terça-feira, 30 de julho de 2013

06. BOBEIRAS DE UM ADOLESCENTE

     Com onze anos concluí o curso primário (fundamental), passei no "exame de admissão" ao ginásio (ensino médio) e fui matriculado no afamadíssimo Colégio Estadual Júlio de Castilhos, popularmente conhecido por Julinho. Com isso, passei a viajar de bonde para lá e para cá, ou seja, naquele veículo elétrico importado que rodava sobre trilhos e tinha, na época, quatro portas, todas abertas. Cansei de me dependurar numa das portas de trás, segurando-me no pega-mão e, depois de uma corridinha, saltando com os pés no estribo. Uma manobra perigosa, mas muito legal para o meu senso de guri. Tomava a condução na avenida Bento Gonçalves, quase esquina com a rua Barão do Amazonas e descia na avenida da Azenha, quase no seu encontro com a João Pessoa, em frente à praça Piratini, onde fica, ainda, o referido estabelecimento educacional. Uma vez, na volta do colégio, uma parada antes daquela em que eu desembarcaria, o bonde arrancou, eu corri e pulei, como sempre fazia, mas errei o pé e fiquei pendurado, agarrado ao pega-mão, até que não aguentei a ação da gravidade e me larguei, rolando para o meio dos trilhos. Como estava na parte traseira do veículo, sofri apenas algumas escoriações leves. Mas o susto foi grande e aprendi a lição.
     No primeiro dia de aula, o meu pai acompanhou-me até o colégio. Enquanto buscava saber em que turma ficaria, um menino veio ao meu encontro e acabamos nos identificando como colegas da mesma classe. Em meio ao nosso bate-papo, ele apontou na direção do meu pai e perguntou-me: -"É teu avô?" Constrangido, respondi-lhe: -"Não, é meu pai". Ele fez um ar de surpresa e eu ruborizei, envergonhado. Eu completaria, em abril, apenas doze anos de idade; meu pai já tinha sessenta anos e ostentava os cabelos brancos sobre a meia calvície. Bem poderia mesmo ser meu avô, na aparência. Por isto, sem confessar-lhe o verdadeiro motivo, pedi que não me levasse mais até a porta do colégio. Insisti que não precisava, pois já aprendera o caminho e não teria nenhum embaraço para chegar até ali. Após muitas recomendações, ele e minha mãe consentiram que eu fosse só.
      Engraçado: hoje estou com 64 anos e tenho um filho com 16 (o Carlos Eduardo, que completará 17 agora em agosto/2013). Portanto, quando eu estava com 60, ele estava exatamente com 12 anos. E já ouvi pessoas perguntando a ele se eu seria seu avô, como também muita gente já me perguntou, indicando-o: -"É seu neto?", a que respondo, agora com muita naturalidade: -"Não, é meu filho".
     Passado o primeiro semestre e encontradas as primeiras dificuldades no novo sistema de distribuição de matérias, olhem só a besteira que eu fiz: incentivado por um colega, comecei a gazear (matar, cabular) as aulas, especialmente de algumas matérias com que não tinha muita afinidade. Tínhamos mais ou menos as mesmas dificuldades, por isto um servia de companhia ao outro, burlando a vigilância e evadindo-nos do prédio, ou, muitas vezes, nem chegando a entrar, rumando para o Parque Farroupilha, onde fazíamos hora, para voltarmos para as nossas casas, como se houvéssemos estado na sala de aula o tempo todo.
     Tínhamos uma caderneta de presenças, onde eram carimbadas as palavras "COMPARECEU", ou "FALTOU", com tinta azul. Pois vejam só: o meu colega descobriu que escrevendo em letras maiúsculas, com uma caneta azul, a palavra "COMPARECEU", numa borracha branca, comprimindo-a sobre a linha correspondente ao dia da semana, na caderneta, ficava exatamente como se houvesse sido carimbada. Ninguém percebia a fraude. Assim o fizemos muitas vezes e o resultado foi que reprovamos e tivemos de repetir o ano. Juntos novamente, não tardou para que começássemos a aprontar tudo de novo.
     Em casa, inventava mil razões para não estar bem em certas matérias. Meus pais não conseguiam entender o porquê do meu duplo fracasso, já que novamente reprovei na mesma série.
     O mano João, dois anos mais velho que eu, tendo reprovado no curso primário, chegara ao ginásio quase junto comigo. Só que, por ter mais idade, foi direto para as aulas noturnas, no Ginásio Estadual Ignácio Montanha, a umas duas quadras do Julinho. Desistiu, depois de completar a 2ª série.
     Solicitei aos meus pais, já que não poderia mais frequentar o turno matinal, a minha transferência para o mesmo colégio do meu irmão, à noite, no que fui prontamente atendido.
     Aí, sim, voltei a ser aquele estudante aplicado, esforçado, interessado, como antes sempre havia sido. Agora, passava por média em quase todas as matérias, completando todas as séries ginasiais e chegando até ao final do primeiro ano do curso científico (2º grau, ou superior).
     Essa história, entretanto, custou-me muito caro e estou pagando, com juros e correções, pelos dois anos perdidos, até hoje. Desaconselho qualquer jovem que esteja fazendo algo parecido, ainda que seja simplesmente negligenciar os estudos, pois, lá na frente, no seu futuro, ele sentirá os efeitos negativos dessa negligência. Na sequência dessas minhas recordações, o leitor irá compreender a extensão do dano que a mim mesmo causei.
     Para quem me conhece, fica talvez a surpresa de que nem sempre fui um bom menino. Confesso, no entanto, para decepção geral, que também cometi erros clamorosos já na fase adulta, especialmente no que se refere às atividades profissionais, como irei narrar oportunamente. ///


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