sexta-feira, 26 de julho de 2013

02. OS MEUS PRÓXIMOS CINCO ANOS

     Depois de nossa chegada em Porto Alegre, até os meus dez anos de idade, embora fosse considerado motivo de orgulho para os meus pais, pois diziam que eu era muito inteligente e, de fato, gostava de estudar e de ler, devo ter sido um menino muito chato, quase insuportável. Começa que eu era demasiado tímido e bastante sensível. Na verdade, eu era mesmo muito susceptível. A qualquer pequena contrariedade já fazia um beiço de índio botocudo e desatava a chorar. Meus irmãos, primos e amiguinhos da vizinhança mexiam comigo só para me ver descontrolado. Chamavam-me, então, de manteiga derretida, o que fustigava ainda mais a minha baixa estima, fazendo-me desmanchar em lágrimas e soluços, indo dar queixa deles para a minha mãe, que sempre me acudia e me acalmava com palavras carinhosas e incentivadoras.
     Na escola, responder à chamada era um dos piores momentos. Mas as professoras sempre elogiavam o meu comportamento exemplar e a minha facilidade de aprendizado. Num bom trocadilho, em língua portuguesa eu tirava tudo de letra, enquanto em matemática eu só tirava 10.
     Minha tia Oswaldina, a tia Vadina, esposa do tio Inácio, que era barbeiro, quando fazia alguma festa em sua casa, pertinho da nossa, onde havia um enorme alpendre e bastante fartura, reunindo a família inteira de minha mãe, tios, primos e avós, pelo menos uma vez por mês, era a única pessoa que entendia as minhas manhas. Era ela, portanto, quem me servia à mesa, depois de verificar, com muita paciência e atenção, o de que eu realmente gostava e como preferia. Ela costumava dizer, em alto e bom tom: - "Deixa que eu sirvo o 'Votizinho'. Eu é que sei como é que ele gosta das coisas." E servia-me o prato de comida, o refrigerante ou suco, o café e o pão com a mistura escolhida, tudo de acordo com o meu paladar e as minhas manias de guri chato e cheio de vontades. Nem parecia que eu era filho de uma família pobre, que tomava café preto com pão seco torrado na chapa do fogão à lenha, ou mexido com farinha de mandioca e açúcar.
     Lembro-me de que os nossos uniformes escolares eram confeccionados pela mãe, com muito carinho e capricho, mas aproveitando sempre os sacos brancos de farinha de trigo que ela comprava no armazém. Usávamos alpargatas e tamancos de madeira, e as nossas cobertas de cama eram feitas com retalhos de velhos capotes militares que o pai deixava de usar.
     Por muito tempo, os banhos eram de bacia, num quartinho reservado para isto, e continuávamos usando a famosa "casinha" no quintal, que de vez em quando tinha que ser mudada de lugar, porque o buraco que servia de fossa enchia e outro era aberto para receber a latrina.
     A mana Iná já havia nascido e crescia cercada de carinho e cuidados de todos os irmãos. Uma vez, brincávamos de esconder e, em meio à brincadeira, ela sumiu. Todos saímos à sua procura, por toda parte e nada. Já havia um clima de desespero geral, quando o Valter foi checar um dos quartos da casa e a encontrou dormindo embaixo de uma das camas, onde ela se havia escondido.
     Sem geladeira e sem televisão, mas com os pais maravilhosos que tínhamos, nada parecia faltar-nos do essencial para vivermos e sermos felizes.
     Apenas os natais e as páscoas eram sempre uma incógnita para nós, crianças. É que ganhávamos brinquedos bem simples, enquanto nossos primos e amiguinhos ganhavam carrinhos de pedalar e bicicletas, entre outros presentes de valor, ou cestas recheadas de coelhos de chocolate maciço e ovos grandes, enquanto nossos ninhosinhos eram preenchidos com ovinhos pequenos, bombons e balas.
     Mas, com tudo isto, que tempos bons eram aqueles!  Que saudades! ///

Um comentário:

  1. Que lindo pai! Tenho muito orgulho de ti e sinto imensa felicidade e prazer em poder ler sobre tua vida... que também é a minha! Obrigada!
    Fico pensando na necessidade financeira que teus pais passaram e o quanto deviam sofrer em não poder proporcionar a páscoa e o natal dos primos e demais parentes...mas o quanto isto, pra criança, perde a importância sentida pelos pais, quando se tem o amor e o carinho destes...tal qual acontecia conosco na cohab...os melhores anos da minha infância!!!!!

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