Viajei para a capital num final de semana e fui conversar com o sr. "M". Expus-lhe a nossa situação e a intenção de voltarmos. Conversamos e ele prontificou-se a ajudar-me. Na segunda-feira, conforme combinado, fomos juntos até a loja J. H. Santos e ele apresentou-me ao gerente, seu amigo Rímolo, que recomendou-me que fosse até o setor de R.H., ali perto, para preencher uma ficha solicitando uma vaga de vendedor, que ele me colocaria imediatamente no setor de móveis e estofados, por ele gerenciado.
Feito isto, regressei para Pelotas, cheio de boas expectativas. Na terça, iria pedir minha demissão Da empresa, quando encontrei minha chefe, a caminho. Adiantei-lhe sobre a minha intenção e ela disse que desde o dia anterior, no qual eu faltara ao serviço, eu já estava demitido. Isto foi bastante oportuno, a meu ver, e até fiquei-lhe grato pela informação.
Recém chegados em Porto Alegre, ficamos por alguns dias hospedados no apartamento do casal "M" e "G", na avenida Getúlio Vargas, bairro Menino Deus, enquanto providenciávamos uma nova locação.
Alugamos um apartamento num prédio de seis andares da avenida Desembargador André da Rocha, na região central. Era pequeno, de apenas um cômodo, cozinha e banheiro. Dividimos esse cômodo com o guarda-roupas, fazendo uma salinha e o quarto de dormir. Estava mais do que bom para nós três, agora que tínhamos a pequena Bia por companheira de nossas vidas.
Em outro apartamento do mesmo prédio morava um colega de loja, da linha branca, o Jorge, cuja esposa Leda se deu muito bem com a Neida. Eles tinham um garotinho, mais ou menos da mesma idade da Bia, que estava agora com dois meses e alguns dias de vida.
Na loja, as chances de ganho eram muito boas, mas a velha timidez era a inimiga formidável que me impedia de obter melhores resultados nas vendas. O Rímolo falava muito bem a meu respeito para o sr. "M", mas também falava-lhe do quanto era difícil ouvir a minha voz, pois eu falava muito baixinho com os clientes e por isto ele não podia avaliar melhor o meu desempenho, embora eu fechasse algumas vendas a contento. Mas era preciso que soltasse mais o som da garganta. Disse, certa vez, que me admirava pela educação e a solidariedade com os colegas, que eu sempre demonstrava, prometendo que me treinaria para uma futura sub-gerência.
Essa perspectiva me animara e eu procurava melhorar o meu desempenho. Porém, pouco tempo se passara quando ele, Rímolo, foi transferido para uma loja do interior do estado. Infelizmente não poderia mais contar com aquela possibilidade.
Depois disto, o novo gerente me chamou em particular e me perguntou se eu não gostaria de ir para a loja do Centro Comercial da Praça Piratini (lembram? aquela praça em frente ao Colégio Julio de Castilhos). Lá eu iria trabalhar com eletro, som-imagem e linha branca, além de móveis e estofados, o que me daria a oportunidade de faturar um pouco mais. E só havia uma concorrente perto, no mesmo pavimento daquele prédio comercial.
Mas não era só isso. Por incrível que pareça, havíamos-nos mudado para o antigo apartamento da Alberto Torres, onde a Neida morara com a mãe. É que, quando ela voltou para Pelotas, transferiu o contrato para um barbeiro também pelotense, o sr. "T". Este, por sua vez, também de regresso, nessa ocasião, para a sua cidade natal, chamou-nos e perguntou se queríamos o apartamento que ele estaria entregando, e nós o quisemos, é claro, pois era maior e o preço não mudava muito em relação ao outro. Portanto, era vantagem mudar para a loja do Centro Comercial, pois ficava bem mais perto e eu podia ir e voltar a pé.
As minhas comissões até que eram boas, mas me era descontado em folha o valor de um terço do salário mínimo a título de pensão alimentícia para o meu filho Alexandre. Nada mais justo; porém, do que me sobrava tinha que tirar o aluguel, água, luz e demais despesas da casa. A Neida chegou a voltar a trabalhar com o sr. Carlos e o Dr. Ary, mas era complicado, pois pagávamos uma jovem para ficar com a Bia e às vezes dava algum problema, que gerava uma falta dela ou minha ao trabalho. Outras vezes ela levava a menina para o escritório, o que era de todo inconveniente. Foi um período muito difícil, com alimentação precária, pois tínhamos que priorizar a nossa filha, em detrimento de nós mesmos.
Não devo esquecer aqui de registrar que o sr. "M" e a tia "G" foram os padrinhos da Bia, batizando-a em um templo do segmento anglicano, que não exigia que fôssemos seus frequentadores.
De vez em quando eram eles, assim como também a minha sogra, que nos presenteavam com um rancho (compra de supermercado), o que nos proporcionava um certo alívio, pelo menos momentâneo.
Se a nossa situação estava um tanto ruim, ainda poderia piorar um pouco mais, como irei mostrar na próxima sequência. ///
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