Em torno dos meus oito, nove anos de idade, um tanto retraído, preferia ficar a sós comigo mesmo, brincando sozinho por horas a fio. Tinha certa predileção por ônibus e micro-ônibus a qualquer outro tipo de veículo. Então, tinha dois tipos de brincadeira que costumava fazer, esquivando-me de qualquer companhia. Uma delas era pegar um velho carrinho de bebê, já sem lona, só a carcaça de ferro, deitá-lo em um cantinho do pátio, fazendo de uma das quatro rodas o volante do veículo que eu dirigia, sentado numa cadeira. Com um pedaço de pau fincado no chão fazia a palanca do câmbio, com que imaginava as trocas de marcha. Três pedras estrategicamente colocadas sob os meus pés compunham os pedais do acelerador, do freio e da embreagem. Com um movimento dos lábios e a emissão de um som característico, imitava o ruído do motor e mentalmente percorria o trajeto da antiga linha "Santo Antônio", hoje substituída pela "Caldre e Fião", que servia o nosso bairro. Ia do ponto final, que era na rua Caldre e Fião, esquina com a Barão do Amazonas, até a avenida da Azenha, trecho que eu conhecia bem, parando em cada ponto de embarque e desembarque, imaginando tudo detalhadamente.
A outra brincadeira também tinha a ver com transporte de passageiros. Com efeito, talhava alguns pedacinhos de ripa de madeira, confeccionando uns "onibusinhos", com janelinhas desenhadas à caneta e as cores da empresa concessionária da época pintadas a lápis de cor. Os toquinhos não possuíam rodas, mas para mim era como se as tivessem. Nos fundos do pátio, próximo à cerca e ao portão de acesso pela rua Guilherme Alves, com uma tabuinha eu desenhava no solo uma cidade imaginária, com várias ruas paralelas, transversais, curvas, etc. Depois de pronta, determinava um itinerário e então conduzia as pequenas viaturas para lá e para cá, com direito a um ponto de partida e um ponto final, passando por várias paradas.
Ainda dessa mesma fase da minha vida, lembro-me de colecionar carteiras de cigarros. Das marcas existentes, retenho na lembrança as seguintes: Continental, Hollyood, Mistura Fina, Urca, Marrocos, Pullmann, Belmont, Saratoga, LS, Minister...
Os gibis que eu mais gostava de ler eram estes: Bolinha, Luluzinha, Brasinha, Gasparzinho, Tom & Jerry, O Pato Donald, Tio Patinhas, Mickey, Zorro, Jene Autry e Roy Rogers.
Jogar bola com a molecada da minha faixa etária não fazia parte do meu "cardápio" de brincadeiras, pois sabia que iriam tirar sarro do meu "pé torto", e eu não suportava críticas e zombarias.
Às vezes, dependendo dos participantes, animava-me a brincar de mocinho e bandido, assim como de esconde-esconde.
Desse modo cheguei aos meus dez anos de vida, de onde extraio as lembranças mais gratas e indeléveis da infância agora longínqua.
Até hoje, quando como um doce de abóbora, emerge em minha memória o dia do meu primeiro decenário, em que minha mãe fez um, muito gostoso, para comemorar a data, quando vieram abraçar-me a tia Vadina, a tia Lourdes e a tia Lídia, também irmã de minha mãe. Além delas, uma prima por parte do pai, a Geni, que era enfermeira da Cruz Vermelha, chegou de surpresa e me deu um lindo balão (bexiga) amarelo com listras e pintas vermelhas e azuis.
Foi um dia muito alegre aquele, em que fui o centro das atenções dessas pessoas queridas, hoje saudosas.
Não muito tempo depois, não consigo precisar quanto, a prima Geni veio a falecer, tão jovem ainda, por complicações de uma gravidez da qual ninguém tivera notícia até o dia do triste acontecimento, que chocou a todos nós, adultos e crianças.
O velório foi realizado na nossa casa, já que ela morava sozinha e os demais parentes do lado paterno moravam em Santa Maria e região, a cerca de 300 quilômetros da Capital, o que, para a época, representava uma distância considerável, o que os impediu de comparecerem ao féretro.
Foi a primeira vez que vi uma pessoa morta bem de perto. Por sinal, uma pessoa muito querida, embora os poucos contatos que tivemos, porquanto de vez em quando ela vinha ver os tios e era sempre muito amável para conosco, seu primos. Lembro-me de haver sonhado com ela, na mesma noite do velório, aparecendo-me viva e sorridente, como a se despedir de todos ali presentes, sem dor e sem mágoas, na partida para a outra vida.
Sabe a frase: "saudades eternas"? Há casos em que é absolutamente verdadeira, e este é um deles. ///
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