quinta-feira, 8 de maio de 2014

25. NOSSA CHEGADA EM PELOTAS

       Logo que chegamos, com a ajuda de minha sogra, Dona Deloá, alugamos uma casa na Cohab Tablada (Cohab 2), na rua Alfredo Satte Allan, número 622. Era uma casa de esquina. O contrato era por seis meses, ao fim do qual ela nos brindou com a compra de uma outra casa na mesma rua, número 835, a fim de que não pagássemos mais aluguel.
       De vez em quando a Bia, o André e a Sílvia comentam que foi nessa casa que viveram a melhor parte de sua infância e início de adolescência. Falam dela e da época em que ali moraram com uma grande e inocultável saudade. É que, realmente, foi um dos momentos marcantes de nossa história conjunta, que não poderia deixar de ser registrado nessas minhas lembranças.
       O seu Mário, companheiro da minha sogra, havia conseguido para mim um emprego na Empresa Casarin Comércio de Alimentos, estabelecida na avenida Fernando Osório, a uma distância relativamente curta da nossa moradia. Para lá me dirigia por uma estradinha que beirava um canalete de irrigação existente entre o Hipódromo da Tablada e o Aeroporto Internacional de Pelotas.
       Nessa firma fui admitido para trabalhar no setor de transportes, que estava sendo organizado por aquela ocasião, dadas as minhas experiências anteriores registradas em carteira. Uma das contribuições que dei ao setor foi a de adaptar às necessidades peculiares da empresa um esquema de controle de vida útil dos pneus dos caminhões, já que ela possuía uma frota de entregas que percorria toda a zona sul do estado, até aquele momento sem noção do gasto médio de cada veículo na manutenção desse tipo de acessório. Tratava-se de um mapa no qual eram anotados os números correspondentes a cada pneu, sendo fornecida pelo motorista a quilometragem rodada durante cada viagem e as trocas ou concertos de pneus efetuados, também com a indicação da quilometragem em que eram realizados, entre outras informações. Também fazia acertos de contas de viagens com os motoristas e mantinha com eles um relacionamento bastante amistoso. Uma boa parte das minhas tarefas envolviam a datilografia, com o preenchimento de fichas de controle.
       Enquanto trabalhava, gostava muito de assobiar as músicas que me vinham à mente, tanto sucessos do momentos quanto aquelas mais antigas de que eu tinha saudades. Acredito haver sido nessa época que adquiri esse hábito, pois não consigo recordar-me dele em tempo mais remoto. No dia da revelação do amigo secreto, próximo ao natal daquele ano, a colega que tirou o meu nome disse: - "O meu amigo é um cara muito legal, prestativo e se dá bem como todo o mundo aqui no escritório, mas enche o saco o dia inteiro assobiando". Depois dessa passei a me controlar um pouco, mas até hoje é um hábito que não consegui abolir completamente. Volta e meia me pego a assobiar, inclusive melodias autorais, às vezes feitas até de improviso. Outro dia a minha neta Luíza (de 5 anos) perguntou: - "Vô, por que tu estás sempre assobiando?" Só faltou ela me dizer também que eu lhe "encho o saco". Será que não? Será que sim? Preciso esforçar-me um pouco mais para não azucrinar os ouvidos dos meus ouvintes compulsórios.
       Mas, voltando ao Casarin, lá estava eu mais uma vez lutando por um aumento salarial, já que entrara ganhando pouquíssimo mais que o salário mínimo da época. Havia sido admitido na Firma em agosto de 1981 e já corria o mês de outubro de 1982, tendo conseguido uma promessa de aumento promocional de forma muito vaga da parte do chefe geral do escritório. Até que um incidente aconteceu e mudou tudo. Ao sair com o veículo particular do diretor, um Fiat 147 luxo, para buscar seus filhos na escola, uma vez que o motorista incumbido dessa tarefa diária havia faltado por motivo de doença, acabei atropelando um cão que atravessou correndo em minha frente, na avenida Fernando Osório, próximo à antiga garagem da Empresa de Ônibus Esperança. Mesmo havendo acionado o freio não me foi possível evitar o choque com o pobre animalzinho, que deixei, com muita tristeza, agonizando junto ao meio-fio da calçada. Verificando que nada poderia fazer para salvá-lo da morte, restava-me apenas prosseguir a viagem, pois estava bem em cima da hora de saída das crianças, que eu tinha de apanhar no educandário e levar até sua residência, voltando em seguida para o meu posto de trabalho.
       Ao retornar, estacionei o carro bem em frente à porta de entrada do escritório, onde havia uma vaga reservada para o referido veículo, de uso particular do patrão. De repente, irrompeu ele no recinto, com um tom bravio na voz, perguntando quem havia amassado o seu carro. Foi só então que, ao tentar justificar o ocorrido, indo até o veículo para ver do que ele estava falando, percebi que a saia protetora existente abaixo do para-choque dianteiro havia sofrido realmente um considerável dano, um amassamento de boa proporção, que antes eu não havia reparado. Ante as minhas explicações, ele questionou-me, ainda esbravejante, a que velocidade eu deveria estar no momento do choque, para não ter tempo de evitá-lo e causar aquele estrago todo. Sem qualquer interesse em ouvir mais nenhuma consideração da minha parte, virou-se e saiu dali visivelmente irritado. Na manhã seguinte fui surpreendido com uma notificação de que estava sendo despedido. O motivo alegado era de que eu vinha pressionando a Firma em busca de um aumento de salário, o que já não estava sendo muito do agrado da direção, culminando com o fato da tarde anterior que realmente havia irritado bastante o diretor, o qual dera ordem para que eu fosse dispensado, sem justa causa, em caráter sumário. A data desse episódio foi 12 de novembro de 1982, conforme registro feito em minha carteira profissional.
       Mas a vida continuaria e novos fatos se seguiriam, os quais prosseguirei relatando, de imediato. ///
       

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