Voltando um pouco a fita do filme da minha vida, do qual também fazem parte meus irmãos, lembro-me de quando o Pedro construiu uma casa na parte de cima do terreno, que dava frente para a rua Guilherme Alves. A casa era de madeira e foi erguida à base do mutirão. Nessa época eu era adolescente, mas não lembro com que idade estava.
Prontifiquei-me também a ajudar na obra. Em dado momento, quando pregava uma ripa ou tábua, a uma certa altura da parede, minha mãe surgiu e pareceu-me ficar um tanto aflita com a minha exposição ao perigo de cair daquela altura. Batendo o martelo, errei umas duas ou três vezes a cabeça do prego, e, percebendo isto, minha mãe falou: - "Desce daí, guri; tu não dás pra este tipo de serviço; o teu negócio é estudar pra ser um doutor, médico, advogado ou coisa parecida". Aquilo foi como uma martelada na minha cabeça. Fiquei desconsertado, mas insisti, errando mais algumas batidas de martelo, até fincar o prego na madeira. Desci em seguida e não mais me meti nesse tipo de atividade, dando sempre alguma desculpa e guardando comigo a observação negativa do comentário materno.
Achei conveniente registrar este fato, não porque ainda esteja magoado com minha saudosa mãezinha, de jeito nenhum, porque um pai e uma mãe nunca haverão de querer causar qualquer dano, inclusive psicológico, ao seu filho ou filha, embora, sem o querer, às vezes o façam. Mas é que, ao recordar esse episódio, que me marcou e me tolheu a iniciativa de execução de tarefas que envolvam madeiras, tijolos, argamassa, enfim, construção ou reforma de um imóvel ou qualquer de suas partes integrantes, lembro-me que também preciso me penitenciar de uma palavra dita à minha filha Sílvia, que lhe causou igualmente profundo sentimento, que há não muito tempo atrás ela expôs, em uma mensagem que deixou escrita nas páginas de um caderno, numa de suas vindas a Curitiba, para que lêssemos depois de sua partida de regresso a Pelotas.
Em uma reunião familiar, quando ela tinha lá seus 7, 8 anos, não tenho a lembrança exata, lemos uma historinha que falava de um jacarezinho egoísta, que não dividia a água do seu lago com os outros animais. Num outro momento, por uma dessas atitudes normais de criança, quando há uma disputa por algo, um brinquedo ou um lugar à mesa, também não recordo o que era, querendo apenas educá-la, chamei-a de "jacarezinho egoísta". Esse rótulo, sem que eu jamais o suspeitasse, ficou gravado em sua mente infantil e a incomodou até a idade adulta, machucando esta alma tão querida, de que tenho muito orgulho e muita gratidão de ser pai. Filha amada, muito longe estás de ser um "jacarezinho egoísta". Ao contrário, devemos-te muito pelo teu altruísmo e por tudo o que já fizeste e ainda fazes por todos nós, teus pais e irmãos.
Isto é para a gente ver quantas vezes a harmonia e a naturalidade da vida se quebram em nossas mãos, sendo necessários muito tempo e esforço para irmos juntando os pedaços e recompondo a caminhada.
Voltando um pouco mais ao passado, já o meu irmão João, ao contrário de mim, deu-se sempre muito bem com todos os tipos de ferramentas de carpintaria, de pedreiro, etc. Tanto, que, com a ajuda de alguns amigos e de um profissional da área, meteu a mão e construiu, no meio do mesmo terreno, um chalé. Casou-se e foi morar na sua casa própria, fazendo, de tempos em tempos, a devida manutenção e até algumas melhorias.
Se bem me recordo, pela ocasião do meu casamento o Pedrinho já havia desconstruído a casa da Guilherme Alves e levado o material todo para Viamão, onde comprara um lote, reconstruindo-a naquele local. Lá terminou de criar seus lindos filhos, meus quatro sobrinhos queridos: Eliéser, Eliete (já vovó), Elísio e Elisete. Todos eles possuem hoje suas próprias famílias, muito abençoadas.
Eu, ganhando então um pouco mais do que o salário mínimo, como já mencionei antes, fui morar com a jovem esposa em um cômodo apenas da casa paterna.
Em março de 1971 nasceu meu primeiro filho, o Alexandre.
No meu serviço tudo ia bem; eu até já estava ocupando o posto de chefe do Deptº.de Emissão, após a saída do Luiz, que foi, a convite do antigo colega Adalberto, trabalhar também na seguradora do Banco Real.
No lar, entretanto, a desarmonia conjugal era uma constante. Imaturidade de uma parte, inabilidade de outra, e os conflitos se sucediam, desgastando a cada dia o relacionamento. ///
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