domingo, 4 de agosto de 2013

09. DOIS CAMINHOS E UMA ESCOLHA

     Já era um pouco tarde da noite, creio que uma dez horas ou mais; voltávamos do parquinho de diversões instalado no pátio contíguo à Igreja São Jorge, na Bento esquina Aparício, eu e o meu inseparável amigo Wilton (Leia-se Vilton, ok?). Ao passarmos por duas meninas que vinham na direção oposta, brinquei: -"O que é que duas garotas fazem na rua uma hora dessas?". Uma delas respondeu algo que não entendemos e o Wilton perguntou: -"O que foi que você disse?". Houve uma nova resposta, mas agora elas já iam a uma distância um pouco maior e não conseguimos registrar suas palavras novamente. Então o Wilton me falou: -"Vamos atrás delas, Ivo?" (Ele sempre me chamava de Ivo). -"Ué! Vamos", falei.
     Apressamos os passos para alcançá-las. Quando já estávamos nos aproximando das duas, elas trocaram de lado entre si, como num jogo de sorte (ou de azar).
     Abordei então a que ficara do lado que eu estava e o meu amigo a outra. Elas pararam. A minha pergunta foi a mesma de antes: -"O que é que duas meninas estão fazendo na rua a uma hora dessas?". E ela me respondeu: -"Nós estamos vindo de um encontro de jovens da Primeira Igreja Batista do bairro..."; não lembro a que bairro ela se referiu. O certo é que eu gostei de saber que estava tratando com duas gurias direitas, já que vinham de um evento religioso. Ela disse ainda que morava logo na próxima rua (uma travessa entre a rua em que estávamos uma de suas paralelas).
     Lembro-me vagamente de que a outra garota era da outra igreja, ou seja de outro bairro, e havia vindo passar aquela noite na casa da amiga. Não deu nada entre ela e o Wilton.
     Chegamos à esquina da travessa onde morava a senhorita Eva Beatriz, com quem eu conversava, e, depois de alguns minutos dialogando, combinamos de nos encontrarmos no dia seguinte, à noitinha, de preferência na outra esquina, que era mais perto de sua casa.
     Fui sozinho ao encontro e já fui logo falando em namoro. Fiz questão de dizer que se tratava de coisa séria, que até gostaria já de falar com seus pais. Ela me falou do pai, que era meio nervoso, meio ríspido com os futuros genros, pois já conhecia bem "a fera", uma vez que tinha duas irmãs casadas. Nisto, depois de uma meia hora de conversa, veio ao nosso encontro a senhora mãe dela, desconfiada. Perguntou à filha o que significava aquilo e a resposta foi de que eu estava querendo pedi-la em namoro. A senhora, com ares de certa severidade, quis saber quais eram as minhas intenções. Satisfeita com a minha resposta, falou-me também do marido; disse que era brabo e que ela teria que "fazer o nosso lado", com certa cautela. Conversamos mais um pouco e combinamos que eu as acompanharia ao culto de domingo na Igreja Batista, que ficava a poucas quadras dali.
     Assim começamos o namoro, eu com 19 anos e ela com 17. Eu me sentia o tal. Para quem era tão tímido, saíra-me bem demais.
     Acredito em Destino, mas não em Fatalidade. Como costuma dizer a Neida, minha esposa há 41 anos: "A vida sempre nos aponta dois caminhos e nós temos que escolher um dos dois".
     Para o leitor que não sabe ainda o desfecho desta história, este é um nó que vou desatar talvez já no próximo texto, ou no outro seguinte; ainda não sei, pois ainda não os escrevi.
     Prosseguindo: Eram fins de 1968. Eu havia concluído o primeiro ano do científico e passara por média em quase todas as matérias. Tivera de fazer apenas dois exames finais, precisando de meio ponto em uma e um ponto e meio noutra. Não obstante, o fato novo era que eu havia iniciado aquele namoro pra valer, o que me levou a tomar uma decisão: interromper o ciclo estudantil. Agora eu teria de arrumar um emprego, trabalhar para sustentar o futuro lar. Além do mais, não havia nenhuma perspectiva de eu chegar a uma faculdade, por falta de recursos financeiros, e, pensava assim, eu não iria aguentar o tranco que a maioria dos meus colegas do noturno enfrentava, tendo por objetivo apenas a conclusão do científico, do qual ainda faltavam dois anos. Não imaginei que um dia o agora chamado "2º. grau completo" teria um peso tão grande. Na época, quem tinha o ginásio completo já estava feito, em termos de mercado de emprego.
     Dois anos... Vocês se deram conta? Aqueles dois anos que joguei fora lá no início do ginasial eram os dois anos que me faltavam para terminar o científico. Se eu não os houvera desperdiçado, estaria naquele momento com o científico concluído, e a história que estaria contando seria bem outra.
     Era, portanto, uma escolha do passado repercutindo no presente e que iria repercutir ainda mais no futuro, uma vez somada com a nova escolha que acabara de fazer. Depois, certamente, viriam, como de fato vieram, outras tantas escolhas, que foram mudando os meus rumos. E assim acontece com todas as pessoas neste mundo. Esta é uma lição que só agora estou racionalizando. Muitas vezes culpei ao Destino, pelas opções que me ofereceu, quando deveria era ter-me culpado pelas escolhas que fiz. "Há sempre dois caminhos e uma escolha". E essa escolha, ou melhor, essas escolhas é que realmente irão compor a nossa história. ///

2 comentários:

  1. Pra que "chorar o leite derramado"? Ainda há tempo de voltar a estudar! Não sem esforço... mas com vontade, objetivos e obstinação esta etapa que ficou pendente pra ti poderá ser concluída.
    Até aqui acompanhei todos teus textos, lendo-os com muita alegria e tristeza. Feliz por conhecer-te melhor e triste quando relatavas alguma passagem mais tocante...mas esta é a vida... E mesmo agora, há sempre pelo menos dois caminhos e uma escolha. Temos nosso livre arbítrio e somos responsáveis pelas consequências de nossas escolhas. Não limita tua capacidade. Acredita em ti. Por que não? Vai estudar...vai escrever...vai ser um filósofo, ou um escritor famoso! ou o que quiseres ser! Ainda há muito tempo pra isso...pois somos eternos!!!! E o que se começa aqui nesta vida, não se perde na próxima!!!!!! Bj

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  2. Falou, filha. No momento estou compromissado com a Doutrina, estudando-a nas segundas-feiras, aplicando-a nas terças, no trabalho de passes, e, agora, em mais uma tarefa que me foi oferecida e eu escolhi executar. Estou acompanhando a caravana de visitas a pessoas impossibilitadas de irem até o Centro Espírita para receberem o passe. São pessoas doentes ou acidentadas, que querem receber o passe, ouvir uma mensagem e uma prece em seu favor, mas não podem se locomover do leito em que se encontram temporária ou permanentemente. É muito gratificante este trabalho. Como auto-didata até que estou me saindo bem, ou, pelo menos, medianamente. Obrigado pelos teus incentivos, que me fortalecem bastante. Beijos e beijos, filha amada. Te amo. ///

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