O mano Pedrinho (Jesus Pedro), o único que serviu ao Exército Brasileiro, mas que, por insistência da mãe, desistiu de seguir a carreira militar, trabalhava agora na empresa Irmandade do Arcanjo São Miguel e Almas, administradora do primeiro e maior cemitério com galerias, chegando a até 5 andares e com elevador, de Porto Alegre. Nessa empresa trabalhavam, já antes do meu irmão, um tio de minha mãe (funcionário desde a fundação do cemitério), Israel Torres; meu avô emprestado e padrinho de batismo, padrasto de minha mãe, Vitório Semensato; meus tios Oswaldo, Valter e Cláudio (irmãos da mãe); o tio Alceu, marido da tia Lídia (também irmã da mãe), e dois primos, se a memória não me falha.
Havia um serviço particular que alguns clientes contratavam junto aos funcionários e que podia ser feito por eles em suas horas de folga, ou terceirizado. Era a limpeza e conservação dos jazigos familiares, incluindo o polimento das letras e números em bronze ou metal cromado. Por esse tempo o mano Pedro propunha-me a execução desse serviço, remunerando-me conforme os valores cobrados aos clientes, para o que eu reservava duas manhãs ou tardes por semana. Era o meu primeiro dinheirinho no bolso, geralmente usado para a compra de discos, o que mais me empolgava nessa época.
Um fato digno de anotação: Um certo dia, indo para o cemitério, havendo embarcado em um micro-ônibus da linha Caldre e Fião, ocorreu que, depois de uma três paradas, em uma descida não muito acentuada, porém longa, o veículo perdeu o freio. Eu estava em pé junto ao primeiro banco, próximo à porta, que havia sido aberta quando se aproximara de um ponto de embarque. Ao perceber as manobras do motorista para conter o veículo, que já desenvolvia uma certa velocidade, um senhor, que estava bem ao meu lado, fez menção de saltar para fora, descendo o primeiro degrau, desesperado. Eu o segurei firme pelo braço, não permitindo que fizesse aquela loucura, pois com certeza se machucaria. O motorista percebeu isto e acionou o fechamento da porta, pedindo calma aos passageiros. O pior é que lá no final da rua, só havia uma outra rua transversal, a rua Professor Oscar Pereira. O coletivo deveria dobrar à direita, mas na velocidade em que estava, se fizesse a curva fechada, tombaria. Além disso, se estivesse passando algum veículo naquele momento a colisão seria inevitável. O que fiz eu? Orei. Pedi proteção para todos nós, passageiros e para aquele motorista, que tudo estava fazendo para minimizar uma possível fatalidade. Quase abalroou uma carroça que havia ingressado na rua por onde descíamos. Ao chegar o momento de dobrar para a rua Oscar Pereira, ele abriu bem para a esquerda e, graças a Deus, não havia nenhum veículo em trânsito, em nenhuma direção, quando então, na contra-mão e já em um aclive que havia nessa via, ele conseguiu estancar o coletivo, segurando-o no freio de mão. Saímos todos ilesos. Foi um susto e tanto, mas eu mantive a calma o tempo inteiro, orando e confiando na Providência Divina. E eu era apenas um adolescente, só para lembrar.
Depois, meu irmão foi promovido para outro setor, indo trabalhar no escritório central da empresa, no centro da cidade. Ali ele também me arrumou um "bico", que consistia em tramitar com a papelada exigida para transladações de corpos ou ossadas para outras cidades do estado e até para outros estados do país, pelos órgãos competentes, efetuando pagamentos de taxas em cartórios, encaminhando pedidos de deferimento, etc. Esta nova atividade também foi muito gratificante, pois me rendeu boas experiências e certa desenvoltura.
Durante o período em que "trabalhei" no cemitério, o que mais adorava, enquanto executava a tarefa, era ficar ouvindo a música clássica que sonorizava o ambiente através de algumas dezenas de pequenas caixas de som espalhadas por todos os corredores e andares daquelas galerias. Eram melodias suaves da coleção "Música à Luz da Oração", da Orquestra de Câmera RGE, sob a regência do Maestro Simonetti, da qual tenho em meu poder os volumes 1, 2 e 5, em vinil. De vez em quando os escuto. Tenho algumas dessas músicas e outras do gênero em CD-MP3, que ouço no carro, principalmente enquanto me desloco para os trabalhos espirituais no Centro Espírita, pois considero esse tipo de música, assim como os hinos evangélicos instrumentais, dos quais também possuo um CD e 2 LPs, como uma forma de criar um ambiente propício à elevação do espírito.
Enquanto isso, voltando ao passado, a Jovem Guarda corria solta, com a aparição de novos cantores, cantoras, conjuntos vocais e instrumentais, ao lado da nova Bossa Nova e dos grandes sucessos românticos italianos, franceses e os, sem dúvida indispensáveis, "hits" americanos ou de outras nacionalidades, mas no idioma mais difuso do planeta, donde se originavam inúmeras versões.
Eu até já estava gostando, mas sem supervalorizar ninguém daquelas tribos, nem mesmo os ídolos máximos da juventude de então, Roberto Carlos e Beatles, que ponteavam todas as paradas de sucesso de todas as emissoras de rádio.
Um dia o amigo Wilton chegou, eufórico, convidando-me para assistirmos a um show do Roberto Carlos e outros cantores, que iria acontecer dali a uns dois dias no Ginásio de Esportes da Brigada Militar. O ingresso era apenas um brinquedo de qualquer valor, que seria arrecadado e destinado à campanha do natal das crianças pobres.
Meio de nariz torcido, aceitei o convite. Fomos logo a uma loja de "1,99"... Epa!... He, he, he... Isto nem existia naquela época. Compramos os brinquedos e lá estávamos nós, no dia do show, enfrentando uma fila que já fazia a segunda volta em torno do pavilhão. Eu continuava torcendo o nariz, achando que não valeria muito à pena, mas aguentando o sol quente na cabeça para não perder o amigo, que até então já me fizera pegar certo gosto pela música dos Beatles, que antes para mim era indiferente.
Depois de algumas longas horas de espera, começou o espetáculo com a apresentação da cantora Vanusa e do cantor Eduardo Araújo. Não me lembro bem, mas parece que teve mais algum, antes da entrada do tão esperado rei da Jovem Guarda. Eu estava apenas curioso. Afinal, ver um artista da televisão e de tanto sucesso ao vivo, não era nada comum.
De repente, um grupo de jovens instrumentistas ocupou o palco, e, depois de alguns preparativos e ajustes nos instrumentos, entoou seus primeiros acordes (era o já famoso RC-7), com uma vibração tão envolvente, que, em meio à gritaria geral, correu-me pelo rosto, próximo às orelhas, no sentido do pescoço para os cabelos, uns arrepios incontroláveis. Uma indizível emoção me assaltara, inexplicavelmente.
Os acordes eram nada menos do que a introdução, um pouco mais demorada, como a fazer suspense, da música "Eu sou terrível", faixa 1 do lado 1 do novo LP: "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura", lançado juntamente com o filme de mesmo título naquele ano de 1967.
Peguei vocês, com o título deste texto, hein? Garanto que ainda não haviam entendido a ligação desse título com a minha personalidade, é ou não é? Mas, ah! meus amigos: "Quando" ele entrou naquele palco, entrou também na minha vida. "E por isso estou aqui". Desde aquele momento tornei-me fã incondicional desse cara. É mesmo! Se tem um cara que é fã incondicional do Roberto Carlos, de ontem e de hoje, "esse cara sou eu". Tenho quase a coleção de vinil completa, umas 20 fitas cassete gravadas com seleções feitas por mim mesmo, alguns CDs originais, 4 CDs-MP3 e um pendrive com mais de 300 músicas.
Tá bom, ou querem mais? ///
Nenhum comentário:
Postar um comentário