Aquele ano de 1971 reservava-me grandes surpresas, decisões extremas e mudanças radicais, antes inimagináveis.
Havia sempre no quadro funcional da Companhia de Seguros Monarca - sucursal de Porto Alegre - duas jovens funcionárias, obrigatoriamente solteiras, por determinação da Matriz.
Em fevereiro, com a saída de uma funcionária, a Zilah, jovem espírita e muito minha amiga, era admitida uma moça pelotense chamada Neida, também conhecedora do Espiritismo. Não muito tempo depois, era a vez da colega Dorinha sair, para a entrada de outra pelotense, de nome Dalva. As duas já eram amigas e inclusive estudavam juntas, à noite, tentando concluir o segundo grau. Eram bastante extrovertidas, alegres, excelentes colegas.
Afora o gerente, senhor Antônio Alexandre, cearense criado no Rio de Janeiro, com nítido sotaque carioca, eu era o único casado da turma do escritório.
Todos conversávamos, brincávamos, trabalhávamos em conjunto e solidariamente, mantendo um ambiente harmonioso e de muito respeito, sob a supervisão geral do companheiro, solteirão e simpático, descendente de alemães, vindo da região de Montenegro, Egon Panke, que em verdade vigiava a conduta de todos.
No início do mês de julho entrei em férias, com a recomendação dos meus superiores de que deveria ir pelo menos uma vez por semana, se possível mais, conferir, acompanhar, supervisionar os trabalhos da pequena equipe pela qual eu era responsável.
às vezes a esposa me acompanhava, outras vezes não. E foi numa dessas idas sozinho, para ser mais preciso, na última delas, no início de minha última semana de férias, que a colega Neida, sabendo que eu era, assim como ela mesma, fã do cantor Roberto Carlos, perguntou-me se já havia escutado seu último lançamento, através do disco (LP) "As 14 Mais", editado anualmente com diversos intérpretes da Jovem Guarda. Respondi-lhe que não. Ela, então, mostrou-me a letra da música, que já estava fazendo um tremendo sucesso, com o título "Amada Amante", de autoria da dupla Roberto e Erasmo. Achei o tema e os versos bastante fortes; diria um tanto picantes, pelo menos para a época.
Quando eu já estava de saída, ela perguntou-me se eu queria uma cópia da letra, pois ela tinha mais de uma, e eu, para não ser indelicado, aceitei, com a intenção de jogá-la fora, assim que ganhasse a rua, a fim de evitar qualquer problema em casa, por má interpretação. Não obstante, esqueci-me completamente do papel que havia posto no bolso do paletó. Chegando em casa troquei de roupa e fui para os fundos do pátio, onde estava cavando uma fossa para a nova localização da "casinha", que até esse tempo ainda era "lá fora", como a gente dizia ao referir-se ao que hoje chamamos "WC", "toilete", ou, simplesmente, banheiro.
Bem, dá para qualquer leitor adivinhar o que aconteceu na sequência. Encontrado o papelucho no bolso do casaco, sem nenhuma prévia explicação sobre o de que se tratava, só poderia ser entendido como uma declaração de amor de uma de minhas colegas, mais provavelmente daquela que não possuía em seu dedo nenhuma aliança de compromisso, a saber, a senhorita Neida, pois a Dalva era noiva.
O clima familiar, que já não era dos mais agradáveis, ficou mais tenso, permanecendo instável até o final das minhas férias, que acabariam no próximo domingo.
Algo muito grave estava por acontecer, ou já estava acontecendo em meu íntimo. Do nada, sem nenhum aviso e sem nenhum motivo aparente, a não ser uma possível influência de algumas insinuações, até então totalmente infundadas, que já me acostumara a ouvir de minha companheira, sem lhes dar maior importância, percebi que estava sentindo saudades daquele rosto meigo, daquele sorriso aberto, daquela alegria vigorosa, antes vistos tão naturalmente. Comecei a notar que a figura da colega de trabalho agora não me saía da mente, mesmo que tentasse afastá-la dos meus pensamentos.
Na segunda-feira retornei ao escritório, decidido a não fraquejar ante o conflito íntimo gerado pela descoberta daquele novo sentimento que via brotando espontaneamente em minha alma.
Adentrei a sala com um semblante intencionalmente sério, taciturno, procurando evitar qualquer aproximação e até mesmo um olhar, que não fossem absolutamente necessários por força de alguma tarefa ligada ao seu setor.
Soube depois, pela Dalva, que aquela semana também fora atípica para ela, Neida, em relação aos sentimentos que também lhe assaltaram nos últimos dias de minha ausência naquele ambiente.
Em uma das oportunidades em que a nossa aproximação física se fez necessária, ela perguntou-me, baixinho, se eu havia sentido saudades. Respondi-lhe, em tom grave e seco, que não. Notei o desconforto emocional que lhe causou minha resposta e, lamentando o fato, afastei-me imediatamente. O coração pulsava descompassado e aflito.
Não sei por quanto tempo, se por algumas horas, por um dia, um dia e meio ou dois, mantivemos entre nós um silêncio tétrico e angustiante, mal dirigindo a palavra um ao outro quando estritamente necessário se fazia, ainda por causa de algum documento ou informação.
Em meio a tal situação, já completamente insustentável, ela tomou a atitude de escrever-me um bilhete, contando-me o que realmente estava sentindo, dizendo-me saber tratar-se de algo impossível, dada a minha condição de homem casado e pai de um garotinho de apenas cinco meses de idade, que não poderia jamais ser prejudicado. Ao concluir o bilhete, disse que nada esperava de mim, senão a minha compreensão e que só não podia mais suportar aquele clima de indiferença forçada, cujo motivo tentava adivinhar sem encontrá-lo, pois achava que nada havia feito para magoar-me ao ponto de a tratar daquela forma.
Quando acabei de ler suas palavras, com o coração quase a sair pela boca, estupefato, sentindo ainda mais forte aquele amor puro e sem mácula que me visitava o peito, sem o meu consentimento, olhei para a Dalva, que parecia aguardar ansiosamente a minha reação, e disse: "-É, minha amiga! Acho que estou num mato sem cachorro"...
Ela caiu na risada.
Querem saber? Não lembro muito exato como e quando dei a resposta à autora do bilhete revelador.
O que sei é que em casa, definitivamente, "a maionese já estava desandando" e não demorou quase nada para que a separação se fizesse inevitável e acontecesse de fato.
Infelizmente, tive que abrir mão de meu filho, tão pequenino ainda, deixando-o sob a guarda materna, consoante as prescrições da Lei e do bom senso.
Vem-me à lembrança o quadro de sofrimento imposto igualmente à minha saudosa mãezinha por conta da separação do neto querido, que ela havia ajudado a cuidar até então, e a quem muito se apegara.
Decisões tomadas, mudanças à vista. Era uma nova vida que começava para mim. E aqui estou, quarenta e dois anos depois, contando esta história, que não acaba por aqui; antes, está apenas começando. ///
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