quinta-feira, 25 de julho de 2013

01. LEMBRANÇAS DA PRIMEIRA INFÂNCIA

     Da minha infância primeira guardo na mente poucas e vagas lembranças. Como que envolta em branda névoa, lembro-me de uma casa de madeira, onde morávamos, na pequena cidade de General Câmara, situada à margem do Rio Taquari, na vizinhança das cidades de Taquari e São Jerônimo, no estado do Rio Grande do Sul, há poucos quilômetros da capital gaúcha. Foi nesta cidadezinha que nasceram meus irmãos Valter e Eloá, respectivamente dois e três anos mais novos que eu.
     Recordo que a rua não tinha pavimentação e que havia uma esquina perto de nossa casa. Eu devia ter cerca de 5 anos, talvez incompletos, não sei bem. O mano mais velho, Pedrinho, então com aproximadamente 15 anos, empurrava um carrinho de bebê, já fora de uso, velozmente, com meu irmão João (7 a.) e eu a bordo. Era muito divertido.
     Como o terreno tinha um ligeiro declive, havia uma escada de madeira, com cinco ou seis degraus, que dava da porta da cozinha para o pátio, na parte dos fundos da moradia. Alguns metros separavam essa escada da "casinha", chamada de privada ou latrina, mas que nós chamávamos de "patente".
     Mais ao fundo do terreno havia uma cerca de arame, limitando a propriedade locada, havendo em seguida um pequeno barranco e, depois deste, os trilhos do trem que por ali trafegava diariamente. De vez em quando íamos com o pai e a mãe passear nos trilhos e colher ervas de chás, como cidreira, carqueja, funcho, maçanilha, macela e outras.
     O fato pitoresco que marcou minha história nessa ocasião foi uma queda que sofri, rolando do primeiro ao último degrau da escada da cozinha. Fiquei sabendo depois que na época eu tinha o hábito de me finar quando chorava. Para quem não sabe o que é isto, é quando, durante o choro sentido, a criança vai liberando o ar dos pulmões (expirando), tendo, na sequência, certa dificuldade de fazê-lo retornar ao organismo. Resultado disto é que eu começava a ficar roxo, a amolecer o corpo, chegando muito próximo do desfalecimento. Quem estivesse por perto tentava imediatamente socorrer-me soprando em meu rosto e sacudindo-me, até voltar-me o fôlego. Era deveras assustador.
     Ao ver-me rolar escada abaixo, minha querida e saudosa tia Lourdes, irmã de minha mãe, que estava passando uma temporada conosco, saiu às pressas da privada, interrompendo a delicada operação fisiológica, temendo por minha integridade física, tão frágil costumava ser ante o menor incidente. Não obstante sua grande preocupação a meu respeito, muito brava ela ficou ao constatar que o seu sacrifício fora desnecessário, pois, em vez de chorando e me finando, encontrou-me dando risada do acontecimento.
     Quero crer, pelo pouco que ainda retenho na memória, que eu deveria ainda estar com meus cinco anos de idade, quando meu pai, brigadiano, foi transferido de volta para Porto Alegre, minha cidade natal, praticamente ainda desconhecida para mim.
     Após entendimentos mantidos com a família de minha mãe, acomodamo-nos provisoriamente em um puxado que havia nos fundos, entre as casas do tio Valter (mais conhecido por tio Quininho) e da tia Oswaldina (chamada de tia Vadina), no terreno sito à rua Guilherme Alves, com a outra frente para a rua Barão do Amazonas (número 2450), no bairro Partenon, próximo à Vila Maria da Conceição.
     A viagem foi no pequeno navio (ou barcaça) a vapor, de nome Porto Alegre, do qual sinto ainda uma saudade inexplicável.
     Não tardou para que meu pai descobrisse e comprasse uma propriedade, distante apenas duas outras de onde estávamos instalados. Era um terreno de 11 X 40 metros, com uma casa velha de madeira, sob o número 2482 da rua Barão do Amazonas. No meio desse terreno há, até hoje, um desnível, formando um barranco de quase dois metros, sendo que no nível inferior do mesmo é que estava a  referida construção, que, com muito labor, foi bastante melhorada, ganhando, inclusive uma meia água coberta com telhas de zinco. Quando chovia, o barulho era intenso, porém muito gratificante para todos nós. Anos depois, com a morte de meu pai, minha mãe reformou completamente a casa, onde hoje reside minha irmã mais nova, Iná, que nela nasceu.
     À época, a rua não era pavimentada, ganhando, alguns anos depois, um calçamento com pedras irregulares, sendo, mais recentemente, asfaltada.
     Ali vivi os melhores dias da minha infância, adolescência e juventude, ao lado dos meus queridos e saudosos pais e meus irmãos. ///

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