O clima em relação à proposta do sr. Zanete, para que eu fosse pra São Paulo, estava assim, na base do "vamos deixar do jeito que está, pra ver como é que fica". Nesse meio tempo, aconteceram dois acidentes envolvendo caminhões que traziam cargas fracionadas de São Paulo para Pelotas, contratados pela Empresa, de uma maneira incrível: um num sábado e outro no sábado seguinte. Em ambos os casos houve tombamento do veículo na estrada, com parte da carga saqueada no local e parte recolhida trazida para o depósito da Empresa, para uma posterior vistoria da seguradora, com fins de indenização pelas avarias e perdas resultantes dos dois sinistros.
Um certo dia fiquei sabendo que alguns colegas do escritório já haviam carregado consigo alguns itens ali depositados, por conta de que seriam contados entre os que haviam sido saqueados nos locais dos acidentes e de que o seguro ressarciria os valores correspondentes. Então pensei: Por que não me juntar a eles e levar também algumas peças, que, afinal, não fariam grande diferença no cômputo final? Dei uma espiada no que havia e escolhi umas peças íntimas femininas que poderiam ser vendidas na nossa lojinha. Assim recolhi-as e as levei, em três etapas, perfazendo um total de doze peças, mais ou menos. A operação deve ter sido realizada entre quarta e sexta-feiras, já que no sábado não seria possível, pois o expediente acabava por volta da uma hora da tarde e o diretor da Empresa costumava estar por lá nesse momento. Também era de costume ele dar carona a um dos colegas, que morava nas imediações de sua residência, no bairro Três Vendas.
Naquele sábado, depois de deixarem o escritório, passaram ambos em um bar para tomarem um aperitivo e tratar de alguns assuntos rotineiros. Foi quando o rapaz achou por bem contar-lhe o que se sucedera naquela semana, em relação às mercadorias subtraídas do depósito.
Não tenho a lembrança precisa se foi naquela mesma tarde, ou se no domingo pela manhã, que o Corcel II do sr. Zanete estacionou em frente à nossa casa. Saí ao seu encontro e ele foi logo me dizendo: - "Evoti, eu vim aqui buscar as mercadorias que tu pegaste lá do depósito. E quero que me entregues tudo, pra bem de eu não ter que ir na polícia fazer um boletim de ocorrência". Não pensei duas vezes, envergonhado pela situação e lhe disse apenas: - "Sim, senhor. Um momentinho". Ele tornou a falar, dizendo: "Os teus colegas ali (apontando para o carro, onde estavam dois dos participantes da ação) já devolveram tudo o que levaram; e daqui nós vamos até a casa do "Fulano" (outro colega). Por favor, não fica com nada, e segunda-feira (ou, talvez tenha dito: amanhã) a gente conversa". Virei-me e fui rapidamente recolher das gavetas de um armário da loja as peças que havia trazido e as apresentei ao patrão, dizendo-lhe que aquilo era realmente tudo o que eu havia pegado.
Na segunda, depois de mais ou menos umas duas horas de trabalho, surgiu a ocasião e ele chamou-me para a conversa anunciada, que começou mais ou menos nestes termos: - "Como já te disse, eu estou precisando de um funcionário que vá aqui da matriz lá para a filial de São Paulo. Eu gostaria de te dar uma segunda chance, pois já dispensei o "Fulano" e o "Beltrano". Se tu aceitares a tua transferência pra lá, eu esqueço tudo o que aconteceu. Caso contrário eu sou obrigado a te mandar embora. Tu decides." Respondi-lhe: "O senhor é quem sabe. Se o senhor quiser me dispensar, tudo bem. Não posso fazer nada. Eu sei que realmente cometi um erro, pelo qual devo ser punido de alguma forma, e agradeço-lhe muito a confiança que ainda deposita em mim, mas o caso é que pra São Paulo eu não pretendo mais voltar, pois nós estamos bem instalados aqui, eu e minha família."
Depois de uns trinta segundos em silêncio total, como se meditasse sobre a decisão que iria tomar, ele me disse: "É uma pena!" E arrematou: - "Podes trabalhar o resto do dia e amanhã não precisas vir mais. Podes ir direto lá no contador acertar as contas com ele".
Assim foi. Segundo o registro que consta em minha carteira de trabalho, a data oficial da minha demissão foi 18 de abril de 1984, às vésperas de uma sexta-feira santa. Lembro-me bem deste detalhe, porque foi justamente nessa sexta-feira santa que houve algo que posso definir como o primeiro passo para uma grande mudança em relação à minha condição de trabalhador, ou à minha vida profissional. ///
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