quinta-feira, 1 de agosto de 2013

07. UMA NOVA ETAPA: A ADOLESCÊNCIA

     Na nova etapa estudantil, tudo mudou. Aprendi a gostar de português, que era uma das minhas dificuldades anteriores. A professora chamava-se Mariazinha. Pequenina no porte físico, mas muito inteligente e hábil para ensinar e empolgar os alunos em relação à complicada, porém riquíssima matéria, que tem tudo a ver com o meu gosto atual por escrever. Ah! se não tivesse feito aquelas bobagens, quem sabe eu pudesse ser hoje um jornalista, quem sabe fosse um filósofo, um psicólogo, um escritor famoso? Mas, deixa pra lá.
     Lembro-me também do professor Marques, de matemática, com quem só não aprendia quem não quisesse mesmo. Ele era um gênio, talentoso no fazer a gente raciocinar diante dos números e das operações mais intrincadas. Acompanhou-me, assim como a "profe" Mariazinha, da primeira à quarta séries do ginásio.
     Nas demais disciplinas era só uma questão de esforço pessoal e de tempo, que para mim havia de sobra, graças aos meus pais queridos, que tudo faziam para que eu não precisasse trabalhar enquanto me dedicasse aos estudos. A maioria dos meus colegas era formada por jovens que haviam retornado aos estudos depois de uma parada estratégica, e adultos, pais e mães de família, que trabalhavam e sacrificavam o próprio descanso, o conforto do lar e o convívio com os filhos, indo, heroicamente, direto do serviço para a sala de aula. Eu os admirava e me dava muitos melhor conversando com pessoas assim, mais maduras e sofridas, do que com a gurizada da minha idade. Colhia muitas experiências.
     Depois de algum tempo, substitui o bonde pelo ônibus, do qual apeava a uma distância bem menor de casa. Chegava em casa quase meia-noite e encontrava sempre a minha mãezinha debruçada no muro, à minha espera, muitas vezes no sereno. Eu lhe dizia da não necessidade disso, mas ela alegava que não conseguia ficar dentro de casa, pois tinha o coração apertado, aflito e ficava orando em silêncio para que nada de mal me acontecesse. Só ficava aliviada ao ver-me aproximando. E isto foi assim durante todos aqueles anos. Só para deixar bem claro, naquela época não existia telefone celular; o telefone convencional era só para famílias abastadas, e nem sequer havia o tal de "orelhão" nas esquinas da cidade. Comunicação, só pessoalmente, mesmo.
     Durante essa fase, o meu irmão João já estava trabalhando em um restaurante, no 12º. andar de um prédio comercial no centro da cidade; e o mano Valter, que não quisera seguir além do 3º. ano primário, também, trabalhava num depósito de bananas, de propriedade de um vizinho nosso, à rua Guilherme Alves. O Valter começou, aos onze anos, como ajudante de distribuição e na classificação do produto. Aos dezoito, liberado do serviço militar, tirou carteira de motorista e passou a vendedor-distribuidor. Mais tarde, tornou-se empresário do ramo e continua nessa atividade até hoje, por sinal muito bem sucedido.
     Na faixa entre os meus quinze e dezenove anos, também dispensado do serviço militar, por excesso de contingente, a música exerceu um papel muito importante na minha vida. Gostava de ouvir música antiga, desde valsa, tango, bolero, samba, samba-canção, marcha-rancho, marchas e dobrados militares, até tudo o que havia de música romântica. Já tínhamos um aparelho de som (eletrola/vitrola), no qual eu fazia minhas seleções musicais variadas, como se estivesse numa rádio. Sonhava ser radialista, apresentador de programa. Não dava muita bola para o movimento da Jovem Guarda, pois achava aquilo tudo meio maluco, letrinhas sem graça, ritmos indefinidos, vozes pequenas. Preferia a Velha Guarda, mesmo.
     O mano João havia aprendido com um colega seu, a quem chamava de "Mano", a tocar violão. Descobrimos que um primo nosso, o Alceu, filho da tia Mercedes, irmã do nosso pai, agora residente em Gravataí, também tocava violão e fazia uma dupla com um seu irmão de criação, apresentando-se em festas e eventos, tocando e cantando boleros mexicanos, em espanhol. Por influência dessa dupla, o João e eu passamos a colecionar letras de boleros e a cantá-las, também em espanhol. Interpretávamos os maiores sucessos do Trio Los Panchos, Trio Cristal, Los Viñales, entre outros. Eu fazia a segunda voz e até compramos um par de maracas, com que eu ritmava, enquanto o João dedilhava as cordas do instrumento simples, mas majestoso, que ele mesmo havia comprado.
     Depois, começaram a aparecer alguns amigos que também mandavam bem na viola. Um deles gostava somente de sambas e outro era fissurado nos sambas-canções do Nelson Gonçalves. Eu me empolguei e comecei a cantar também alguns sambas mais conhecidos e adorei interpretar o Nelsão, dividindo o espaço com esses amigos, que me incentivavam e até elogiavam a minha voz e afinação.
     De repente, não sei exatamente quando, apareceu um novo amigo, também trazido pelo João, e que também tocava violão, o Wilton. Era um neguinho da vila metido a play boy, no bom sentido. Tinha lá uns amigos ricos, guitarristas, tocadores de rock. O Wilton era  um beatlemaníaco de primeira. Ele só gostava de tocar e cantar músicas da ocasião, ou seja, da jovem guarda, mais precisamente dos grupos atuantes, como Renato e Seus Blue Caps, Golden Boys, Os Vips,  Fevers e outros, além, é claro, dos Rolling Stones e The Beatles. E já passei a fazer dupla com ele, nos "saraus" do fundo do quintal, fazendo igualmente a segunda voz. Mandávamos, por exemplo, do repertório de Renato e Seus Blue Caps: "Eu sei", "Até o fim",
"Gosto de você", "A primeira lágrima" e "A irmã do meu melhor amigo". Sucesso absoluto. Nossas fãs, as minhas manas Eloá e Iná, também a amiga e vizinha Najara, elogiavam o nosso vocal e apreciavam os nossos shows gratuitos, em que soltávamos a voz, sem nenhuma reserva.
     Foi muito lindo esse tempo. Que saudades! Se pudesse apertar um botão e voltar ao passado, quanta coisa boa teria para rever e, se possível fosse, reviver.
     Mas tem mais coisas para relembrar dessa mesma época. Aguardem o próximo capítulo da minha história, do que eu lembro da vida. ///

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