade a simpatia de todos. A Bia, nesse ínterim, contava com 23 anos e não estava mais em Pelotas, assim como o André, com 21 anos, ela morando em Antônio Prado e ele em Porto Alegre, ainda que não definitivamente, pois faziam seus respectivos estágios, sobre os quais falarei noutra ocasião. A Sílvia, com 18 anos, ainda morava conosco e preparava-se para casar-se. Deu ao maninho um lindo quarto todo branco.
       Um detalhe interessante: o Dudu foi o único dos nossos filhos que usou fraldas descartáveis. Até então, além de utilizarmos as tradicionais fraldas de pano, das quais tínhamos que tirar as sujeiras depositadas pela ação natural das necessidades fisiológicas, o que sempre fizemos com amor, não tínhamos máquina de lavar, e isto nos obrigava a muitas vezes enfrentar um tanque com água gelada, em pleno inverno. Mas tudo isso fazia parte de uma história bonita, da qual não mudaríamos nada se preciso fosse revivê-la desde o princípio.
       Devo esclarecer que lá no passado longínquo, quando a Neida e eu éramos apenas namorados, já faziam parte dos nossos sonhos e planos dois filhos não biológicos, que seriam acolhidos, oportunamente, e sob as graças dos Céus, como filhos de nossas almas. E fomos assim abençoados com cinco joias preciosas, que só nos têm proporcionado alegrias e um profundo orgulho, por serem todos tão amorosos e de índole própria tão boa. Embora as dificuldades por que passamos, dando-lhes, muitas vezes, condições um tanto modestas de desenvolvimento no campo educativo, prevaleceu em cada um deles o valor moral e a vontade própria, que os fez e faz seguir suas jornadas de crescimento pessoal, com galhardia, o que nos enche de felicidade e gratidão.
       O Dúdi está quase completando 18 anos e a Ana completa 26 anos, neste 2014. Só para adiantar um pouco do que ainda tem pela frente dessa história tão linda, ele está aqui conosco, trabalhando e estudando, enquanto ela está, neste momento, em Brasília, já formada em Museologia e em Conservação e Restauro (duas faculdades), sendo mestra em Arqueologia. Isto, graças, primeiramente, ao grande auxílio recebido da mana Sílvia e do cunhado Marcos, que a abrigaram por largo tempo em sua casa, em Pelotas, além de proporcionar-lhe os meios necessários, financeiramente, para que pudesse preparar-se para o vestibular e manter as despesas concernentes aos cursos realizados, e, depois, ao seu esforço próprio, indo morar com um grupo de amigos e colegas de faculdade, havendo conseguido uma bolsa para o seu mestrado, sempre fazendo jus às melhores notas e enriquecendo seu currículo com experiências que se deveram igualmente ao seu excelente desempenho em concursos corajosamente enfrentados.
       Não vou dizer que o convívio entre a nossa filha, sempre amada, e nós tenha sido, por todos esses anos, o mais perfeito "mar de rosas", pois estaria mentindo se o dissesse. A Ana Paula vivenciou um conflito interior que por muitas vezes nos causou preocupação e até uma certa angústia, porquanto o que mais queríamos era que ela se sentisse feliz e isto parecia-nos, em dados momentos, não acontecer.
       Mas, como nada está fora do lugar e do tempo certo, já ao final do ano passado ela conseguiu estabelecer contato com a mãe e o irmão biológicos, Regina e Andriego, passando a se relacionar afetivamente com ambos e com o restante da família materna, o que foi da maior relevância em sua vida. De lá para cá, parece-nos que ela está bem mais feliz, mais segura, mais completa, não obstante o mesmo amor continue nos unindo e até com laços mais fortes, pois aprendemos que os nossos sentimentos só se multiplicam quando ocorre serem divididos.
       Devo dizer que temos um carinho muito especial pela Regina e que sempre esperamos por esta oportunidade de dividir com ela o amor da nossa filha querida.
       Quanto ao Carlos Eduardo, é uma outra história, que aqui ainda não me cabe explorar. Só temos que deixar que o tempo nos mostre os caminhos que ele mesmo irá seguir daqui para a frente, já que tudo está em paz, mas sabemos que ele também tem a sua personalidade toda própria, e que ela o guiará às conquistas pessoais. Assim como os irmãos, trata-se de pessoa digna, de coração muito bom e com um projeto de vida voltado para o bem, para o lado positivo. Todos desejamos-lhe um futuro de grandes conquistas pessoais, e, no que depender de cada um de nós, pais, irmãos e cunhados, ele será sempre um importante membro deste grupo, que caminha lado a lado sob aquele antigo lema dos mosqueteiros: "Um por todos e todos por um", respeitando-se as individualidades.
       O que posso dizer, e o faço com o coração transbordante de emoção, é que somos uma família e que a nossa família é maravilhosa, simples assim. Valeu "meus amores". ///



        

quinta-feira, 22 de maio de 2014

32. NOVOS FATOS GERAM NOVOS RUMOS

       Era o início de 1988 e minha sogra estava precisando de uma ajuda ainda mais efetiva de nossa parte. É que o seu Mário já não conseguia levantar-se da cama sem o auxílio de um braço forte, precisando também ser amparado para ir ao banheiro, o que ocorria pelo menos umas duas ou três vezes por noite.
       Ela, por sua vez, já não tinha condições de ajudá-lo nesse sentido, pois não podia fazer nenhum esforço físico devido aos problemas cardíacos, que, embora estáveis e sob controle, exigiam o máximo de cuidado. A ideia então era de irmos morar junto com eles. E assim ficou combinado e decidido. Alugamos provisoriamente uma casa maior, com três quartos, situada na rua Dr. Cassiano, bem próximo à rua Professor Araújo. O apartamento da Telles foi desalugado e as casas da Osório e Cohab Tablada postas à venda, para que se pudesse comprar um outro imóvel compatível com as novas necessidades.
       Na época, vale recordar, havia uma desvalorização brutal da moeda nacional e o rendimento das aplicações financeiras, inclusive da poupança, eram bastante acentuados, com variações diárias, tornando qualquer transação econômica de vulto em uma verdadeira fonte de tensão emocional muito forte.
       A dona Deloá sempre soubera lidar muito bem com as suas economias pessoais. No entanto, aquele era um momento que exigia redobrada perspicácia e agilidade em negociações do porte da que estava prestes a se concretizar.
       Achamos uma casa que nos pareceu, dentre outras, a ideal. As duas nossas já haviam sido vendidas e o dinheiro apurado devidamente aplicado para não sofrer depreciação de valor. Quando tudo parecia estar correndo favorável, porém, eis que surge um impasse, por problema referente ao espólio da família proprietária daquele imóvel que pretendíamos comprar; e o negócio foi desfeito, o que abalou bastante emocionalmente a minha sogra, que já contava como certa a nossa mudança imediata para a nova casa. Partimos então para uma nova busca, correndo contra o tempo, pois o contrato de locação venceria em seguida e caso não saíssemos antes, o mesmo seria renovado automaticamente e isto incidiria em multa contratual se o quiséssemos cancelar posteriormente, salvo se o fizéssemos em curtíssimo prazo, não lembro de quantos dias.
       Procura daqui, procura dali, surgiu um imóvel que atenderia às nossas necessidades, pelo menos com um pouco de boa vontade da nossa parte. Era o melhor que havíamos conseguido até ali, depois daquela outra que tivera a aprovação total, mas cuja negociação resultara frustrada. Esse novo imóvel situava-se à rua Marcílio Dias, esquina com a rua Major Cícero de Goes Monteiro. Rapidamente a compra foi realizada e providenciado o serviço de um pintor, um amigo de toda a turma lá do salão, a fim de dar-lhe uma traquejada para que pudéssemos habitá-la o mais breve possível.
       Em meio a essa movimentação toda, frenética e repleta de emoções, um fato de grandiosa expressão veio mexer ainda mais com os ânimos de todos nós. Foi o nascimentos da nossa filha Ana Paula, naquele dia 2 de julho. Sendo este um evento tão importante e tão peculiar, requer seja tratado em capítulo à parte. Só o que posso adiantar é que, embora tenhamos sido chamados de "loucos", porquanto já tínhamos três filhos com que nos preocuparmos, ela foi tão bem vinda, que até a vó Deloá chegava do serviço à noite cheia de paixão e de saudades. Assistia a sua novela preferida com a netinha querida ao colo, demonstrando sempre nutrir por ela um carinho todo especial, que, a bem da verdade, não negara a nenhum dos netos. Só que todos eles passaram aquela fase tenra longe dela, em São Paulo, enquanto a Aninha ali estava, macia, frágil, ao mesmo tempo muito esperta, nos braços da "vovó coruja".
       O tempo passava célere e agora já era o dia 12 de setembro, uma segunda-feira como outra qualquer. A casa quase pronta e a mudança com perspectiva de ser feita dentro de breves dias. Minha sogra e eu chegamos de nossas atividades profissionais. Como sempre, jantamos uma boa comidinha feita com o capricho de sempre pela minha esposa e sua filha. A Neida tivera mais um dia de muitos afazeres domésticos, incluindo as atenções cotidianas ao seu Mário e aos quatro filhos, três deles em idade escolar, comprometidos também com seus respectivos deveres de casa, além do neném, a quem não faltavam os cuidados maternos e dos manos babões rotineiros. A conversa na sala, o telejornal, a novela, depois os banhos, todos se acomodando para dormir, tudo corria como de costume.
       Foi então que ouvimos alguns suspiros, entre gemidos, um tanto estranhos, vindos do quarto de minha sogra, e fomos ver o que se passava. Era ela mesma queixando-se de falta de ar, de uma grande dificuldade para respirar. Percebemos logo que a situação era anormal. Rapidamente, ainda sob os seus protestos, pois achava desnecessário, solicitamos um táxi com urgência, enquanto a Neida ligava para o Prontocor, da qual minha sogra era associada. Acompanhei-a até o pronto atendimento do Plano de Saúde, mas já no caminho ela sofreu uma parada cardíaca, tornando a si espontaneamente. Tão logo lhe foi dado o primeiro atendimento, sendo-lhe feitas as perguntas de praxe, ao ser colocada na viatura que a levaria para a UTI do Hospital Santa Tereza (hoje extinto), eis que teve uma segunda parada e foi logo reanimada pela equipe especializada que a atendia, na própria ambulância. Dado o socorro, já com ela consciente outra vez, partiram às pressas, pois não podiam perder tempo algum a fim de salvá-la. Eu segui a pé, pois o hospital ficava a poucas quadras dali, na rua Barão de Santa Tecla. A Neida e a Giselda, esta imediatamente avisada pela prima, chegaram em seguida. Contei-lhes o que havia acontecido e ficamos no aguardo de notícias. Por volta de uma hora da madrugada do dia 13, conforme nos foi informado por um dos enfermeiros, que por sinal era cliente dela e estava bastante abalado ante o fato, ela havia sofrido um terceiro infarte, dessa vez irreversível, levando-a ao óbito inesperado.
     Diante do dramático acontecimento, as filhas do seu Mário vieram buscá-lo, assumindo os seus cuidados, dizendo-nos que agora não competiria mais a nós, sim a elas, a responsabilidade de atendê-lo em suas necessidades, até porque tínhamos um bebê que certamente nos exigiria bastante atenção. Ele contava nessa ocasião com 80, senão 81 anos. 
       Conforme estava previsto, embora não dessa forma, mudamo-nos em seguida para a nova casa, seguindo os novos rumos que agora se nos impunham, de acordo com a lei da vida. ///
       
       

segunda-feira, 19 de maio de 2014

31. SUPERANDO NOVAS DIFICULDADES

       Foi ainda no decorrer do ano de 1985 que a minha sogra descobriu haver contraído um câncer mamário, tendo que se submeter a uma cirurgia e tratamento específico. Isto a abalou emocionalmente de maneira bem severa, mas conseguiu superar-se, tocando em frente. Não bastasse isso, também era paciente de um tratamento para problemas cardíacos, tendo agora de redobrar-se em cuidados especiais. O seu Mário, seu companheiro já de alguns anos, morava com ela na casa da General Osório, embora mantivesse ainda um apartamento alugado na rua General Telles, quase esquina com a Marechal Deodoro.
       Foi então que a dona Deloá fez-nos a seguinte proposta: ela e o seu Mário passariam a morar no apartamento da Telles e nós mudaríamos para o da Osório (que na verdade era um apartamento também, pois tratava-se do espaço ocupado pelo segundo piso de um sobrado, com entrada totalmente independente. Na parte de baixo morava outra família. Cada qual proprietária do seu espaço no imóvel). A proposta visava a ficarmos mais perto deles, facilitando assim o nosso assessoramento, já que ambos careciam de uma atenção mais contínua. A casa da Alfredo Satte Alam, na Cohab Tablada, foi então alugada e nós passamos a residir na Rua Gen. Osório, 354-A, ali bem pertinho da Beneficência Portuguesa. As crianças foram transferidas para o Colégio Estadual Pedro Osório, na mesma rua, esquina com a Dr. Cassiano.
       No final daquele ano resolvemos fazer um veraneio e saímos à procura de uma casa para alugarmos pelo mês de janeiro, no Balneário Barro Duro. Só conseguimos para o mês de fevereiro, o que acabou sendo ótimo, pois o primeiro mês do ano foi muito chuvoso, enquanto o outro foi de tempo bom, ensolarado e quente, muito mais propício.
       O ano de 1986 transcorreu sem nenhuma novidade a registrar. Já éramos trabalhadores do Centro União. Continuávamos indo para a feira do artesanato da avenida, nas proximidades e decorrer do inverno. Eu prosseguia tranquilamente na atividade de barbeiro no Salão Pará. 
       Já no ano de 1987, um susto: após uma tarde inteira com uma inexplicável diarreia, cujo produto era de uma coloração intensamente escura, persistindo durante a noite, eis que, ao levantar-me pela manhã, no horário em que as crianças se arrumavam para ir à escola, tive uma espécie de vertigem, um apagamento, quando me encontrava sentado ao vaso sanitário. Ao recobrar os sentidos, percebi que havia, escorrido pelo pijama e ao chão, um vômito igualmente muito escuro, um tanto atípico. Chamei a Neida, pois ainda me sentia meio tonto. Depois de um rápido banho, vesti-me e ela acompanhou-me até o Hospital Escola da UFPEL, que funcionava nas dependências da Beneficência Portuguesa, exatamente ali na esquina da Osório com a Gomes Carneiro, a menos de trinta metros da nossa residência.
       Medida a minha pressão arterial, fui imediatamente conduzido à UTI de gastro. Sem demora fui submetido a uma transfusão de sangue. Na sequência foi-me aplicado um exame de endoscopia e o tradicional soro alimentar. Somente na tarde do dia seguinte fiquei sabendo que havia ingressado naquela unidade de tratamento quase à beira da morte. Minha pressão havia atingido o baixo nível de 7.5 por 6.l, o que, segundo a enfermeira, representa uma proximidade perigosa entre os fluxos alto e baixo da circulação sanguínea. Se uma chegasse a se "encostar" um pouco mais na outra, seria fatal. E a esta hora eu não estaria aqui para contar toda esta história. Todo aquele "caldo" escuro que eu evacuara nada mais era do que o sangue derivado de duas úlceras abertas, uma delas recidiva, isto é, que antes já havia cicatrizado mas voltara a abrir-se.
       Segundo as enfermeiras de plantão, tratavam-se de úlceras de origem nervosa, o que eu questionei, pois sempre fui um cara muito tranquilo, calmo, às vezes até demais. Porém elas me explicaram que eu podia ser tudo isto quanto às reações às adversidades, mas era muito ansioso quanto às perspectivas de acontecimentos, até mesmo com relação aos mais triviais. Pensando bem, depois dessas explicações, pude constatar que realmente isso acontecia. Muitas e muitas vezes me vi ansioso diante da expectativa frustrada de atingir uma meta diária ou semanal de clientes, vendo o tempo escoar-se sem a esperada e tão desejada resposta, especialmente no que se referia às necessidades financeiras, que eram sempre prementes.
       Lembro-me que, pelo sistema usado no salão para o encaminhamento dos clientes "forasteiros" aos diversos profissionais, contemplando a todos indistintamente, tínhamos a "ficha da vez", mais ou menos como é praticado num ponto de táxi. O que chegou primeiro e à medida em que cada um chegava; depois ao passo em que cada um, após um atendimento, se desocupava novamente, e assim por diante, a sua ficha era colocada na caixinha da recepção. Ora, quem estava na vez torcia muito para que entrasse um cliente sem preferência por nenhum profissional (o forasteiro), a fim de que fosse atendê-lo, antes da chegada de um cliente seu, que certamente o aguardaria para ser atendido posteriormente. Ruim, portanto, era quando eu estava na vez e, muitas vezes depois de um certo tempo parado, naquela expectativa ansiosa, chegava um cliente meu e em seguida um forasteiro, que era passado ao seguinte da vez. Por que não acontecera o inverso? Eu teria atendido dois clientes em vez de um só. Isto me deixava encabulado. Minha sogra chegou a dizer um dia: "Puxa, mas que azarão, hein!". Pense no cara se sentindo o azarado em pessoa a ouvir um "incentivo" desses. Confesso que andei tendo até uma certa inveja do meu companheiro e amigo Chico, que havia começado na profissão e no salão um pouco depois de mim. Ele, ao contrário, sempre que estava na vez era contemplado com um cliente novo e depois, quase que em seguida, chegava sempre um cliente antigo dele, tal como era do gosto de todos nós que acontecesse. E eu ficava me remoendo intimamente, sentindo-me ferido ou perseguido pela má sorte.
       Esses acontecimentos jamais interferiram na minha amizade com o Chico, mas que eu sentia uma certa mágoa, uma ponta de inveja, ou um complexo de inferioridade, lá isto eu sentia mesmo. E sabem como isso terminou? Foi quando eu comecei a comprar numa banca próxima a revista mensal "Psicologia do Comportamento". Os artigos eram muito bons, bastante espiritualizados e esclarecedores. Dois deles foram decisivos para mim: "Querer é sofrer!" e "A inveja o que é?". A partir desses dois artigos, comecei a mudar a minha atitude mental e não tardou muito para que eu pudesse perceber uma reação natural muito positiva. Foi incrível como começou a dar certo para mim também, sem prejuízo de ninguém mais, aquele esquema da chegada de clientes novos antes dos já conquistados, quando na vez eu estava. Aquela velha ansiedade foi-se diluindo e passei a ser muito mais tranquilo, realmente. A minha clientela começou a aumentar bem mais rapidamente. Passei até a ter mais confiança no meu próprio desempenho profissional. ///

domingo, 18 de maio de 2014

30.NOVAS EXPERIÊNCIAS NO PRIMEIRO MEADO DOS ANOS "80"

       Provavelmente no inverno do ano de 1983 conseguimos uma vaga e uma licença da Secretaria de Turismo para exposição e comercialização dos enxovais de bebê e outros artigos de lã na Feira do Artesanato, que até hoje se realiza todos os domingos na avenida Bento Gonçalves. Por essa época estava em moda as meias longas e polainas coloridas que haviam sido popularizadas pela novela "Dancing Days". A Neida as confeccionava e faziam muito sucesso, pela variedade e bom gosto nas combinações de cores que ela usava. Íamos de ônibus carregando uma mesinha desmontável de fabricação artesanal, uma mala e uma sacola grande cheias de mercadorias. Era uma mão de obra bastante sacrificante, mas valia a pena porque faturávamos uma boa grana.
       Para que pudéssemos trabalhar mais livremente, todos os sábados à noite eu levava as crianças para a casa da avó, situada na rua General Osório, 354-A, no centro da cidade.
       Por incrível que pareça, após um período de mais de dois anos sem fumar, a Neida e eu voltamos a conviver com esse vício, que era muito combatido especialmente pelo André. Às vezes, ao aproximar-se de um dos dois, na intenção de ganhar um colo, um aconchego, um beijo, ao ver que se estava fumando, saía logo, dizendo: - "Ih! Você já tá com essa porcaria na mão?!" - e se afastava fazendo cara de nojo, cobrindo o nariz com as mãos numa demonstração de que detestava o cheiro daquela coisa. O "você" como forma de tratamento havia sido adquirido em São Paulo. Só depois de algum tempo é que conseguimos revertê-lo para o "tu", que é a forma convencional usada pelos gaúchos.
       Quando comecei a trabalhar no Salão Pará, em setembro de 1984, ainda fumava, mas tinha o cuidado de não fazê-lo enquanto atendia um cliente. Por isso, muitas vezes tinha que jogar fora um cigarro recém aceso, o que representava um desperdício a mais de dinheiro. Outras vezes repassava-o para o seu Adão, que dizia:  - "Dá pra mim, pra tu não teres que jogar fora. Pelo menos eu aproveito". E, é claro, dizia isto com um sorriso, como que tirando uma folguinha com a minha cara.
       Foi mais ou menos nessa mesma época que começamos a frequentar o Centro União (Sociedade União e Instrução Espírita), na rua Quinze de Novembro, onde permanece a sua sede até hoje, iniciando no ano seguinte o curso preparatório para médiuns. Esse curso se compunha de dois ciclos em um único ano. Depois de sofrer algumas adaptações, aumentando a sua duração, tornou-se no que hoje chamamos "Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita - ESDE", que perfaz um mínimo de 5 anos, podendo estender-se um pouco mais, entre estágios teóricos e teórico-práticos. Durante esses estudos, nos quais nos preparávamos para trabalhar na função de passistas, foi-nos recomendada a leitura do livro "Passes e Radiações", de Edgar Armond. E foi com a leitura desse livro que nos sobreveio a conscientização da necessidade de pararmos de fumar.
       A Neida sentiu um pouco mais de dificuldade em largar o vício. Embora o nosso trato era não acendermos mais nenhum cigarro, ela teve umas pequenas recaídas, sendo denunciada pela Sílvia, que ia logo dizendo, à minha chegada do trabalho: - "Pai, hoje a mãe fumou. Ela tinha (por exemplo) dois cigarros guardados na gaveta e eu vi ela fumando escondida". A guriazinha não perdoava. Dedurava a mãe sem nenhuma cerimônia. Mas, é claro, eu tinha que ser condescendente, uma vez que fora eu mesmo que a colocara nesse vício tão perverso. Logo, porém, ela também o venceu e até hoje estamos livres dessa verdadeira praga tão difícil de ser combatida. Graças a Deus, nenhum dos nossos filhos caiu nessa asneira.
       Outro fato marcante nesse ano de 1985, mais precisamente no dia 20 de março, foi o nosso casamento. Agora era a oficialização da nossa união conjugal. Como já havia ultrapassado o tempo estipulado por lei de separação judicial do primeiro consórcio, que era de dez anos, para o requerimento do divórcio, recentemente aprovado pela legislação do nosso País, solicitamos à prima da Neida, Giselda, que era advogada, para que tratasse dos trâmites legais, o que ela fez gratuitamente, resultando favorável e assim nos possibilitando-nos assentar em cartório do nosso casamento civil. O Orlando e a esposa, Leni, foram nossos padrinhos. A Bia, então prestes a completar 13 anos, o André com 11 e a Sílvia com 7, assistiram à cerimônia. Foi muito gratificante. ///
       

sexta-feira, 16 de maio de 2014

29. OS DESAFIOS DA NOVA PROFISSÃO

       Após um rápido desenho da profissão de barbeiro, mostrando-me as vantagens e os desafios que eu encontraria ao exercê-la, o Orlando informou-me que o curso seria em sua própria residência, na Cohab Tablada, umas sete ou oito quadras distante da minha casa. Era para que eu conseguisse alguns modelos, entre homens e guris, meus vizinhos e amigos, podendo incluir o meu filho André, combinando com eles que seria atendido um por dia, após as 20:30 horas. Eu aprenderia a cortar cabelos masculinos de todos os tipos possíveis na prática. No início ele faria os acabamentos, até que eu tivesse um maior domínio para fazê-los eu mesmo. Ao cabo de um mês e dez dias, mais ou menos, já sem opções de modelos, ele me colocou à prova. Eu deveria cortar o cabelo do seu filho Diérre, que era um menino de mais ou menos uns 12 anos. Devo dizer que durante essa prova fiquei molhadíssimo de suor, dada a responsabilidade tamanha de não fazer nenhuma bobagem que afinal pudesse estragar o cabelo do menino, ou que demonstrasse a minha inaptidão, pois que se tratava de um cabelo que ele estava acostumado a cortar, e eu, sei lá, poderia fazer totalmente diferente. Foi um sufoco. Mas, ao término da terrível prova, o mestre me disse que havia me saído muito bem, dando-me por pronto para trabalhar e adquirir, no dia-a-dia de um salão, a prática e o desenvolvimento necessários para firmar-me na profissão que iria me garantir um futuro bem melhor, em termos de rendimentos e de realização pessoal.
        Enquanto aguardava que ele mesmo conseguisse uma oportunidade para mim em outro salão, pois no Pará não havia nenhuma cadeira vaga e convinha mesmo que eu praticasse em um salão menor, menos tumultuado, aproveitei para passar um final de semana na estância do tio Joares, irmão da Deloá, que se situava um pouco adiante do Povo Novo e antes de Domingos Petroline, já no município de Rio Grande.
      Não estou bem certo se antes ou depois desses dias que lá passei fui ao Asilo de Mendigos, cortar os cabelos dos idosos, e ao Exército da Salvação (por indicação do amigo Zé, lá do Pará), cortar os cabelos da gurizada. 
       Finalmente, no início do mês de julho comecei a trabalhar no salão do senhor Carlinhos, na rua Quinze de Novembro, próximo ao Diário Popular. Nesse salão havia quatro cadeiras, uma que ele mesmo ocupava e duas com os companheiros Paulo e Darcy. Passei então a ocupar a quarta cadeira, sendo para mim encaminhados os clientes que não tinham preferência por nenhum dos três. O problema é que a rotatividade de clientes forasteiros (aqueles que vinham pela primeira vez ao estabelecimento) era bem pequena. Tinha dias de atender um só, dois, no máximo três, às vezes nenhum. Chegava a passar uma semana inteira atendendo menos de doze clientes, o que dava uma média inferior a dois clientes por dia. Tinha momentos em que me via quase a ponto de desistir de tudo e voltar a procurar serviço em escritórios de transportadoras. Sentia-me muito mal cada vez que chegava em casa e dizia: - "hoje atendi só um", ou, "hoje não atendi ninguém". Chegava a vibrar, quando podia dizer: - "hoje atendi três clientes!".  
       Exatamente no último sábado de agosto, quando já completava dois meses angustiosos naquele salão, só assistindo os colegas trabalharem e, ainda por cima, com métodos bem diferentes daquele que havia aprendido com o Orlando, eis que ele me liga e me convida para tomar um cafezinho no Aquário. Estava parado, avisei o sr. Carlinhos e saí imediatamente. Lá chegando encontrei-o sorrindo à minha espera junto ao balcão.  Fez o pedido de dois pingados (cafezinho com leite) e falou-me: - "Eu já conversei com o Carlinhos e segunda-feira podes vir direto aqui para o Salão Pará. Um rapaz que havia ocupado uma cadeira um pouco antes de eu te ensinar a profissão me pediu para sair, pois não estava se adaptando ao nosso sistema de trabalho. A cadeira que ele está desocupando hoje será tua a partir de segunda-feira. Depois a gente conversa melhor sobre as normas do salão. Mas podes ficar tranquilo que eu sei que tu vais te dar muito bem com a gente e com todo o pessoal aqui, pelo teu perfil tranquilo e pelo teu caráter, que eu já conheço muito bem".
    Saí dali emocionado, vibrando positivamente, agradecendo aos Céus por aquela maravilhosa oportunidade e fazendo os melhores votos para encarar todos os desafios futuros. 
       Para se ter uma ideia, naquele sábado (e sábado é sempre o dia de maior movimento em qualquer salão) atendi 4 clientes, todos no período da tarde. Na primeira segunda-feira no Salão Pará (e segunda, ao contrário, é sempre um dia de pouco movimento, tanto que muitos salões nem abrem nesse dia) atendi 5 clientes.
      Todos os colegas me ajudaram muito a me sentir à vontade e a tirar algumas dúvidas que às vezes me sobressaltavam em alguns cortes que ainda não praticara suficientemente para fazê-los com convicção e desembaraço. O próprio Orlando me dava muitas dicas que não me havia dado durante o curso, até por não termos tido nenhum modelo apropriado para que aquelas informações me fossem acrescentadas.
       Mais contente ainda fiquei quando começaram a retornar alguns clientes, cerca de 30 a 45 dias depois do primeiro atendimento, ou uma semana depois, quando se tratava de barba, o que me causava maior confiança em mim mesmo, acabando aos poucos com aquela insegurança própria de qualquer principiante.
       Um detalhe digno de nota é o de que o Orlando, numa prova de confiança na minha pessoa, entregou-me uma cópia das chaves do salão para que eu o pudesse abrir quando chegasse mais cedo e fechar quando precisasse ficar até mais tarde para atender algum cliente que me solicitasse horário após as 19 horas, horário em que o salão costumava encerrar o expediente. A esse gesto procurei corresponder com a maior correção possível, uma vez que havia aprendido a lição, extraída daquele episódio já narrado da última empresa em que trabalhara.
       Se querem ter uma ideia de como a lição foi mesmo proveitosa, hoje coleciono canetas, como todos sabem; e posso chegar em qualquer local onde tenha uma caneta "dando sopa" que jamais me apossarei da mesma, a não ser que a peça a quem ela pertença de direito e essa pessoa a doe conscientemente para a minha coleção. Isto é só um exemplo. Durante os oito anos que fiquei no Salão Pará, nenhum incidente ocorreu que envolvesse qualquer dúvida à minha honestidade e à dignidade deste cidadão.
       Mais adiante contarei sobre a minha saída daquele estabelecimento. ///
       

quinta-feira, 15 de maio de 2014

28. NOTÍCIA RUIM E REAÇÃO INESPERADA

       Sexta-feira santa, íamos todos almoçar na casa da minha sogra. A Neida ia tensa, preocupada em como lhe daria a notícia e como a mãe reagiria, pois era ela quem nos socorria nas dificuldades financeiras. E ali estava se desenhando mais uma dessas situações, pois estava desempregado de novo.
        Chegamos e eu fui em seguida para a sala da tevê, onde o seu Mário costumava estar na sua poltrona confortável. O companheiro de minha sogra se alegrava com as bagunças feitas pelas crianças e com a minha companhia, pois conversávamos bastante. Ele sempre me perguntava sobre o serviço e eu escutava com atenção as suas histórias engraçadas e bastante pitorescas às vezes.
       Sabia que a qualquer momento seria chamado a apresentar minhas justificativas sobre a demissão e os planos para o futuro imediato, isto é, se já tinha algum outro emprego em vista ou como pretendia agir em busca do mesmo. E o momento aguardado com ansiedade não tardou a chegar. Não lembro qual dos filhos veio chamar-me, dizendo que a vó queria falar comigo. Esperava uma expressão de descontentamento, que seria bastante justa e apropriada. Parei frente à porta de acesso à cozinha, onde mãe e filha conversavam. Mas a pergunta que soou em minha direção foi a mais inusitada e inesperada possível: - "Tu gostarias de aprender a profissão de barbeiro?" Foi tamanha a minha surpresa que não sabia nem o que responder, pois sequer jamais havia pensado nessa possibilidade. Só consegui dizer: - "Ué! De repente!
       Minha sogra era manicure do Salão Pará, já de longo tempo. Depois do pequeno lapso de aproximadamente dois anos em Porto Alegre, que deu ocasião à Neida e a mim de nos conhecermos, ela retornara para Pelotas e voltara a trabalhar nesse mesmo local, ainda sob a direção do senhor Homero, antigo proprietário. Tinha uma vasta e seleta clientela, disposta a segui-la onde ela estivesse, na cidade, é claro. O Salão Pará era exclusivamente masculino, assim como a sua clientela de unhas também o era. Os irmãos Orlando e Ari Volcão, profissionais que trabalhavam no salão já havia um bom tempo, tinham comprado o ponto com todas as instalações existentes, passando a dirigir o estabelecimento, que contava, ao todo, com dez cadeiras de barbeiros (todas ocupadas), duas manicures e um engraxate - o Adão, que há bem pouco tempo veio a falecer, ainda em atividade.
       Ela disse-me, então: - "Olha, o Orlando já ensinou a profissão para uns quatro ou cinco, e eu tenho certeza de que se eu pedir a ele pra te ensinar ele não vai me negar. Eu só preciso saber se tu gostarias de aprender ou não".
       Ainda meio sem convicção, falei: - "Bueno, se tiver alguém que me ensine eu aprendo, sim. Não tenho nenhuma dificuldade para aprender. E acho até que vou gostar, não sei".
       Ela ficou de falar com ele no dia seguinte e me avisar caso ele quisesse conversar comigo. Mandaria o recado pela nossa vizinha de lado, já que não tínhamos telefone. Conhecia o Orlando apenas de vista e não tinha intimidade com nenhum dos profissionais do salão. Ainda me marcava bastante a personalidade uma timidez que trazia desde a infância e a juventude, porém não tinha receio de lidar com pessoas novas desde que fosse chamado a fazê-lo, principalmente quando convidado por elas mesmas. A minha maior dificuldade estava em eu mesmo, espontaneamente, forçar uma nova relação.
       Por volta das 10 horas recebi o recado para ir imediatamente até o salão. Já estava pronto e foi só tomar a condução e em cerca de meia hora lá cheguei, bastante ansioso. Apresentado pela minha sogra ao Orlando, ele pediu-me que aguardasse um pouco, pois tinha mais um cliente para atender, depois do que estava já na sua cadeira. Esperei por cerca de quarenta e cinco minutos, até que ele veio ao meu encontro e convidou-me para irmos até o tradicional Café Aquário - na Sete esquina Quinze. Enquanto tomávamos o delicioso cafezinho, que eu nunca antes havia provado, conversamos e nos entendemos. Vejam o resultado da nossa conversa no próximo capítulo destas recordações. ///

domingo, 11 de maio de 2014

27. UM PEQUENO DESLIZE E UMA GRANDE CONSEQUÊNCIA

       O clima em relação à proposta do sr. Zanete, para que eu fosse pra São Paulo, estava assim, na base do "vamos deixar do jeito que está, pra ver como é que fica". Nesse meio tempo, aconteceram dois acidentes envolvendo caminhões que traziam cargas fracionadas de São Paulo para Pelotas, contratados pela Empresa, de uma maneira incrível: um num sábado e outro no sábado seguinte. Em ambos os casos houve tombamento do veículo na estrada, com parte da carga saqueada no local e parte recolhida trazida para o depósito da Empresa, para uma posterior vistoria da seguradora, com fins de indenização pelas avarias e perdas resultantes dos dois sinistros.
       Um certo dia fiquei sabendo que alguns colegas do escritório já haviam carregado consigo alguns itens ali depositados, por conta de que seriam contados entre os que haviam sido saqueados nos locais dos acidentes e de que o seguro ressarciria os valores correspondentes. Então pensei: Por que não me juntar a eles e levar também algumas peças, que, afinal, não fariam grande diferença no cômputo final? Dei uma espiada no que havia e escolhi umas peças íntimas femininas que poderiam ser vendidas na nossa lojinha. Assim recolhi-as e as levei, em três etapas, perfazendo um total de doze peças, mais ou menos. A operação deve ter sido realizada entre quarta e sexta-feiras, já que no sábado não seria possível, pois o expediente acabava por volta da uma hora da tarde e o diretor da Empresa costumava estar por lá nesse momento. Também era de costume ele dar carona a um dos colegas, que morava nas imediações de sua residência, no bairro Três Vendas.
       Naquele sábado, depois de deixarem o escritório, passaram ambos em um bar para tomarem um aperitivo e tratar de alguns assuntos rotineiros. Foi quando o rapaz achou por bem contar-lhe o que se sucedera naquela semana, em relação às mercadorias subtraídas do depósito.
       Não tenho a lembrança precisa se foi naquela mesma tarde, ou se no domingo pela manhã, que o Corcel II do sr. Zanete estacionou em frente à nossa casa. Saí ao seu encontro e ele foi logo me dizendo: - "Evoti, eu vim aqui buscar as mercadorias que tu pegaste lá do depósito. E quero que me entregues tudo, pra bem de eu não ter que ir na polícia fazer um boletim de ocorrência". Não pensei duas vezes, envergonhado pela situação e lhe disse apenas: - "Sim, senhor. Um momentinho". Ele tornou a falar, dizendo: "Os teus colegas ali (apontando para o carro, onde estavam dois dos participantes da ação) já devolveram tudo o que levaram; e daqui nós vamos até a casa do "Fulano" (outro colega). Por favor, não fica com nada, e segunda-feira (ou, talvez tenha dito: amanhã) a gente conversa". Virei-me e fui rapidamente recolher das gavetas de um armário da loja as peças que havia trazido e as apresentei ao patrão, dizendo-lhe que aquilo era realmente tudo o que eu havia pegado.
       Na segunda, depois de mais ou menos umas duas horas de trabalho, surgiu a ocasião e ele chamou-me para a conversa anunciada, que começou mais ou menos nestes termos: - "Como já te disse, eu estou precisando de um funcionário que vá aqui da matriz lá para a filial de São Paulo. Eu gostaria de te dar uma segunda chance, pois já dispensei o "Fulano" e o "Beltrano". Se tu aceitares a tua transferência pra lá, eu esqueço tudo o que aconteceu. Caso contrário eu sou obrigado a te mandar embora. Tu decides." Respondi-lhe: "O senhor é quem sabe. Se o senhor quiser me dispensar, tudo bem. Não posso fazer nada. Eu sei que realmente cometi um erro, pelo qual devo ser punido de alguma forma, e agradeço-lhe muito a confiança que ainda deposita em mim, mas o caso é que pra São Paulo eu não pretendo mais voltar, pois nós estamos bem instalados aqui, eu e minha família."
       Depois de uns trinta segundos em silêncio total, como se meditasse sobre a decisão que iria tomar, ele me disse: "É uma pena!" E arrematou:  - "Podes trabalhar o resto do dia e amanhã não precisas vir mais. Podes ir direto lá no contador acertar as contas com ele".
       Assim foi. Segundo o registro que consta em minha carteira de trabalho, a data oficial da minha demissão foi 18 de abril de 1984, às vésperas de uma sexta-feira santa. Lembro-me bem deste detalhe, porque foi justamente nessa sexta-feira santa que houve algo que posso definir como o primeiro passo para uma grande mudança em relação à minha condição de trabalhador, ou à minha vida profissional. ///