Vi alguns colegas saírem da loja para trabalhar em fábricas moveleiras ou em representações, com venda ao comércio varejista de móveis. Parecia que todos eles estavam se dando bem. O trabalho, na verdade, era só o de visitar as redes lojistas para recolher os pedidos. E o segredo do sucesso era apenas saber agradar aos vendedores para que eles direcionassem o interesse dos clientes para as linhas de produtos daquele determinado fabricante ou representante. Bá, era tudo o que eu queria.
Teve um colega que foi trabalhar na Sharp, empresa japonesa que se lançara, naquela década de 70, no mercado brasileiro, com uma nova modalidade de vendas: a oferta de televisores coloridos e aparelhos de som de última geração diretamente ao consumidor final. A Empresa indicava os clientes a serem visitados. Por insistência do ex-colega e amigo, fui até o escritório dessa Empresa fazer a ficha de solicitação de emprego e um teste. Isto foi numa sexta-feira, e pediram-me para estar lá na segunda-feira às 8 h 30 min., para saber o resultado. Nesse dia, aprontei-me sem pressa e me dirigi ao local, lá chegando às 9 h e 15 minutos. O rapaz pegou a minha ficha e falou-me que havia sido aprovado. "No entanto - disse ele - era para você estar aqui às 8 horas e 30 minutos e você está bastante atrasado. Sabe como é... esta é uma empresa japonesa e uma das exigências aqui é a pontualidade. Por isto, não será possível admiti-lo, pelo menos desta vez. Fica para outra oportunidade".
Que baita lição, heim?
Mas eu estava decidido a sair do J.H.Santos e partir para a venda externa, que a meu ver me daria um ganho muito maior. Conversei com o senhor "M" a respeito disto e ele ficou de ver o que poderia fazer para me ajudar.
Dias depois veio ele com um cartão de visita do diretor de uma Empresa de representação de uma famosa marca de móveis para escritório. Fui conferir e minha admissão foi imediata. Solicitei a minha demissão da loja e aventurei-me na nova modalidade de trabalho. Porém, na ânsia pela mudança, não me informei direito de pormenores, e só ao iniciar o treinamento, acompanhando um colega que já trabalhava no ramo havia uns dois anos, foi que descobri que se tratava de venda direta ao consumidor, isto é, diretamente para escritórios empresariais, e com região fechada, sendo que a minha era tipicamente formada por empresas de transportes, cujos escritórios, na maioria dos casos, compunha-se de duas ou três escrivaninhas e respectivas cadeiras, cujos gerentes não faziam muita questão de renovar. Além do que, a minha própria insegurança laborava contra mim. E foi assim que, com um mês de péssima experiência, percebi, ou melhor, confirmei que havia tomado o bonde errado e resolvi saltar antes que fosse tarde demais.
Ainda na pura ansiedade, aventurei-me como vendedor agora de um Cursinho de Inglês, cuja clientela era indicada por uma pesquisa realizada anteriormente por outra equipe.
O André já estava com quase um ano e a Bia com quase três, quando, mais uma vez sem grandes perspectivas, aproveitamos um final de semana prolongado para irmos a Pelotas visitar a minha sogra. No terceiro dia, creio, houve uma discussão, em que, deitada no sofá da sala às escuras e chorando, minha sogra acusava a filha de lhe haver causado um grande desgosto. Dizia ela que sabia que não iria viver por muito tempo e responsabilizava a Neida pelo que quer que lhe acontecesse.
Diante disto, minha esposa chamou-me e às crianças e determinou que iríamos embora imediatamente, no primeiro ônibus que saísse para Porto Alegre.
Na sequência dos acontecimentos, propôs-me uma mudança radical, ou seja, a possibilidade de irmos para São Paulo.
Tínhamos um casal de amigos morando naquela cidade e com quem costumávamos corresponder-nos.
Escrevemos então uma carta para o Vitorino e a Zeni, contando da nossa decisão e solicitando-lhes ajuda. Responderam ambos que poderíamos contar com eles, aconselhando-nos a vender o máximo de móveis e eletrodomésticos possível, pois uma mudança custaria muito caro, além de não possuírem um local apropriado para guardá-los até que conseguíssemos alugar uma casa para morar.
Eu estava indo sem emprego garantido, confiante apenas na força que receberia do amigo Vitorino, que, segundo ele mesmo, era muito bem relacionado com o empresariado do ramo de transportes, no qual ele trabalhava.
Assim foi que no dia dois de fevereiro de 1976, com o André completando o seu primeiro ano de vida, desembarcamos na antiga rodoviária paulista, no centro da mega capital, já nessa época denominada "selva de pedra". ///
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