Aos domingos eu me arrumava e ia sozinho para a Igreja, mais com o intuito de rezar do que assistir a missa. Também ia garimpar mais um santinho para a minha coleção, é claro.
Bem pertinho dali morava uma amiga de meus pais, madrinha do meu irmão Pedro, a quem chamávamos de tia Cota. Mais tarde foi promovida a vó Cota. Era viúva, tinha 3 filhos, sendo um homem e duas mulheres, e havia desenvolvido a mediunidade no Centro Espírita Dias da Cruz, situado na avenida Azenha. Aplicava passes em sua própria residência, somente. Fazia-o incorporada, atendendo apenas a um número limitado de pessoas conhecidas ou indicadas por estas, gratuitamente. Seguidamente nós íamos tomar passe e receber orientações dos bons Espíritos que se manifestavam por seu intermédio.
Meu pai (João Batista Leal) era o único do nosso grupo familiar que entendia de Espiritismo. Era o doutrinador oficial, quando havia manifestações de espíritos sofredores ou obsessores. Já minha mãe (Olinda dos Santos Leal), mais católica fervorosa do que espírita, sabia do Espiritismo apenas o básico. Nós, crianças, embora confiássemos nos bons conselhos que recebíamos dos "guias da Vó Cota", não dávamos muita importância a tudo isso, achando tudo muito natural, mas sem nenhuma análise crítica ou teórica do que víamos e ouvíamos. Na verdade, o único dos seis irmãos que, em dado momento, passou a buscar conhecimento e a racionalizar sobre conceitos religiosos, era eu mesmo.
Lembro-me que o mano Pedro casou-se, por essa ocasião, com a minha querida cunhada Eugênia, natural de Quaraí (RS), membro da Igreja Metodista. Uma vez fui com eles à igreja e gostei muito dos hinos que lá eram entoados. Também gostei da pregação do pastor, simples e bem audível.
Corria o ano de 1959 (eu nascera em 1949), quando recebi o opúsculo contendo o Evangelho Segundo São Lucas, que, meio desconfiado ainda, comecei logo a ler. Fiquei muitíssimo impressionado com a belíssima história, recheada de maravilhosos ensinamentos e grandes feitos, de Jesus, o mestre já aceito por mim como Salvador dos homens, que viera a Terra para resgatar nossos pecados. Dessa leitura resultou que conversei com meu pai e lhe pedi, para o natal que se aproximava, uma Bíblia de presente, no lugar de qualquer brinquedo.
Fui atendido e, tão logo chegou em minhas mãos a Bíblia novinha em folha, passei a ler o primeiro livro, "Gênesis", de Moisés, com muita atenção. Não tardou, porém, o surgimento de algumas dúvidas, ante a constatação de certas incoerências, entre as quais, destacava-se o casamento de Caim, depois de este haver assassinado seu único irmão, Abel. Ora, pensava eu, como teria ele casado, se não havia outra família sobre a face da Terra, além dele mesmo e seus pais, Adão e Eva?
Consultei meu pai a respeito dessas dúvidas e confusões e ele me falou sobre o sentido simbólico da história contada por Moisés ao seu povo, tanto no que se referia aos primeiros habitantes da Terra, quanto às origens do planeta, do Universos e da vida. Teceu ele várias considerações, em meio às minhas insistentes indagações, até chegar às explicações dadas pela Doutrina Espírita, que a tudo esclarecia, dada a sua natureza científica e filosófica.
Enquanto me elucidava, recorreu a alguns trechos do livro A GÊNESE, OS MILAGRES E AS PREDIÇÕES SEGUNDO O ESPIRITISMO, da obra codificadora de Allan Kardec, o qual tinha guardado, entre outros, em uma velha estante em seu quarto de dormir. Meu pai acabara, assim, de apresentar-me uma nova e cativante religião, que abarcava os conceitos católicos e expandia a visão para novos e claríssimos horizontes da espiritualidade que eu já buscava intimamente, embora sem a consciência exata disto.
Depois de ler mais um pouco o "Gênesis" bíblico, já não sopitando a curiosidade e a expectativa de novos conhecimentos, tratei logo de iniciar a leitura da referida obra kardequiana, que a cada página mais me assombrava positivamente, como se eu me recordasse de coisas já sabidas, que provavelmente estavam adormecidas em meu subconsciente.
Solicitei ao meu pai, então, que me levasse a um centro espírita, ao que ele acedeu prontamente. Fomos em um que não recordo o nome nem a localização. Em seguida fomos ao Centro Espírita Allan Kardec, situado na rua General Andrade Neves (nº. 60), no centro de Porto Alegre. A partir de então, troquei as missas dominicais pela Evangelização nessa casa espírita, que é a mais antiga do estado dos gaúchos. Passei a adquirir o jornalzinho "Luz de Damasco" e segui lendo outros livros espíritas, que me iluminavam a mente cada vez mais.
Tive, mais tarde, outras experiências religiosas, que irei narrar ao longo destes textos, oportunamente. ///
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