Iniciei o ano tirando um curso rápido de datilografia, que, para fazer justiça, devo dizer que foi patrocinado pela namorada, que trabalhava como doméstica em uma casa de família na avenida Bento Gonçalves, próximo à Companhia Geral de Indústrias.
Soube, por intermédio do mano João, que o nosso primo Alceu era gerente em uma companhia de seguros e fui procurá-lo. Fui muito bem recebido por ele, que disse não haver nenhuma vaga naquela empresa no momento, mas entregou-me uma carta de apresentação para que eu fosse a uma outra seguradora, onde havia uma vaga para contratação imediata.
Atendido pelo chefe geral do escritório, senhor Egon Panke, fui conduzido a uma sala, onde preenchi uma ficha de pedido de emprego. Outro funcionário, o Adalberto, chefe do departamento de emissão de apólices, veio em seguida e solicitou que eu fizesse um teste de datilografia, adiantando-me que não seria exigida rapidez, mas o mínimo possível de erros de ortografia, marginação, etc. Com muita calma e atenção, caprichei no teste e fui aprovado.
Admitido em 03 de março de 1969 na Companhia de Seguros Monarca, ex-Pearl Assurance Company Limited (Companhia inglesa, com capital recentemente nacionalizado), faria preferencialmente os serviços externos, treinando, quando não houvesse demanda, as funções internas, datilografando documentos como memorandos, endossos e anexos com as condições gerais das apólices de seguro contra incêndio.
Mal chegara ao segundo mês de trabalho e vejam só o que me aconteceu: Fui ao banco descontar os cheques de alguns funcionários, referentes ao adiantamento quinzenal de salário, incluindo o meu próprio adiantamento, conforme já o fizera anteriormente e de acordo com as recomendações recebidas. Teria apenas que dar uma passada em uma casa de carimbos para pegar um carimbo que havia sido mandado confeccionar. Feito isto, retornando para o escritório, fui abordado por um cidadão, aparentemente muito simples, dizendo-se chegado do interior, ostentando em seu poder um bilhete da loteria federal supostamente premiado e falando-me que não sabia como fazer para recebê-lo. Temendo por ele, já que parecia tão inocente em meio ao movimento de todo tipo de pessoas da cidade grande, tentei ajudá-lo de alguma forma, mesmo não sabendo ainda o que deveria fazer. Dizia-lhe que tomasse cuidado, que não mostrasse aquele bilhete para qualquer um, quando outro cidadão, aparentando boa formação profissional e muito educado, como se tivesse ouvido parte do diálogo, aproximou-se e prontificou-se a ajudá-lo, pedindo que eu fosse junto com ambos até a agência central da Caixa, para que não pairasse dúvidas sobre a sua boa intenção e desinteresse. Fui envolvido de tal maneira, que, mesmo alegando que tinha que voltar de pressa à empresa, que ficava a meia quadra da esquina onde estávamos, acabei concordando. O segundo homem, então, me disse que eu também corria risco de ser assaltado, com aquele volume de dinheiro aparecendo no bolso da calça, e deu-me uma pequena pasta fechada com zíper, para colocar nela as cédulas. Meio inseguro e confuso, coloquei o dinheiro na pastinha e segurei-a firme, preocupado. Ele, numa ação rápida e inesperada, tomou-a de minhas mãos e colocou-a dentro de uma pasta grande, modelo executivo. Protestei, visivelmente receoso, ao que, fingindo entender a minha preocupação, devolveu-ma dizendo: - "Então o amigo vai até a sua empresa levar esse dinheiro, que nós lhe esperamos aqui, para irmos juntos até a Caixa". O horário permitiria isto, pois já era quase onze e meia, término do expediente matinal. Muito perturbado, dei alguns passos e resolvi conferir o conteúdo da pasta. Surpreso, verifiquei que o zíper estava amarrado com um cadarço de sapato, o qual desatei depressa e nervosamente. Olhei para trás e já não havia nem sombra dos dois homens com quem acabara de falar. Abri-a e constatei que havia apenas um bolo de notas antigas de um cruzeiro, já fora de circulação, sem valor nenhum.
Cheguei ao escritório, pálido, branco como um boneco de cera. Fui direto à sala do gerente, senhor Antônio Alexandre. Contei-lhe o ocorrido e ele, sem qualquer reação emocional, instruiu-me para que fosse a uma delegacia de polícia registrar a ocorrência, concedendo-me o prazo até o dia seguinte para que reembolsasse os meus colegas.
Saí dali desesperado. Fui até a DP central acompanhado de minha mãe e da Vó Cota, na primeira hora da tarde. As duas foram minhas avalistas, evitando que eu ficasse detido, por conta da desconfiança dos policiais de que eu era quem estivesse tentando dar o golpe em meus colegas de trabalho.
Meu pai, por sua vez, mobilizou-se, indo até a agência bancária onde recebia seus proventos. Ele sempre retirava os valores redondos dos contra-cheques, deixando os quebrados para formar o que ele chamava de um fundo de emergência. Foi isto exatamente o que me salvou naquela situação emergencial, permitindo-me reembolsar os colegas. Um fato interessante foi que não restou na conta mais nada de saldo, depois de sacado o valor estritamente necessário.
Diante de tais providências, continuei no emprego e, poucos meses depois, com a saída do Adalberto, o Luiz assumiu o lugar de chefe do departamento, passando-me para os serviços exclusivamente internos, e admitindo outro rapaz para as funções externas.
Em dezembro daquele mesmo ano casei-me e passei a morar em um cômodo reservado na casa de meus pais. O mano João, muito habilidoso, abriu uma porta lateral, para que esse cômodo ficasse com entrada independente.
E a vida foi seguindo em frente, oferecendo-me novas experiências, que contarei na sequência. ///
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