domingo, 28 de julho de 2013

04.O MENINO QUE QUERIA SER PADRE

     Eu, que iniciara minha formação escolar aos 7 anos, como era costume nesse tempo, estava agora, aos 10 anos, no 4º. ano do curso primário (hoje fundamental), passando de ano a ano por méritos próprios, de acordo com as normas educacionais vigentes.
     Fazia parte da grade escolar a educação religiosa, diga-se de passagem: católica, ministrada por padres, que vinham até a escola pública em seu traje típico, marrom, falando com aquele sotaque latino, bondoso.
     Aos alunos que correspondiam bem aos seus ensinamentos, demonstrando-o nas provinhas orais feitas de improviso, davam como prêmio um santinho (de papel), cada qual mais lindo. Também costumavam incentivar os alunos a participarem das missas em uma das igrejas mais próximas, que eram a de Santo Antônio e a de São Jorge, equidistantes em relação ao Grupo Escolar Afonso Guerreiro Lima, instalado havia apenas um ano em terreno existente em frente à minha residência, pela rua Guilherme Alves, onde meus irmãos e eu havíamos sido matriculados desde a sua construção.
     Assim, passei a frequentar a Igreja Santo Antônio do Partenon, onde eu havia sido batizado, distante cerca de um quilômetro do local. Pouco entendia das pregações, por causa do eco que se gerava no interior daquele tipo de edificação, confundindo minha audição, que nunca foi das melhores. No entanto, dedicava-me a rezar pela minha família, por todos os meus parentes e vizinhos, além de pedir, com fé, algumas bênçãos para mim mesmo.
     A melhor parte, porém, ficava por conta da hora das ofertas, porquanto, ao alçá-las, ganhava sempre um santinho, que ia somar-se aos que ganhava na escola e que já faziam parte de uma coleção.
     Por essa época, eu alimentava secretamente o sonho de me tornar padre, ansiando ajudar as pessoas com minhas orações. O sacerdócio católico parecia-me uma missão divina muito linda, muito gratificante.
     Ah! Mas havia um problema, que me fazia às vezes vacilar. É que, ao mesmo tempo, eu sonhava com um lar, no qual eu teria ao meu lado uma doce companheira, uma esposa amorosa e amada, e muitos filhos.
    O dilema era grande: ser padre ou chefe de família, já que, pela lei da Igreja, padre não pode casar?
      Aos dez anos de idade os meninos já olhavam para as meninas. Embora super tímido, não tinha como não eleger, entre as coleguinhas de aula, ou entre as menininhas da vizinhança, uma que seria meu par ideal, quando crescêssemos, naturalmente.
     Um certo dia, ao dar a oferta na igreja, para minha decepção, em vez de mais um santinho para a minha coleção, recebi um opúsculo, com letras miúdas e sem sequer uma estampa de santo na capa ou em alguma de suas muitas páginas. Tratava-se de O Evangelho Segundo São Lucas.
     Ao começar a lê-lo, no entanto, a curiosidade foi tomando conta de mim, uma vez que ali era narrada, com detalhes, a história de Jesus, o Salvador, a quem eu gostaria de servir de alguma forma, daí a insistente ideia de vir a ser padre, quando me tornasse adulto.
     Em casa, quando lia trechos do Evangelho em voz alta, meus irmãos comentavam, devido a pronúncia dos verbos na terceira pessoa do plural e dos "ES", muito bem articulados com aquele sotaque latino dos professores de religião: -"Este guri parece mesmo um padre", ou: -"O Evoti tem todo o jeito de que vai ser padre quando crescer". E isto em vez de me chatear, magoar ou ofender, ao contrário, enchia a minha bola e alimentava a minha certeza de que tinha a vocação sacerdotal.
     Apenas para que não fique uma imagem tão sóbria ou soturna dessa fase da minha infância, devo acrescentar, nestas memórias, a lembrança de que também confeccionava e soltava pandorgas (pipas, arraias), jogava bolitas (bolinhas de gude), andava de patinete e de carrinho-de-lomba, que eram feitos com madeira bruta e com rodas de rolimã (rolamento), junto com os meus irmãos, primos e amigos daquela faixa etária.
     Eu posso até ter sido muito enjoado e um pouco avançado em relação aos pensamentos e atitudes próprios da idade, mas tive infância, sim, podem apostar. ///
   

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