domingo, 6 de outubro de 2013

16. SITUAÇÃO DIFÍCIL NA SEGUNDA GRAVIDEZ

     Transcorria o ano de 1974 e a situação financeira era das mais graves, quando apresentou-se, de surpresa, a segunda gravidez. Diante das perspectivas sombrias, pois mal dávamos conta da alimentação apropriada para a pequena Bia, com um ano e pouco de vida, e dado o pouco tempo ainda de gestação, pois a descoberta por meio dos sintomas peculiares foi bastante adiantada, com no máximo três semanas, alguém até chegou a aconselhar-nos a interrompê-la, pois era visível o fato de que a situação só tendia a piorar. A Neida chegou a chorar diante desse aconselhamento, pois não teria esta coragem.
     Algum tempo depois, num daqueles momentos de maior aperto, quando tínhamos apenas um café preto e um pedaço de pão, sentindo o cheirinho de comida vindo de outro apartamento, bateu uma certa duvida, que a fez pensar: "será que a gente agiu certo, em continuar? Será que aquela pessoa não estava certa, quando nos deu aquele conselho?" sobreveio-lhe então um sonho, em que estava em uma praça com uma crianças brincando e passando por ela. Havia também um portão grande, como de uma escola. Desse portão saiu um menininho e veio correndo até onde ela estava, entregando-lhe um bilhetinho, no qual estava escrito: "Por favor, fique comigo; eu vou ser seu filho. Eu lhe amo muito".
     Ao acordar desse sonho, emocionada, eis que a minha companheira obteve e transmitiu-me a certeza de que seria mãe daquele menino, que lhe entregara o bilhetinho sorrindo, com um dentinho quebrado à mostra. E como sempre acreditamos na vida, não só após a morte, como também antes desta vida que temos no mundo, vimos esse sonho como um sinal  claro e evidente de que iríamos receber aquele espírito que estava designado para o nosso convívio, confiantes de que Deus nos haveria de suprir as necessidades para criá-lo juntamente com a filhinha que já fazia parte da nossa felicidade conjugal.
     No J.H.Santos, eu passava por um período de baixa produtividade, embora dos dez vendedores da loja eu me mantivesse sempre entre o 4º. e o 6º. lugares em vendas semanais, o que era até louvável para um cara como eu, tímido por natureza.
     Certa vez, quando estávamos em uma reunião de final de expediente com o gerente Rubem, o vigia recebeu, já na porta de saída dos funcionários, pois que a loja já estava fechada, um casal acompanhado de um outro cidadão, que depois vim a saber ser tratar-se de um intérprete do casal que era argentino, querendo pesquisar preços de móveis. Foi um tal de "eu não vou", "nem eu", "eu já encerrei minhas vendas por hoje", que levou o Rubem a indicar-me como "voluntário" para atender aquelas pessoas. Mais por consideração a ele do que por vontade própria, embora tivesse vendido pouco naquele dia, fui atendê-las, esperando que talvez me rendesse uma venda a mais, apesar do horário avançado. Depois de algumas indagações sobre preços e produtos, fiquei sabendo que se tratava de um executivo de uma grande empresa de Buenos Aires, o qual estava se transferindo para a sucursal de Porto Alegre e desejava mobiliar todo o apartamento comprando o máximo que pudesse em uma única loja. Depois de mais de uma hora de atendimento, essas pessoas foram embora com a promessa de me procurarem no dia seguinte caso voltassem para efetuar a compra. Queriam apenas um tempo para analisar a pesquisa feita naquela e noutras lojas, mas já adiantando que haviam gostado muito do que viram e do meu atendimento. E não é que voltaram mesmo? Vendi-lhes o montante de CR$ 45.000,00 e ainda dei de bandeja para uma colega do bazar um faturamento de quase CR$ 5.000,00. Isto já com todos os descontos possíveis para o pagamento à vista.
     A minha média semanal girava entre CR$ 55.000,00 a CR$ 60.000,00. Aquela foi considerada a maior venda individual de toda a história e de todas as lojas da rede J.H.Santos.
     Não obstante esse presentão que me fora dado pelo destino, ou pela circunstância, fechei a semana com um total acanhado de CR$ 59.000,00 em faturamentos. Parecia até que era eu quem não queria vender mais nada e superar a minha média normal. A breve euforia daquele momento especial de destaque foi abafada pela decepção do resultado final daquela semana igual a todas as demais, que antes deveria ter-me conduzido a um brilhante 1º. lugar. E olhe que o primeiro lugar daquela semana não ultrapassou a casa dos 70 mil, ficando o segundo com menos de 65 mil. Com a minha média normal somada àquela venda única eu deveria ter ido a no mínimo uns 90 mil cruzeiros. E vale lembrar que nessa época não havia cartão de crédito, nem venda por Internet. Era tudo ali na loja, no carnet ou à vista mesmo.
     Um colega meu, o Saldanha, a quem dei uma força, intercedendo junto ao gerente para que o promovesse a vendedor, pois era vigia da loja, e deu muito certo na nova função, chegou a dizer-me, em certa ocasião, que parecia até que eu fugia dos clientes, pois quando algum cliente se aproximava da porta, onde às vezes ficávamos jogando conversa fora, sem mais nem menos eu migrava lá para o fundo da loja. Algo me cegava e eu não notava a aproximação do cliente que acabava sendo atendido por ele ou por outro vendedor. Segundo ele, eu deveria estar com "algum encosto espiritual", que não queria que eu progredisse. Na época não estávamos nem tomando passes, muito menos frequentando algum Centro Espírita, o que provavelmente nos fazia mais vulneráveis a influências espirituais negativas. 
     E foi nesse clima que transcorreu toda a gestação do nosso filho André, cujo nascimento se deu em 02 de fevereiro de 1975, no Hospital Maternidade Divina Providência, no bairro Glória, junto à famosa Gruta.
     Nas escolha do seu nome também tivemos uma pequena dúvida e a Neida sonhou novamente (isto antes do seu nascimento, é claro): que íamos juntos por um corredor como de um hospital e de repente deparamo-nos com alguns quadros fixados em uma parede. Num deles estava a foto de um menino, que chamou a atenção da Neida e ela mostrou-me, dizendo: "olha aqui, este é o menino do meu sonho". Sim, era um sonho em que ela recordava de outro sonho. Isto é normal acontecer com muita gente e com certa frequência até. E sob aquele quadro estava gravado um nome: André Luiz. A minha dúvida era quanto a dar ao meu filho um nome já tão conhecido, o mesmo de um dos grandes escritores espirituais da psicografia de Chico Xavier. Eu considerava isto a mesma coisa que dar a um filho um nome como de Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Paulo Sérgio, etc. (cantores da época). Mas, no final da conta, ele foi registrado como André Luís (com "s" no final, porque o cartório assim o determinou).
     E a história prossegue no próximo capítulo. Até já... ///


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